Livros

 
O REALISMO DE FLAUBERT

EM   MADAME    BOVARY

 

                                Murilo Moreira Veras

Gustave Flaubert é um dos principais escritores pós-iluminismo e seu romance MADAME BOVARY considerado obra-prima. É o livro que vamos discutir proximamente no CLUBE DO LIVRO.

Para melhor compreensão deste miniensaio, dividi-lo-emos nos tópicos a seguir:

1.   O Livro, a Trama, o Desenrolar

 

Gustave Flaubert (1821-1880) publicou Madame Bovary primeiro no folhetim Revue de Paris  em 1856, edição interrompida  imputada de “imoral” e o autor processado. Um ano depois, já liberada e Flaubert inocentado, a obra foi publicada. A repercussão foi enorme.  E esse o real objetivo do autor que com essa obra ousava atacar o romantismo, gênero literário então vigorante na França e fora dela. Ora, ele mesmo fruto desse mesmo romantismo, sua escritura ainda com laivos dos  artifícios românticos, apesar de seus esforços  deles se desvencilhar.  A trama, o enredo, não é absolutamente original, a maneira de desenvolver a história é que pode ser diferente, à custa de sua sofisticação estilística. Fala-se que ele reescrevia muitas vezes o que escrevia, às vezes corria às pressas á tipografia para corrigir ou modificar determinada palavra ou texto,  o livro já na impressão.  

Flaubert criou a história da vida de um casal Charles e Emma, vivendo em duas aldeias francesas: primeiro Tostes, depois Yonville d’Abbay Charles Bovary – cujo pai, Charles-Nenis-Bartholomé Bovary, casara-se pelo dote de 60.000 francos – formou-se em medicina, ele rapaz interiorano, sem nenhuma convivência citadina, ou seja, parisiense.  Falecida sua primeira esposa, casa-se em segundas núpcias com Emma Rouault. Vai praticar medicina como agente na aldeia de Tostes.  Depois, muda-se para Yonvilles. Acontece que Emma, sua mulher, casou-se com ele por imposição do pai que devia a cura da perna ao Dr. Charles, a quem tinha grande afeição. Apesar de morar na província, Emma tivera uma educação esmerada, frequentou convento e teve todos os requisitos culturais exigíveis à época, poia era filha única. Tocava piano e vestia-se com certo refinamento. No convento ( e qui se percebe o anticlericarismo do autor) Emma recebia instrução relgiosa e chegou a ter imensa devoção à fé, nas imagens, no Cristo Crucificado, em Nossa Senhora e todos os santos da Igreja Católica. Mas foi também no Convento, através de outras estudantes, às escondidas, que começou a ler livros supostamente proibidos. Eram romances de amor,  aventuras cavalherescas, herois e mulheres apaixonadas, que ela os lia com sofreguidão. Essas leituras influenciaram profundamente o caráter da Emma adolescente, transformando-a numa jovem excessivamente romântica, a ver a realidade com olhos desvirtuados, sonhando com castelos, homens apaixonados, lutas de mancebos por amor – livros ultraromânticos e históricos, como Atala de Chateaubriand e  Ivanhoe de Walter Scott e afins.

 Ora, ao casar-se com um médico de província, que não lhe podia oferecer aquilo com que sonhara, senão uma vida pachorrenta e medíocre, trabalhos domésticos, talvez ter uma prole, nada de bailes, sofisticação, atos e fatos estapafúrdios como ansiara. Com modos e atitudes de pequeno burguês, sem nenhum traquejo em lidar com a ansiedade feminina, Charles, o marido de uma mulher com sonhos sofisticados, não conseguia satisfazer a mulher, cada vez mais desapontada, a ponto de repudiá-lo. As coisas estão nesse pé, quando o casal recebe convite para um baile no palácio de certo figurão. Lá, ela participa de bailes e banquetes colossais que só fazem espicaçar-lhe a vontade de abandonar tudo e partir para outro destino.

Na volta, conhece proprietário de palacete que mora nas vizinhanças, rapaz garboso, rico, com cavalos magníficos e vida mundana. Ele acaba seduzindo-a e têm com ele uma paixão violenta. Prometem fugir, mas o rapaz cuja paixão por ela já começa a arrefecer, desaparece, escafede, deixando-a totalmente arrazada. Fica doente, não atende mais os interesses da casa. Sequer cuida da filha, recem-nascida, que entrega à ama. O marido não imagina o que ela tem, procura satisfazê-la, contrata até aulas de piano em outra cidade, Rouen. Mas, eis que lá se encontra com ex-apaixonado seu, León, escrivão e estudante de direito. Novamente  vive outra paixão violenta, esta até pior do que a primeira com Rodophe. Passa a enganar o marido de todas as formas, mentindo que vai para aulas de piano, mas na verdade vai se encontrar com o amante em hotel. Enquanto isso, se endivida  comprando tecidos, roupas, utensilos, joias e presentes aos amantes que o Sr.Lhereux lhe vende, mediante promissórias, a juros exorbitantes, sem o conhecimento do marido. Vende inclusive por procuração propriedade da família de Charles e tudo se esvai nas mãos do astucioso mascote. Então, Lhereux executa as promissórias, Emma entra num verdadeiro furacão, não tem como pagar, o processo vai aos tribunais e ela é chamada a juízo, se não pagar em 24 horas, é feita o sequestro dos bens de Bovary, tudo à revelia do desatento marido. Sem saída, recorre aos amantes, León, que não tem dinheiro, Rodolphe também, alega está em dificuldades financeiras. Como louca, vai à casa do tabelião, responsável pela execução, Sr. Guillaumin e este exige que ela se entregue a ele. Fora de si, folha seca, sem a quem acudir, vai a casa do boticário, consegue as chaves da dispensa de remédio com Justin, seu empregado – pega o frasco de arsênio e se envenena.

Sucede a morte, narrada de forma a mais violenta possível. O marido fica arrazado, não se conforma. Louco e sem entender o motivo de tanta desgraça tem um ataque e falece, também. E o romance acaba com a vida voltando ao normal para os protagonistas: Justin, arrependido,  frequentando o cemitério; o vigário com seus afazeres na paróquia e o boticário, este cada vez mais pretencioso e segundo as próprias palavras do autor “... Acabam de condercorá-lo com a cruz de honra.”

 

2.   À Guisa de Crítica Literária

 

O realismo foi um movimento literário e também filosófico pós iluminismo  que se espalhou pelo mundo ocidental, com o propósito de superar o romantismo – de Byron, Shelley, Goethe e outras estrelas desse desbragamento literário.  Gustave Flaubert e outros supostos antirromânticos, Emile Zola, Honoré de Balzac, Tolstoi, Charles Dickens assomam nas letras  como arrietes para acabar com o desvairamento romântico. Muitos desses escritores não conseguem se desvencilhar das armadilhas românticas e se perdem, por exemplo, no detalhismo, na insensibilidde, na sofreguidão de assumir a realidade, e acabam desfigurando-a. É o caso de Flaubert e seu mestre Balzac, na França. Tolstoi na Russia e  Dickens, na Inglaterra.

O tout force da obra do minucioso Flaubert é seu afã de extrair o máximo de realismo na sua escrita, tirar leite de pedra, com que porfia com o naturalismo  exagerado de Émile Zola – o naturalismo nascente, também contra o romantismo. Vladimir Nobokov, como crítico literário, claissificou este romance...”impecável mágica de estilo”, enquanto William Falkner ”... o melhor romance já escrito”.

Examinemos mais de perto essas afirmações sob nossa ótica. Em estilo, Flaubert é tido como o máximo. Inobstante, alguns de suas descrições são repetitivas – verificável à pag. 265, quando escreve: “... massas de sombras cobriam as folhagens”, passagem encontrada em vários outros textos. A repetição não parece fazer jus a uma tão decantada “obra prima”. Tal repetição se deve ao detalhismo   do autor em todo o romance, tornando a leitura cansativa. Aliás, é um artifício utilizado por todos os chamados “realistas” como León Tolstoi e o próprio Emile Zola. É quase impossível você acompanhar as descrições infindas do romance “Guerra e Paz”, de Tolstoi. Flaubert comete o mesmo “defeito”. Observe-se  a descriçaõ que faz das vilas, o evento da feira agrícola  e principalmente o episódio do baile no castelo de La Vaubyessard, casa do Marquê d’Andervillier, ex-secretário de Estado das monarquias dos Luises, baile onde Madame Bovary fez sua estreia na corte.

Flaubert é tão minucioso no adultério de Emma que  não é difícil descobrir em seu comportamento vários sinais de que era atacada repentinamente de “uteri furor” (furor interino). Veja-se, por exemplo, à página 356: “... Quando sentia vontade de ver León (seu segundo amante), partia e não importa que pretexto, e, como ele não a esperava naquele dia, ia buscá-lo no cartório.” E mais adiante, à página 362: “... Ela despia-se brutalmente, arrancando o fino cordão de seu corpete, que assobiava ao redor de seus quadrís como uma cobra a deslizar. Ela ia, na ponta dos pés nus, olhar mais uma vez se a porta estava fechada, depois fazia com um só gesto cair todas as suas roupas – e pálida, sem falar, séria, abatia-se contra o peito dele, estremecendo longamente.” O mesmo que acontecia às cortesãs célebres, como Valéria Messalina, a mulher mais poderosa de Roma; Cleópatra, que teve o primeiro amante aos 12 anos e seduziu tanto Júlio Cesa quanto seu títere Marco Antônio, e ainda mantinha  templo com jovens para satisfazer seus desejo sensuais; Paulina Bonaparte, irmã de Napoleão; Catarina, a Grande, que dizia praticar sexo seis vezes ao dia e tinha um harém com 21 amantes oficiais; e Mata Hari, holandesa à época da 1ª Grande Guerra, tida como espíã dupla, que tinha amantes de ambos os lados, alemãos e franceses, acusada foi fusilada em 1917.

Flaubert queria provar que o romantismo não passava de uma manifestação de loucura na literatura. Então, encarnou Emma como representante dessa loucura, e não havia maior loucura do que uma mulher casada cometer adultério por insatisfação sexual extrema – e com uteri furor . O romantismo se acometera de furor literário, desbragamento das letras, portanto deveria ser superado pelo seu reverso, espécie de escritura materialista, para acompanhar o naturalismo, ambos influenciados pelo cientificismo nascente, pos-iluminista. E assim tornou-se o embrião do que voga hoje na literatura: o veracismo.

Observe-se que Flaubert pode ter se inspirado em Cervantes, Emma atacada da mesma loucura  sofrida pelo “Cavaleiros da Triste Figura”, Dom Quixote. Tudo para inquinar de loucura o romantismo. Emma era, como Dom Quixote, uma sonhadora, uma irrealista. Mas Cervantes não é Flaubert, seu personagem é um crítico da própria civilização, dos costumes – crítica essa que se expande como uma semeadura do espírito, que iria influenciar toda a literatura das gerações seguintes. Dom Quixote é um épico; Madame Bovary é um mito sexual, encarnando o furor do realismo nas letras.

Ora, o audacioso escritor que teve sua obra máxima confrontada pela justiça, depois inocentado, igualou-se a outros autores com sua galeria de mulheres “adúlteras”. Temos “Kitty – o Véu Pintado”, de Somerset Maugham, cuja personagem trai o marido e depois confessa; Genoveva, que teria traído o Rei Arthur com seu maior guerreito Lancelote; Francisca de Rimini, a mulher pega em flagrante com o irmão de seu marido e castigada por Dante, na Divina Comédia; Margarida de “O Maestro e Margarida”, esposa que trai o marido com um maestro – e fica louca, o autor: Mikahail Bulgakov; Helena, da Iliáda de Homero, que  trai o marido com Páris, acarretando a famigerada Guerra de Troia; Hester, personagem de “A Letra Escarlate”, de Nathaniel Hawthorme, adúltera punida com a forca nos primevos dos Estados Unidos fundamentalistas; Dona Flor, personagem de Jorge Amado, com seus dois maridos, um vivo e outro morto; Connie Chatterley, em “O Amante de Lady Chaterley”, de D.H. Lawrence, que trai o marido com um trabalhador braçal movida apenas pela “atração sexual”; “Tesse de Urbervilles” (1891), obra de Thomas Hardy, uma mulher na era vitoriana, seduzada e depois abandonada pelo amante, que o marido repudia e acaba enforcada em prça pública.  

Flaubert de sua vez não pode deixar impune o Romantismo, embora ele, escritor, seja fruto desse mesmo romantismo. Assim, ele castiga sua personagem, a romântica sonhadora e infiel Emma. E como se vê da sequêcia de adúlteras nas letras, todas severamente punidas, Flaubert, mais realista que o próprio rei, impinge à sua personagem fim brutal. Nada de vingança do marido, um bovariano, medíocre, provinciano, imbecilizado e insensível à realidade dos fatos: Emma Bovary é praticamente trucidada pelos próprios amantes, pela sociedade, pela estupidez, pela esperteza de alguns de seus algozes (os personagens Lhereux e Guillaumin), sua única saída é recorrer ao suicídio, por arsênico, que a leva a sofrer como Cristo na cruz – Cristo esse  ironizado pelo autor na pessoa do boticário Homais e mediocremente defendido pelo vigário, Sr.Bornisien.

Enfim, desce a cortina. E a vida vai continuar, como se nada houvesse acontecido – é assim o mundo materialista do superrealista   Gustave Flaubert.

Proclamou, nas letras, a irrealidade do próprio realismo.

                                                          

                                                            Bsb, 27.01.16

 

 TRATADO  SOBRE A  CONVIVÊNCIA

 


                          Murilo Moreira Veras

O livro em pauta hoje é o TRATADO SOBRE A CONVIVÊNCIA e seu autor JULÍAN MARÍAS AGUILERA (1914-2005), filósofo espanhol, discípulo de José Ortega y Gasset (1883-1955). Compõe-se de 49 miniensaios, tendo como temática principal a convivência entre pessoas e nações, com riqueza de detalhes,  sugestões e sobretudo reflexões. Marías teve uma vida profícua, escreveu muito, recebeu condecorações e combateu, o tempo todo, o bom combate, discutindo, sugerindo, informando sobre a realidade de nosso  tempo. Cremos que, pela linha assumida o filósofo  integra a corrente que Mário Ferreira dos Santos, escritor e também filósofo paulista, designava “filosofia concreta” – ou seja, especulação sobre a realidade como ela realmente se apresenta, sem a carapaça ilusória da ideologia.

2.. Antes de oferecer minha impressão pessoal sobre esta obra de Julián Marías, entendo de bom alvitre resumir os 49 temas abordados pelo autor:

1.Introdução

            Parte da promessa evangélica de que “A verdade vos tornará  livre”

2.Abertura ou fechamento

           Para Marías, existe uma abundância de informação no mundo, produção de livros em excesso, embora considere uma forma de sobreviver à esperteza;

 

(a)“Minha convicção de que sem uma considerada dose de bondade se pode ser “esperto”, mas não verdadeiramente inteligente

(b)“Nesta época em que a produção de escritos é imensa, em todas as suas formas, em que é inacabável não já o conteúdo do que se publica sobre qualquer questão, mas os simples títulos, a capacidade de distinguir é salvadora, talvez a única forma de sobreviver à inundação que nos acossa por todos os lados”- Julián Marias.

               © talvez a esperança esteja nos jovens

3.Ventos contrapostos

               Neste item ele insiste no excesso de informação e exalta a veracidde como antítodo, sobretudo contra o vírus totalitário

(a)  excesso de informação

(b) enxurrada de produção de livros

© ventos da falsidade: o “totalitarismo”

(c)  supostamente desaparecido, este  continua visível

 

4.O Irrenunciável

                Neste item, põe-se em evidência a irrenunciabilidade dos direitos fundamentais das pessoas, um deles o direito à veracidade:

(a)  os direitos fundamentais em que se funda a “realiade” é irrenunciável

 “ora, a verdade deve ser a moeda de troca da sociedade,desde que sadia, realize sempre um negócio perfeito, sem vícios redibitórios.” – Murilo

 

5.Verdade e Mentira

                 Neste artigo, o autor aborda a influência da imprensa e da TV e como a mídia pode prejudicar a saúde da sociedde:

(a)nada prejuca mais a saúde de uma sociedade do que a impunidade da mentira;

)b)“ ... a mentira, a falta de ética dominante, é contra o florescimento do projeto civilizatório, portanto, contra a humanidade.” – Murilo

6.Mais da Conta

                Marías cita o poeta espanhol Antonio Machado:

               “Mente-se mais da conta por falta de fantasia: também a verdade se inventa.”

7.Posse ou Negação

               O autor insiste em que devamos nos apropriar da realidade, para não resvalar em erros

8.Complacência indevida

               Marías aponta neste item a necessidade de cultuarmos a verdade:

(a) é urgente uma virada na direção da verdade

(b) restabelecer a saúde do corpo social invadida por essa doença

 

9.Complacência na mentira

                 Para o autor, não podemos transigir no aceitar a mentira:

(a) mentira: um dos maiores males da humanidde

 (b) não há complacência  à mentira

 © avançaremos  em direção ao futuro, eliminando-se a mentira

 

10.Insurreição da Mentira

               O autor continua apontando a mentira como um mal:

               “A única soisa necessária é uma virada na direção da verdade, uma vontade firme de não aceitar a mentira nem submeter-se a ela, nem sequer deixar-se macular e pertubar por sua influência.” – Marías.

 

11.Prosaísmo

                Para o autor, o mundo moderno sofre de um fenômeno chamado de “prosaismo”, ou seja, falta de imaginação, criatividade, afasia mental:

(a) há uma invasão do “prosaísmo” que penetra nas vidas indivíduais, não exclusivo dos espanhóis, mas de toda a Europa, do mundo quiçá;

(b) “o homem faz tudo por razões líricas” – Ortega y Gasset

 © o antítodo: o lirismo, a imaginação;

“(d) O prosaismo mata o desejo e fecha o futuro; os únicos meios de abrí-los são o lirismo e a imaginação” -  Marías.

 

 

12.Viver contra a verdade

            Neste ensaio o autor reflete sobre o problema da falta de verdade no mundo atual e suas consequências:

(a) é dominante em nosso tempo: vive-se contra a verdade, melhor, vive-se com medo da verdade;

(b) os três maiores males do século: o terrorismo, a droga e o aceite ao aborto;

          © programa   para o século XXI: reconciliação do homem com a    verdade, liberdade irrenunciável, realização do homem e mulher como tais, aceite à mortalidade, busca absoluta da verdade.

13.Falsificadores de Dinheiro

                Marías abomina os falsificadores, responsáveis pelo descrédito e a erosão do valor monetário, com influência negativa à economia;

(a) há cumplicidade da sociedade deixando operar ainda hoje “prensas clandestinas” ou escritores que difundem a falsificação;

(b)  condenar  os falsificadores, desprezá-los, eis como salvar a saúde da sociedade;

© o mesmo com relação à “corrupção” que deve ser erradicada

 

14.Imagem Falsa

           Neste item, o autor denuncia que as pessoas hoje falseiam a realidade e isto implica numa visão errônea do mundo:

(a) abusa-se  do apelo à democracia e aos democratas

(b) os indivíduos perderam a capacidde de agir, de rejeitar e corrigir, estabelecer a verdade, sua importância

© as pessoas se tornaram “vulneráveis”

(d) quanto mais liberdade, melhor

(e) as maiorias muitas vezes são oprimidas por minorias atuantes.

 

15.Resitência ao Nada

        Marías se apoia na atitude de Unamuno de que se deve “resistir ao nada”:

(a) projetos são feitos em todas as idades, sempre partindo do passado

(b) devemos nos manter sempre aptos e vivos

© o que levamos desta vida não são bens materiais, tesouros adquiridos, mas, sim, nossos projetos existenciais

16.A Proporção

         O ensaista aponta que há uma desproporcionalidade das coisas e dos fatos nos tempos atuais:

(a) milhões  de pessoas vivem em estado de erro: falta-lhes o senso de proporcionalidade dos fatos da realidade concreta

(b) Espanha: meio milhão de analfabetos e o restante analfatos funcionais

© os fatos não são devidamente equalizados

(d) há certa falência nas estatísticas

(e) uma grande falácia, por exemplo: o aquecimento global, baseado apenas em estatísticas

(f) colóquios  e debates na mídia: inócuos, quando não preocupantes

(9) há uma certa atração pelo “catastrofismo”

(h) não se observa a justa proporção entre os fatos ocorridos

 

              17.Fronteiras do Apreço

                           Neste item, o autor aponta a falta de apreço a pessoas e às                                        doutrinas e instituições:

                         - as expressões “direita” e “esquerda” são expressões estúpidas                  e funestas, a não ser que se refiram  às mãos ou às casas.

 

                  18.Ordem de Magnitude

                                 Neste item, o autor observa uma desorientação atual do                                    mundo, falta de clareza da realidade e aponta os motivos:

(a) jornais na razão inversa dos interesses

(b) TV : assuntos desimportantes, informações catastróficas ou tediosas, tertúlias e programas vergonhosos, piadas insolentes, opiniões às vezes ineficazes e impróprias, partidas de futebol já vistas

© a repercussão é imensa: os assuntos realmente importantes são esquecidos

(d) a mais perigosa: a megalomania gerada pelos “nacionalismos”

(e) Europa: desorientação sobre si mesma e seus membros.

 

19. Fragilidade da Evidência

              A visão da realidade tem se tornado frágil:

(a) filósofo Gratry: “Tout ce qu’ um homme a vu est vrai” – tudo o que um homem viu é verdade : o que não se vê, o resultado pode não ser verídico

(b) “Ser homem é um permanente e inseguro esforço de hominização, uma conquista do que se é: uma pessoa.” – Marías.

20.O Reverso da medalha

                O autor assinala que não adianta querer agradar as pessoas   se elas de antemão já são do contra:

              “ Não se deve tentar contentar aqueles que  não vão se contentar.” – Marías.

 

21.O Espírito que sempre nega

              Os terríveis efeitos do negativismo perdurante hoje em dia:

(a) Goethe: “Der geist der stets verneint” = “o espírito que sempre nega – o diabo.”

(b) atitude diabólica: o negativismo

© indíviduos,  grupos, organizações, partidos e até países que adotam a negação como estatuto

(d) a criatividade requer certa ingenuidade, sobrepõe-se a atividde negativista.

 

 

 

22.Infernar (Infernizar?)

               O autor explica o que está acontecendo com as pessoas, ao infernizarem os outros:

(a) infernar: mais que inquietar, é perturbar, irritar ou tudo junto

(b) atividade negativista

© há pessoas, associações, grupos e partidos que se dedicam a infernar

(d) há indivíduos vocacionados para infernizar os outros

(e) observa-se um rancor em tudo e em todos: “história       universal do infernar”

(f) certas pessoas: contra o que é digno, livre, promissor

(g) Espanha com fortes raízes teologais forjou casualmente o verbo “infernar” – permanente tentação do homem.

 

23.Agressividade

                Como o ser humano se tornou agressivo e egoista:

              (a)“Quem só pensa em si mesmo e no que lhe pertence – ou crê que deveria pertencer-lhe – revela uma anomalia, uma percepção deformadora do real, uma incapacidade de viver verdadeiramente no mundo com toda a sua complexidade e riqueza” – Marías

             (b)  deveria se voltar para o bom senso e ao “amor justo”

        24.Cativos

                             Sobre a liberdade para não se se livrar do cativeiro mental:

(a)  “Não ter liberdade é mau, mais é muito mais grave não ser livre” – Marías

(b) o totalitarismo: em torno de uma figura fascinante, às vezes desconhecida – Hitler, Lenine, Stalin

© partidarismo: forma de politização – abdicação da liberdade pessoal

(d) diálogos atuais: falsificações estéreis

(e) Quevedo para o homem de nosso tempo: liberdade esclarecida.

 

25.Desplantes

                Discute a falta de diálogo, distorção da política e outros atos negativos:

(a) dito ou ato cheio de arrogância, grosserias: eis o dicionário de nosso tempo

(b) impossível haver diálogo quando há descaramento

© impossível negociar com qualquer um ou conviver

(d) política: requer vontade, entendimento, compromisso, avalição e concessões

i(e) mpossível discutir a partir da negação ou distorção do real.

 

26.Impunidade Verbal

                 Problemas relacionados com a manipulação a bel prazer do uso da palavra:

(a) incremento da incontinência verbal : políticos e escritores

(b) intolerância: má retórica, propaganda, massas manipuladas

© as pessoas como massa dem anobras, verdadeiros autômatos

 

      27.Coisas Claras

                     Como os fatos e as coisas em Espanha podem clarear-se:

(a) há uma certa clareza em Espanha

(b) mas a mentira ainda é um valor.

 

28.O Cortês e o Valente

                Reclama o autor da falta de cortezia e do altruismo das pessoas:

(a) o cortez não exclui o valente – diz o dito popular espanhol

(b) a figura de João Paulo II quando em Cuba

© falta de cortezia, mesura, elegância na palavra e no zelo: frequente hoje

(d) “A incapacidade de admiração é um indício infalível da inferioridade e desconfiança” – Marías

(e) “Há pessoas a quem doi o talento de um Cervantes, Lope de Veja, Velazquez ou Goya” – Marías.

 

29.Expressão Pública

              A boa e a má representação política tem função pública:

(a)  toda política meritória se funda na opinião pública

(b) hoje todo mundo escreve, mas poucos escrevem bem ou até sabem escrever

© há três formas de comunicação pública: a retórica – arte de comover nascida na Grécia; a propaganda – técnica manipulatória e demagógica; a administração – notificação apenas aceitável

(d) política: pode ser degradante, mas também nobre, meritória e gratificante, uma arte a ser bem usada

(e) grandes políticos: Winston Churchil, Gen.De Gaule, Abraham Lincoln.

 

30.Espírito Positivo

               Deve-se cultivar o espírito positivo, isto é, observar a realidade integralmente:

(a) contrapõe-se: espírito negativista, este dominado pela ansiedade, o lado pior das coisas

(b) espírito crítico: observar atententamente o real, distiguindo o bem do mal – “le vrai d’avec le faux”, segundo Descartes.

 

31.Um Passo Atrás

                O autor nos previne como ser mais reflexivo, cauteloso no que se faz, diz e escreve:

(a) antes de falar ou escrever: dar um “passo atrás”

(b) parar, refletir, olhar as coisas de vários pontos de vista

© os ideólogos: simplificam com fórmulas, sem serem testadas, repensadas e até entendidas

(a)                   (d) continuar olhando, pensando, avançando até onde possível

 

32.Levar a Sério

                Levar a sério o que se vê, o que se quer:

(a) “O remédio para nossos males, se existe: não esta nas instituições, em opiniões difundidas pelas mídias, mas nas pessoas individiduais, em cada um de nós, no comportamento das inuméras parcelas da humanidade que compõem e suas articulações” – Marías

(b) “É frequente  ouvir elegiar um intelectual” que goza de grande fama, que mal foi lido, de quem não se recorda nem sequer uma ideia, uma imagem, um verso.” – Marías.

 

33.A Última Instância

             A responsabilidade da opinião pública não se confunde com uma opinião qualquer:

            “... estabelecimento de uma opinião pública responsável e justificável, também plural, sem ser atomizada, caprichosa – se assim for não é opinião pública, mas uma opinião qualquer e nem é opinião” – Marías.

 

34.Qualidade Pessoal

              O filósofo enfatiza a necessidade das pessoas serem corretas, honestas e verazes:

(a) decisiva  a capacidade de distinguir as pessoas: na vida privada e pública

(b) TV: contribui para a queda de qualidade dos espectadores, mostra   rostos, gestos, palavras

© más companhias: também pertubadoras

(d)há pessoas que nos ganham a confiança à primeira vista

(e) confiemos   mais em nós mesmos do que nos outros

(f) traço   dominante do mundo atual: não é a imoralidade, mas a desorientação

(g)  há uma esperança para o mundo: a adoção da verdade como valor.

 

35.Questão de Imaginação

      As grandes virtudes de se usar a imaginação:

                   (a) para plenejar o futuro

                    (b) só a realidade antecipa o futuro

               © pavoroso horizonte dos países: esqueceram a história

                        (d) inimigo da imaginação criadora: a timidez, a excessiva                                 modéstia

                    (e) Kant ousou dizer: “Sapere Aude” – ousa imaginar

                    (f) tédio: sintoma primário da excassez num país

                        (g) o maravilhoso da vida humana: nunca se chegar a uma                                           vida  que se queria

                    (h) “Governos sem imaginação no seu “modus operandi” é                                 um governo frágil, provinciano, o resultado é que o                                              País        decresce em mérito –  é justo o que acontece                                    atualmente        no Brasil: é governado por pessoas                                                  incompetentes, sem     imaginação, e, pior,                                           retrógrados.” – Murilo

 

              36.Integração

                  A cultura deve ser integral, fragmentá-la é desvalorizá-la e torná-la   infértil:

(a) supreende-nos:  hoje coisas importantes são negligenciadas

(b) qualquer  coisa é chamada de cultura: cultura da violência, prostituição da língua

© toda cultura é una : sua fragmentação é ignorância         

37.O Horizonte

                       Como visualizar  nosso horizonte, particular e público:

(a) “... o maior problema que enfrentamos é o descohecimento da história, potencializado por sua deliberada falsificação. A ignorância a reduz a um mínimo, muito próxmo do zero; as falsificações nos introduzem nos números negativos, o que é ainda mais grave.” – Marías

(b) “Domina no mundo uma visão míope, incapaz de abarcar um horizonte amplo, para não dizer de levar em conta o futuro previsível” – Marías

© é perniosa a omissão de quase tudo o que vale a pena

(d) “... as políticas, as decisões de governo costumam  ser apresentadas com uma visão “doméstica”, imediata, sem conexão com projetos de longo alcance.” – Marías

(e) falta  de visão de conjunto em relação às outras nações européias e também as americanas

(f) é vigente hoje: a mesquinharia, a miopia dos “nacionalismos”, sem propostas articuladas, desprovidos de conteúdo e criatividade.

 

38.Projetos e Prazos

               O autor sugere como as nações devem se organizar em termos de projeções:

(a) organizar   o pluralismo: projetos através dos “partidos políticos”

(b) projeção  em horizonte dilatado, evitem-se empreendimentos utópicos, pois, costumam levar ao desastre

© Espanha fim do século XV: criadora do ocidente, projetando-se à América – lugar generoso na história.

 

39.Convivência e seus Limites

               Para o autor, a Espanha progrediu, mas só razoavelmete:

(a) a vida pública espanhola está melhor

(b) condições   essenciais de convivência: liberdde, variedade de atitudes, teses e propósitos

 requisito  básico: não destruir a concórdia, baseada na verdade

(d) vontade  de não prejudicar

(e) reduzir   a agressividade

(f) fazer  as coisas bem o melhor possível

                                          40.Pensar na Democracia

                                                              Requsitos propostos  para a democracia:

(a) o único sistema de governo que pode ser considerado legítimo

(b) condições: ser possível; cumprir seus requisitos; ter limites do poder, governo ou parlamento; não tomar o nome democracia em vão (bastante ocorrível)

© há democracias contaminadas, sob perigo e países que não a tem

 

41.Iniciativa

                Urge que os governos e nações  tomem iniciativas:

(a) proliferam  organizações junto com a mídia, propondo mudanças, causando instabilidde nas sociedades

(b) discutem-se  assuntos menores

© “Os grandes projetos que podem dar esperança a um povo, que suscitam o interesse e a atividade que dão conteúdo às vidas individuais, não têm lugar.” – Marías

(d) ... “não se deve seguir docilmente aquilo que nos querem impor.” – Marías

(e) “... o decisivo é que cada um tome por sua conta a iniciativa e se esforce para ser o que deseja ser, o que sente que teria de ser e não o que lhe imponham, pela força ou por meio de astúcias.” – Marías.

 

42.O que se Pode Dizer

                       Critérios do autor sobre a liberdade de           expressão:

(a)  liberdade  de expressão para todos – em todos os sentidos:  respeito, crítica, contradita, insubmissão aos critérios de outrem

(b) a mídia tem deveres

© constitui  perversão da democracia: partido político ter por objetivo “opor-se” a outro.

 

43.Em suas Mãos

                O autor faz uma advertência:

                 - é preciso que depositemos confiança nos partidos políticos, embora a maioria seja inconfiável.

 

44.O Despertar das Maiorias

                Marías aponta o problema das maiorias e minorias na democracia:

(a) fenômeno  atual: a opressão das maiorias pelas minorias

(b) há inúmeras maiorias que se mantêm silenciosas

© o direito das minorias é essencial, mas é indesejável que elas oprimam as maiorias – muitas delas apáticas

(d)  século  XXI: que seja aberto à criação, à originalidade, mas contrário a todas as formas de “terrorismo”, degradante e perigoso.

 

45.Aonde se Quer Ir

                 Neste tópico o autor perquire o que queremos para o nosso futuro, faz suas propostas:

(a) o que os partidos políticos realmente querem, para onde querem que o País vá?

(b) as maiorias mantêm-se afásicas em grande parte do mundo – o que é angustiante e obstrui o futuro

© nosso  século nos propões duas alternativas:  prosperidade  ou decadência

(d) está  em nossas mãos optar: pela ignorância, o isolamento, a hostilidade, a falsificação da realidade

(e) é necessário decidir aonde queremos ir, quem nos conduzirá, quais as pessoas que serão nossos guias

(f) fundamental:  não se enganar, não viajar em companhias indesejáveis

(g) nosso destino pode não ter saída, nossa realidade diminuída, sem orientação e ponto final.

 

46.Para Começar o Século XXI

                O autor propõe agenda para o século entrante, soluções edificantes:

(a) voltar  os olhos para o passado

(b) totalitarismos:   devem ser execrados, mas deixa herdeiros

© enorme  o aumento populacional: curiosamente visto como um desastre

(d) eis a verdade: o que ocorre é falta de organização e generosidade

(e) técnica aliada ao liberalismo democrático: responsáveis pela fabulosa criação de riqueza

(f) demagogia existente: essa criação de riqueza não perdura  – certamente os demagogos de plantão desejam a perpertuação da pobreza, permitindo a manipulaçã, o domínio das pessoas

(g) é inquietante: o desaparecimento das vocações científicas –  devido a excessiva especialização e a falta de entusiasmo

(h) desde 1960: terrorismo organizado, consumo exagerado de drogas e aceitação social do aborto

(i) urgente: temos que nos tornar herdeiros do legado do passado – é nossa condição humana

(j) globalização: grande falácia, o mundo na vedade é plural

(k) reina pavoroso provincianismo: no Ocidente e na América, apesar do tecnicismo e da comunicação

(l) os nacionalismos exarcerbados derivam dessa espécie de aldeanismo

(m) é preciso que nosso século complete o que já foi feito.

 

47.A Ilusão da Europa

                Os erros comeitidos pela decantada união européia:

(a) a UE poderia ter sido criada diferente: mais criativa e com esperanças

(b) introduziu-se:  curiosa combinação de homogeinidade e provincianismo

(a)                   © as  nações se desconhecem mutuamente

(d) fala-se  de paz, mas o que há é e extermínio entre os europeus

(e) é preciso iniciar nova etapa: correção e aprendizagem com os erros cometido

(f) renovação realística: a Europa se transformou numa espécie de fecundo enxerto

48.O Século XXI como Porvir

                Marías assinala como deve e não deve ser nosso futuro:

(a) Século XXI: falta imaginação

(b) é preciso pensar o novo século como espaço histórico – a história a grande esquecida

© deve se  olhá-lo não como futuro, mas PORVIR – pois depende de nós, de nossa irrenunciável liberdade.

 

 

49.Ponto de Partida

               Segundo ele, eis como tudo deve se iniciar:

(a) continuidade e não “continuismo”. aquela significa renovação – rupturas  são retrocessos

(b) forças em grande parte explicativas de nossa história: preguiça e inveja – o “partidarismo” pertuba o sadio mecanismo da história

© há tendência moderna e pós-moderna de esquecimento da história

(d) empobrecimento cultural:  nossa situação hoje

(e) a sociedade deve seguir em frente

(f) grande  fator da DECADÊNCIA: as fragmentações, de ideias, pontos de vistas e falta de CONSCIÊNCIA

(g) o terceiro milênio: abre-se como uma imensa PERGUNTA.

 

3. Nossa Impressão

   

Julián Marias é um filósofo  de grande conceito, haja vista que foi discípulo de José Ortega y Gasset. Como dissemos antes, Marías, filósofo, persegue a corrente a que se filiou Mário Ferreira dos Santos – a filosofia concreta, especulação sobre a realidade, arejada das impurezas ideológicas. Podemos perceber essa visão em todos os temas objeto das reflexões do autor. Não se trata apenas de um “tratado sobre a convivência” – o Mestre Marías vai mais além, suas análises, sempre percucientes e objetivas, versam sobre ética, estética, educação, filosofia e política, sem falar que dá palpites também em sociologia, estatística e história. Portanto, é um verdadeiro “filósofo”. Diríamos até que ele, em seus miniensaios, adota método semelhante à  maiêutica  de Sócates, coletando dados do real – as ocorrências proposionais – para através delas, extrair suas coclusões. O resultado é que suas observações são extremamente úteis, válidas e  verazes. Muitas delas de uma oportunidade gritante. É claro que Marías tem em mente a realidade da Espanha, seu país de origem, mas sua visão abarca toda a Europa e até a América. E vamos além: o que o filósofo observa no seu país, as particularidades,  os absurdos, as incongruências, a afasia reinante, a atuação ambígua dos partidos políticos, a falta de horizonte claro em termos de perspectiva – é como se estivesse se drigindo ao caso brasileiro, à nossa situação, a se referir a nosso povo, nossas ideias, nossa cultura, enfim as nossas deploráveis circunstâncias.

A maior preocupação do ensaísta ao expor os problemas que, a seu ver, entravam não só  o progresso da Espanha, mas de todo o mundo, é a falta de clareza dos políticos e consequentemente dos governos. Como resultado, por prevalecerem suas ambições pessoais ou partidárias, em vez de as nações que comandam  progredirem, evoluirem, mediante a continuidade das ações e dos projetos, os ditos políticos e governantes se acomodam com um continuismo medíocre e improfícuo. Segundo Marías, dever-se-ia era dar continuidade aos projetos, corrigindo os erros cometidos. Outro mal que ele sabiamente assinala nos nossos tempos é a tendência de a “democracia” ser tomada em vão, quando na realidade o que proliferam são democracias “contaminadas”, isto é, eivadas de imperfeições, erros – e o  que é pior, fazer da democracia trampolim para a plutocracia, a demagogia, ou isso que o autor abomina que são as ideologias, hoje em voga, pois não passam de totalitarismo disfarçados. Outro ponto importante a se ressaltar no “tratado ético e estético” de Mariás é que ele faz absoluta apologia da liberdade, de o ser humano ser livre, ou seja, não se torne cativo de regimes, ações ou ideologias mesquinhas. E nisso, ele tem um pouco de “anarquista”, mas no bom sentido, como também parece ter sido, seu mestre Ortega y Gasset.

Por fim, assinalo que os 49 itens expendidos pelo autor, a maioria nos atinge de perto, parece terem sido escritos para nós, para nossas circunstâncias,  as advertências ali expostas são dirigidas ao povo brasileiro, à nossa situação, ao momento turbulento que vivemos, com nosso desenvolvimento em baixa, nossa moral perdida e quejandos afins, tudo sob suspeita –  cultura, literatura, religião, assim como vergonha, caráter e amor à Pátria.    

                                                                         

                                                                            Bsb, 8.01.16

 

 

     REFLEXÃO SOBRE UM BRASEIRO  LITERÁRIO
                                                             

                                                                          Murilo Moreira Veras

 


 

 

 

 

O livro a ser discutido na próxima reunião do Clube do Livro é “As Brasas”, de Sándor Márai, editado pela Companhia das Letras. O gênero é romance e sua leitura é, pelo número de páginas, 164 páginas, a rigor, não demorada. Não obstante isso, o leitor tem certa dificuldade quanto ao entendimento do enredo. O óbice está no estilo empregado pelo autor, pois o enredo todo é feito em “feedback”, isto é, fatos que aconteceram no passado e que são agora relembrados na forma de quase um “monólogo” e até solitário não fosse a presença de outro personagem fazendo com que se trate na realidade de um diálogo.

São três os principais personagens: Henrik, que é General aposentado, sua mulher Khrisztina e o amigo de infância, Konrad. A quarta se chama Nini foi quem criou o General, cujo pai tem grandes posses. Na realidade, trata-se de um triângulo amoroso, mas que só se vem a saber através do blá-blá-blá dialógico utilizado pelo autor.

O General, no foco do romance, já com cerca de 75 anos, alquebrado e solitário, só confia numa pessoa: a velha ama, que ainda cuida de tudo em sua casa.

É previsível ali, naquela casa, afastada, a existência de um grande segredo a permear. Começa pela falta de um quadro na galeria dos membros da família do General.  E esse retrato é de sua esposa, de há muito falecida, Khrisztina, aliás, pessoa enigmática, de quem só se sabe algo através do próprio General.

O foco da história está no encontro que o General marca com seu amigo Konrad. Ele pede que a ama Nini prepare o jantar o mais sofisticado que puder. Ali, naquele ágape íntimo muita coisa vai ocorrer.

Mas, na realidade, o que ocorre é um diálogo entre os dois contendores: o General e Konrad, seu amigo de infância. Melhor, um grande monólogo, pois o outro, Konrad é inteiramente monossilábico. Não quer esclarecer nada, prefere a incriminação do silêncio. Ora, quem cala, consente.

Tentemos desembrulhar a questão. Henrik, depois de todos esses anos, guarda consigo um grande segredo e esse se dilui num incomensurável rancor. Ali, naquele encontro, como brasas ardentes, as dos candeeiros de um tempo já passado, os dois se digladiam. Mas não com armas: com palavras.

Prestação de conta? Vingança? Quem deve ser punido? Como esquecer o terrível imbróglio surgido entre dois amigos?

É uma história de traição, um acontecimento ocorrido no passado, mas vem à tona agora. O autor constrói o seu panegírico pretendendo obter o reparo de um ato de traição conjugal.

No passado, os três eram íntimos, ele, Henrik, Khrisztina, sua mulher e o amigo de infância, o enigmático Konrad. O amigo visitava a casa do General corriqueiramente. Um dia, numa brumosa manhã, os dois vão caçar. A certa altura, surge uma presa e Konrad prepara sua arma para abatê-la. Mas, num breve lapso, ao invés de apontar para a presa, aponta para outra, o General, seu amigo, a três passos de sua frente. A suposta vítima tem a rápida presunção de que o amigo vai abatê-lo com um tiro. Ou tudo não passou de uma loucura? Por que ele queria matá-lo? Uma coisa muito grave acontecera.

Enfim, depois de todos aqueles anos, o General agora quer saber toda a verdade, se ele Konrad quis matá-lo e por que ele não o fez, .naquele dia.

Mas Konrad não abre o segredo e responde com monossílabos.

Agora, sim, através dos longos monólogos de desafogo do General é possível configurar a verdadeira situação. No passado, naqueles tempos de convívio, Khrisztina traiu o marido com o amigo. Os dois se entendiam muito bem, tinham os mesmos interesses e um vínculo: ambos eram de família pobre. O General, ao contrário, vinha de família nobre, grandes posses.

A literatura de um modo geral está repleta de enredos sobre traições amorosas. Ana Karênina de Tolstoi traiu o marido com um volúvel militar aristocrata, o marido não aceita, revida drasticamente, proíbe-a de ver o filho, ela se mata no fim do livro. Luisa de Eça de Queiroz trai o bondoso marido com seu primo sádico e irresponsável, depois de grande sofrimento, morre nos braços do marido, que a perdoa. E, enfim, para não nos enveredarmos em mais traições – que são muitas e o tema é inesgotável – temos a traição enigmática de Capitu de Machado de Assis a seu marido Bentinho, ex-seminarista, depois advogado a exercer uma lenta, mas cruel vendeta. Não há certeza absoluta de que ela Capítu tenha traído Bentinho com seu amigo.

Tracemos um ligeiro paralelo entre as duas obras, Machado e Márai. A meu ver, ambos são do gênero psicológico. Machado explora esse gênero com ardil e extrema habilidade. O seu objetivo é demonstrar que a ficção é, de si, ambígua, como o é o ser humano. No livro, o que se tem é o lado do marido traído, não temos a confissão da suposta traidora. O autor criou o enigma, como extensivo ao ser humano. E o que ocorre em “As Brasas”: a traição é provada, há indícios, até um suposto crime premeditado. Os cúmplices não tentam mais esconder. Khrisztina abandona o lar e Konrad, o amante desaparece da cidade de uma hora para outra, sem deixar pista, um recado ao amigo. São a prova da traição.

Todo sesse imbróglio o leitor só vem saber através das longas falas do General, enquanto o outro, o traidor, se limita a escutar.

Suponhamos agora que o Sr. Sandór Márai queira dizer outra coisa com esse estranho e inconsútil romance praticamente a dois personagens. Ora, ele foi expurgado da sua pátria Hungria. Não significará o romance um libelo a ação dos comunistas que tomaram de assalto sua pátria e sufocaram, ali, as liberdades, inclusive a dele, que teve de homiziar-se nos Estados Unidos? Konrad o traidor, Khrisztina a pátria que se deixa trair, à força de uma ideologia acintosamente contra a dignidade de um povo, uma nação, traída?

Concluindo. Não é um romance de leitura fácil, por causa da constante temporal, que nos dificulta o entendimento, de tal forma que o leitor, nós, afinal, ficamos como quê refém do blá-blá-dialógico.

É o que temos a dizer ao digerir esse pequeno tijolo psicológico.

                                                                             Bsb, 25.07.15

  

                 O NAZISMO BRASILEIRO – PEQUENA

HISTÓRIA : FICÇÃO OU REALIDADE?
                           
 

                                 Murilo Moreira Veras   

 

O livro A Segunda Pátria do Sr. Miguel Sanches Neto deu-me a impressão de se tratar, mais do que uma narrativa, espécie de “...samba do criolo doido”, nos moldes da invectiva humorística do escritor carioca Stanislau Ponte Preta.

A narrativa se desdobra algo à la volonté, os entrechos movendo-se sem pé nem cabeça, tantas são suas absurdidades.

- Getúlio Vargas faz pacto secreto com Hitler, envolvendo, além de negócios, a divulgação da ideologia nazista no Brasil?

- O Füher vem ao Brasil a convite especial do então também ditador Getúlio Vargas?

- Hitler – sabido e notório que não gostava de mulheres, mas, sim, de cães e crianças, especialmente seus sobrinhos – em Porto Alegre mantém, em absoluto segredo, encontro erótico com uma brasileira de origem alemã, chamada Hertha, por sinal a heroína do romance?

E não se resumem a este pé as especulações do autor, ao contrário há um crescendo alucinante, espécie de relatório futurista, com o adendo de se referir, de roldão, a um retábulo da história do Brasil, envolvendo o governo de Getúlio Vargas e a Alemanha de Adolf Hitler.

Hertha Sheiffer – a heroína ou melhor, anti-heroína  do romance – é uma brasileira, filha de alemães, de quem se narra uma história estapafúrdia. Órfã de pai e mãe germânicos, ela foi criada pelo tio Onkel Karl, pessoa muito liberal e de vida solitária, que lhe dá a regalia de agir e pensar como bem entende, daí a moça só viver pensando em sexo. Com o tempo, acaba se tornando promíscua, passando a se imiscuir com gregos e troianos, inclusive com Adolpho Ventura, negro criado entre alemães, que conseguiu estudar e se formar engenheiro. Hertha tem filho dele e se diz apaixonada por ambos, filho e pai.

Com este argumento, o autor de certo quer desmoralizar a tese central e razão de ser mesmo do arianismo nazista: as raças superiores, como a alemã, não devem se misturar com as inferiores, que são os judeus, índios, pretos, ciganos, e também comunistas.

São esses os principais ingredientes com os quais o Sr. Sanches Neto constrói este seu romance de trama extravagante, à semelhança de obras fantasiosas como a série criada pelo escritor espanhol J.J.Benitez  Cavalo de Troia  e as alucinações  extraterrestres de Erick von Daniken em seu  Eram os Deuses Astronautas?” – todos usando sua imaginação como donos da verdade.

Então é isto que se vê, um romance pretendendo apreciar um período da história brasileira – o do Governo Vargas – ditador à semelhança de outros ditadores, Mussoline, Salazar, Franco e Hitler, todos, como se sabe, querendo amordaçar nações e amedrontar o mundo à conta de suas ideologias fascistas.

Você sabia, por exemplo, leitor e leitora – de quem sempre se espera sejam afeitos à boa literatura – que Getúlio Vargas não se suicidou, mas foi assassinado pelas mãos de seu mais próximo guarda-costa, o negro Gregório Fortunado, cognominado “Anjo da Morte, o qual, agindo a mando de Oswaldo Aranha, abafou  seu protetor na cama com um travesseiro? Pois é assim que o autor narra, em seu romance, esses acontecimentos, com que considera, assim, errada toda nossa história, agora à luz também do 3º do Terceiro Reich de Adolf Hitler.

O próprio autor coloca entre seus personagens nesta insólita trama um tal Miguel Sanches, descrito como “... Filho de pais espanhóis que chegaram ao porto de Santos para trabalhar nas lavouras de café, em substituição à mão de obra escrava”.

Pois esse senhor Miguel Sanches, adulto se tornou adepto do integralismo e, depois, hitlerista. Não é difícil reconhecê-lo avo do autor, Miguel Sanches Neto. Nasce, então, a dúvida: será que ele não era prosélito do nazismo e assim seu livro é uma espécie de “mea culpa”?

A propósito de livros serem escritos assim de arrojo, acreditando-se com ele bater record de vendagem, observe-se o que escreveu no século XVII, Miguel de Cervantes, autor da obra-prima mundial Dom Quixote, livro editado em 1605 em Madrí, página 503 da edição Editorial Juventud. Trata-se de uma conversa entre Sansón Carrasco, D. Qixote e seus escudeiro palrador Sancho Panza. O assunto dos três é a história, cultura, os políticos e literatos, quando Dom Quixote  se sai com esta: “La historia es como cosa sagrada; porque ha de ser verdadeira, y donde está la verdade, está Dios, en cuanto a verdade; pero no obstante esto, hay algunos  que asi componem y arrojam libros de si como se fuesen buñielos (bolinhos fritos).”

Parece que o nem tão louco quanto parece Dom Quixote, pela pena de seu criador, Miguel de Cervantes, dirigiu esta crítica diretamente a outro também Miguel, escritor do século XXI, com grande peso de verdade. Aliás, convenhamos a crítica se generaliza, cabendo a carapuça a outros autores – esses que lançam livros aos montes no mercado, sem preocupação com a qualidade, mas quantos serão vendidos e a soma arrecadada, os “best-sellers”, atuais bolinhos de letras que fazem furor no mercado da anestesia mental.

Outro aspecto observável neste “Segunda Pátria”, do Sr. Miguel Sanches Neto é que a trama tem certa analogia, não sob a forma de palimpsesto, mas  com algum parentesco com o romance de Graça Aranha, de 1902, intitulado Canãa.

O livro de Graça Aranha, escritor maranhense,  segundo a historiografia oficial teria dado início a uma nova fase no romance brasileiro como exemplário do chamado “romance-tese”, em que o autor combina narração com ideias filosóficas, recheado de pitadas propedêuticas, a se entrechocarem. A síntese da obra de Graça Aranha é o seguinte: dois imigrantes alemães vêem ao Brasil para trabalhar na lavoura de café na região de Santa Catarina,  ambos com ideologias diferentes. Um é universalista e se guia pela lei do amor (Milkau) e o outro é divisionista e só acredita na força bruta (Lentz). O autor inspirou-se nas correntes filosóficas do final do século XIX prenunciando, assim, as  ideias modernistas. Também ali, o autor, considerado germanófilo, narra situações de conflitos ideológicos, com pitadas de filosofia teutônica.

 

 

 

Impressões Pessoais  

              

                Não é meu objetivo desvalorizar essa obra do autor, escritor consagrado e premiado pela crítica, com vários livros publicados. Ocorre que neste Segunda Pátria, a meu ver, o autor desvirtua os fatos históricos, de forma histriônica. Como insinuamos linhas atrás, talvez ele esteja fazendo “mea culpa” ao narrar esta história sobre escaramuças havidas em locais onde vicejaram colônias alemãs, mais tarde transformadas em atuantes núcleos nazistas. Eram verdadeiros nichos onde se cultuavam o arianismo do Eixo, sua doutrina disseminada aos demais colonos: o ódio aos judeus, negros, índios, ciganos e comunistas.

Talvez nisto resida o mérito do livro: uma advertência ao povo brasileiro para que fiquemos todos atentos à infiltração de ideologias espúrias em nosso País. O nosso passado histórico de lutas libertárias, nossos costumes, a fé que ainda cultivamos – tudo isso faz com que o povo não se coadune com regimes autoritários. Inobstante isso, continuamos dando boas vindas ao imigrante, a quem muito o País deve em termos de progresso, ideias e o empreendedorismo por eles praticados.

                                                                                Bsb, 27.05.15

 

 
PARIS EM TEMPO DE HEMINGUAY

 
                                                                                              Murilo Moreira Veras

 

 

Sob nosso olhar, o livro de Ernest Heminguay, PARIS É UMA FESTA.

Confesso: da obra do autor só li O VELHO E O MAR, sem dúvida uma obra prima. O que de Heminguay sei é que foi autor muito badalado pela crítica e durante sua vida escreveu relativamente muito, com livros como ADEUS ÀS ARMAS, QUANDO OS SINOS DOBRAM, este filmado e protagonizado por Gary Cooper e Ingrid Bergman.

Este ora sob discussão não me causou grandes arroubos. Na realidade, a meu ver trata-se de memórias, ou seja, reminiscências vividas por um escritor em começo de profissão (tinha à época entre 22 a 27 anos) e narradas mais tarde, em 1957, como explica o autor, portanto mais de trinta anos depois. Heminguay deve ter feito algumas anotações, para poder reproduzir em detalhes o que viveu tanto tempo atrás. Então, para disfarçar ele afirma: “Seja como for, ficção ou não, há sempre a possibilidade de que lance alguma luz sobre aquilo que foi escrito como matéria de fato.”

É possível, sim, que Heminguay tenha escrito matéria de fato, quando revive aqueles seus momentos em Paris e a tudo ele qualifica como sendo uma”festa”. Para o leitor atual, suas memórias não ressuscitam a verdadeira Paris senão uma cidade então pacata, com remotas lembranças dos desregramentos do Período de Terror vividos durante a Revolução Francesa de 1789.

Sua descrição da Cidade Luz nos parece de certo modo tosca e esquálida de emoções, haja vista que se restringe a descrever o comportamento de seus companheiros de ofício, escritores iniciantes ou já tarimbados, mas todos deslumbrados, como Scott Fitzgerald, James Joyce, T.S.Eliot, Gertrud Stein – a célebre Miss Stein – e outros, de fato muito mais medíocres que esses. O que é estranhável é que vivendo naquela época, a chamada Belle Époque, em Paris, não faça referência, por exemplo, a Henry Miller, Anaes Anin, assim com Paul Verlaine, Beaudelaire, Arthur Rimbaud e outros.

Em filme recente, Wood Allen – aquele cineasta americano cujo principal lema é desmoralizar as virtudes e alardear o sexo como item de felicidade eterna –0 rodou um filme intitulado “Uma Noite em Paris” em que a Belle Époque é muito bem retratada, com os escritores em baderna pelos bares, cafeterias, realmente uma festa de bebedeiras e fantásticas elucubrações desses boêmios literatos, como se tudo não passasse de uma farra.

Heminguay, que não parece ter conhecido Wood Allen, nos traz uma visão pessoal. Vê-se nos seus escritos o muito de egoísta e temperamental que era. Teria sido um grande jornalista, segundo a crítica, talvez pelo modo de escrever, de maneira enxuta, matando a cobra e mostrando o pau, no jargão chulo. Gostava de ser elogiado e já aquela época demonstrava ser o máximo e que os demais não sabiam escrever.

O livro PARIS EM FESTA não nos empolga. No nosso entender não passa de certas passagens da vida do escritor em Paris, ao lado da mulher e do filho recém-nascido. Paris não é propriamente uma festa, parece mais um lupanar onde se entretiam meia dúzia de escritores noviços deslumbrados, a fazerem arruaça nas cafeterias, restaurantes e bares. Não nos dá, na verdade, um visão do que realmente era Paris, pelo que Heminguay descreve uma cidade até suja, quase medieval. Interessante são os comportamentos dos personagens apontados pelo escritor e seus amigos de farra e muita conversa fiada. Referimo-nos a Scott Fritzgerald, um escritor snob, demonstrando riqueza sem ter e volúvel como sua esposa, a Zelda, esta totalmente desprovida de tramontana, chegando a ponto de enganar o próprio marido. Aliás, a certa altura, Heminguay  relata  que ela desmiolou-se de vez. No centro de toda essa esbórnia literária estava a figura de Gertrud Stein, espécie de guru, à época, em cuja residência fazia saraus com a presença desses delfins, monitorando o que escreviam e faziam, ela própria uma “fora-da-lei” típica bellepoquiana, matrona, dona da verdade e suas opiniões consideradas sagradas, não se sabe bem porque. Segundo Heminguay, ela também o considerava um bom escritor.

Talvez ai se encontre a parte mais aproveitável na festa parisiense descrita por Heminguay, esses modos de ser de escritores ali envolvidos, como James Joyce, considerado um gênio por Miss Stein, T.S.Eliot e Fitzgerald. T.S.Eliot sabe-se então que era pobre e teve de ser ajudado para manter-se como escritor, quando hoje é tido como uma das maiores  expressões  da poética inglesa, embora fosse natural dos Estados Unidos.  

A festa de Paris talvez se resuma nisso, um prelúdio da Belle Epoque cujos eflúvios, as esbórnias e as bebedeiras sugerem como a origem dos movimentos modernitas nascentes e que se espalharam pelo mundo como modelo de expressão artística, cultural e literária. Tais eflúvios aportaram ao Brasil por navio e encantaram os “hommes des lettres” de então, como Oswald e Mario de Andrade, supostos criadores do modernismo tupiniquim.

Não é de estranhar que respirando tal atmosfera, o Heminguay cultor de uma suposta literatura realista, querendo ser mais realista que o próprio rei e indo mais de vagar com o andor da modéstia, tenha resolvido dar cabo à vida em 1961, um ano após prefaciar seu “Paris É uma Festa.”

                                                           Bsb, 11.05.15


   


O  FIO DE ARIÁDNE  MODIANO


                         

                                                          Murilo Moreira Veras
                 1.   O Autor

 

Prêmio Nobel 2014, o escritor francês Patrick Modiano é autor de 40 livros, dos quais 30 são romances, portanto é um romancista. É badalado na França, decantador de Paris. Recebeu o prêmio máximo francês, o Goncourt e o Prêmio de Romance da Academia Francesa justo por este livro “Uma Rua de Roma” – em francês Rue des Boutiques Obscures. Escreveu roteiros cinematográficos (Lacombe Lucien, em parceria com o cineasta Louis Malle, em 1974), também autor de livros infantis e não ficção. Enfim: é um verdadeiro “gênio” esse “admirado e festejado pela irretocável beleza de seu estilo claro e fluente” que é Patrick Modiano.

 2.   O Livro, suas Nuanças

 O título em português não revela muita coisa, é vago “uma rua de Roma”, melhor e mais adequado o original, em francês “Rue des Boutiques Obscures”. Porque é a história que se passa numa rua de obscuras boutiques, misteriosos lugares, pessoas erráticas, personagens que se sucedem quase aleatoriamente, nomes difusos – tudo para, numa sequência de capítulos, também confusos,  realçar a amnésia do personagem principal. Aliás, ninguém sabe realmente quem é esse personagem. Guy Rolland, auxiliar do detetive C.M.Hutte? Howard de Luz que também pode ser seu avô? Pedro McEvoy, espécie de boa vida? Pedro Jimmy Stern, mas este teria desaparecido em 1940? O que se sabe é que ele, Guy Rolland, não sabe quem realmente ele é e busca, de forma difusa e como diz o francês, “nonchalement”, quer dizer, preguiçosamente, sua verdadeira identidade, pois perdeu a memória.

Não há negar, é uma narrativa singular, mas extravagante. Para se ter uma ideia da extravagância do autor, seu livro contem nada menos que 35 personagens e cerca de 54 lugares que o tal Guy Rolland percorre ou são apenas citados. O intuito do autor é esgarçar a trama, torná-la cada vez mais confusa, labiríntica, desnortear o leitor, a meu ver, à guisa de uma novela policial ou policialesca. Nosso Rubem Fonseca faria melhor, embora sem o charme desse premiado Modiano. Outro que Modiano quer imitar, mas está longe, em estilística e logística ficcional, é John Le Carré, cujas novelas primam pela aventura, mistério e muita ação.

O livro lê-se quase de um fôlego. O autor propõe logo de início um enigma para o leitor decifrar, ou melhor vai guiando-lhe os passos para, ao final, ousar encontrar o resultado. Ocorre que não existe “the end”, como nos filmes noir. Então a narrativa do Sr. Modiano não deixa de ser uma história noir, de filme, não tem fim, é indefinida, obscura, enigmática.

A segunda orelha do livro parece nos dar uma suposta chave. “La Vie dele Bottegne Oscure”, que teria dado nome ao título do livro, é uma rua existente em Roma que, na década de 1930, integrava o  gueto judaico italiano.

Que chave seria essa? O que essa narrativa quer se referir, melhor, o que representa esse Guy Rolland, desmemoriado, a buscar sua verdadeira identidade? Uma tarja na orelha tematiza: “...Uma narrativa esplendorosamente labiríntica, da qual o leitor sai fascinado para sempre.”

Ousarei fazer uma elucubração a respeito desse enigma proposto pelo autor. Penso que Modiano, o autor, possa ter se inspirado em assunto da Segunda Grande Guerra Mundial. Digo mais, nos filmes de espionagem, notadamente um dos que se constitui, até hoje, um dos maiores enigmas cuja trama não foi elucidada, de maneira totalmente convincente. É o filme “Casablanca”, os protagonistas principais Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. Ali não é um indivíduo só que busca resgatar sua verdadeira memória, é a própria história que quer se desvendar, em  si mesma, nos personagens, os quais, observe-se, são todos aventureiros. O enredo é labiríntico. É época da Guerra. Há um americano perdido em Casablanca, dono de um bar, estilo americano, por onde passam inúmeros personagens, policiais, foragidos, espiões, vigaristas, todos ali se mistura, interagem. Fogem do famigerado conflito? Ou fazem parte dele? O americano (Bogart) teve uma paixão no passado, com a belíssima (Bergman), também desconhecida e que atualmente está casada com um foragido, talvez espião. Esses três personagens se encontram no tempo real do filme, em Casablanca, no bar do americano, na realidade também um aventureiro. Bogart vê reacender sua antiga paixão, mas ela, Ingrid,  vive com um espião, de si, perseguido pela polícia. Bogart o esconde no bar, faz parte de sua paixão ajudar. Há uma intriga policial, o marido espião tem de ser repatriado para a Alemanha. Trocando em miúdos: o casal é descoberto, têm de partir num voo noturno fretado. E aquela cena final que simboliza toda a ideia do filme: o casal entrando no avião e Ingrid Berman, chorosa, mas lindíssima, acenando para seu ex-amante Boggart da porta do avião, enquanto este responde com aceno, longe. E o avião parte furando a neblina a envolver o cenário numa atmosfera de enigma e mistério.

Ora o nosso herói – melhor, anti-herói Guy Rolland, que é auxiliar do detetive C.M Hutte, está de partida, porque seu empregador está encerrando a atividade e vai fechar o escritório. O detetive sabe, nebulosamente, que Rolland perdeu e memória e que vai buscar encontrá-la, não sabe onde nem quando. Tudo é nebuloso. Ele pode assumir a identidade de várias pessoas. É Pedro McEvoy, que trabalha na Embaixada Dominicana, amigo de Porfírio Rubirosa – aquele célebre play-boy, na realidade grande vigarista internacional. Mas também pode ser Pedro Jimmy Stern (este teria desaparecido em 1940), bem como Howard de Luz. Qual deles é o verdadeiro personagem?

Na realidade, todos os personagens são vigaristas, de uma forma ou de outra. Ou são contrabandistas, indivíduos indolentes, sem caráter. Há inclusive um tal “Cavaleiro Azul”, que só se tem dele a voz e que parece até ser um assassino.

A narrativa segue um caminho vagaroso. Guy Rolland não parece muito preocupado, vai levando, com uma sucessão de fatos, até desimportantes. Apontam-se ruas, avenidas, cafés, hotéis (geralmente decadentes) de Paris, lugarejos. Os personagens às vezes surgem do nada, aqui e acolá se ligam à trama. Estes são sempre figuras erráticas, não há nada fixo na narrativa. O leitor fica ansioso – se é que há surpresa na leitura do livro, parece mais um filme “déjà vue”. Nada de novo no front dramático.

 3.   Um Fio sem Fim.

 Ao final, a narrativa não tem fim. Guy Rolland não reencontra sua memória perdida, diz que vai para o Pacífico, quem sabe outro personagem fantasma o ajude, um tal Freddie. E é por isso que o livro tem esse nome “Rue des Boutiques Obscures”, porque tudo é obscuro, brumoso, o autor parece não encontrar apoio em sua história.

Outra versão interpretativa viável seria que o Sr. Modiano quer se referir à atmosfera, em Paris, à época da Segunda Grande Guerra. A vida não faz sentido, o mundo parece perdido. O gueto de “La vie delle Bottegne Oscure” em Roma é o mesmo gueto de Paris. O pós guerra é asfixiante, cria uma vigarice generalizada. O judeu deixou-se cordeiramente ser levado para os fornos nazistas. Nonchalement, sem reagir. Guy Rolland consegue se salvar do forno da mediocridade. Onde está a bela Denise Yvette Coudreuse? Caiu numa armadilha, a armadilha da fuga do inferno nazista. Ela própria uma ladra, uma vigarista, que se deixou prender? Denise seria Ingrid Bergman que perdeu também o amante. Não é um avião atravessando a neblina, mas um carro cujos viajantes foram aprisionados na fronteira.

 4.   Reflexões Ficcionais Recorrentes

 O romance do Sr. Modiano tem qualidades ficcionais, está bem escrito, tem estrutura moderna, capítulos curtos, tanto quanto um “best-seller”, digamos “light”, desses que não visa o mercado fácil. Seu estilo é objetivo, mas, a nosso ver, falta-lhe agilidade, atmosfera de um verdadeiro suspense, como policial também falha, desprovido totalmente de ação. Romance de amor também não é, foge-lhe o sal, o necessário voyeurismo – inexistem cenas de sexo no livro. Em certos momentos decai na vulgaridade. Os personagens – que absolutamente não são redondos como requer a boa psicologia romanesca – são frágeis, evasivos, desfibrados de caráter. Muito diferente dos personagens, por exemplo, de um romance como “Trem Noturno Para Lisboa”, com figuras fortes, expressivas, bem urdidas psicologicamente.

Cá aos meus botões, fico imaginando se um romance como “Dom Casmurro”,  se tivesse sido escrito por um autor francês, certamente teria arrebatado das mãos do S. Modiano o prêmio Goncourt que recebeu por este “Uma Rua em Roma” ou “La Vie des Boutiques Obscures”. E o que dizer da surpreendente novela “Noite”, de Érico Veríssimo, narrando as peripécias noturnas de um desmemoriado em Porto Alegre? Ou o interessante “Os Tambores de São Luis”, uma história do Maranhão vivido em um só dia por um personagem? E cito também a novela “Maria da Tempestade”, com que João Mohana estreou o modernismo em São Luis. Mas seus autores não são franceses, mas brasileiros cuja nação, o Brasil, segundo Charles De Gaulle “.. n’est-ce pas um pay sérieux.”

                                                                           Bsb, 27.03.15

 

 

 

  







                           







REFLEXÕES SOBRE A HISTORIA DA LITERATURA ALEMÃ

                                                  

                                             Murilo Moreira Veras

 

Em discussão, o livro “História Concisa da Literatura Alemã”, o autor é Otto Maria Carpeaux, austríaco, que emigrou para o Brasil, aprendeu nossa língua e tornou-se jornalista, escritor,  também crítico literário e tem uma extensa obra.

Por enquanto dispenso dizer se foi adequada a indicação, apenas pretendo refletir sobre alguns aspectos do livro. Afinal, alguns  traços nos une à cultura germânica, haja vista que houve, no passado, autores brasileiros  que a admiraram, como Tobias Barreto, Manuel de Oliveira Lima, Lima Barreto e supreendentemente Monteiro Lobato, segundo artigo de Rafael Ban Jacobsen (site AMALGAMA). Sem falar em João Ubaldo Ribeiro, que disse ter morado na Alemanha.

A literatura alemã não exerceu influência apenas na Europa. A cultura ocidental  deve tributo a luminares germânicos,  como Goethe, Hegel, Nietzsche, Rilke, Heidegger, Thomas Mann e tantos outros.

É sob esse enfoque que fazemos esse comentário, onde refletimos sobre as influências que escritores germânicos exerceram sobre a literatura mundial. Repito: não  iremos confrontar e analisar autor alemão com estrangeiro, como seria ideal. Limitamo-nos aos nossos objetivos que é ler e discutir o livro de Carpeaux, cotejando os principais escritores alemães, cujas obras tenham consonância com a literatura mundial e também com a nossa.

 

1. Idade Média

 

Otto Maria Carpeaux, a título de “concisa”, nos apresenta uma visão panorâmica da literatura germânica a partir de suas raízes. E seu ponto de partida é a cristianização, isto é, quando os povos teutônicos se confrontaram com os monges beneditinos. Assim, a civilização alemã, propriamente dita, inicia com esses monges, fundadores, ali, dos primeiros conventos. O latim era fundamental nessa época.

- São Bernardo (680-750)

- Heliand (“O Redentor”) – o Evangelho versificado;

- Einhart - Biografia do Imperador Carlos Magno.

Com o recuo do latim, surgiu a literatura dos leigos:

- Otto von Freising (1114-1158) – temática dos cavaleiros, política com inspiração mística.

- Walther von Der Vogelweide (1114-1158) – o maior poeta alemão da Idade Média.

- Heinrich von Veldeke (1180) – holandês que escreveu em alemão, sua “Eneit” – inspira-se na “Eneida”, de Virgílio.

- Gottefried von Strassburg (1210) – escreveu o poema “Tristão e Isolda”, baseado em Thomas de Bretagne, em que se baseou Wagner para compor sua ópera do mesmo nome.

- Wolfram – o poema “Parzival” inspirou outra ópera de Wagner “Persival”, nele também se inspirando Goethe (“Wilhem Meister”) e Thomas Mann.

Fim do século XV, a literatura era decadente na Idade Média.  Tempo dos “goliardos”, estudantes de teologia que frequentavam tavernas e bordeis, a exemplo do poeta francês François Villon.

No período, surgiu um manuscrito do convento beneditino, hoje conservado na Biblioteca Estadual de Munique, chamado “Carmina Burana”, a mais lírica poesia individual  da Idade Média.

- “Canção dos Nibelungos” era um poema épico anônimo (1205) cujo autor talvez fosse austríaco, tendo inspirado a ópera “O Anel de Nibelungos” de Wagner. Em termos de mérito, a ópera figura ao lado de “Chanson de Roland” e “El Cid” –  como se sabe,  a maior façanha de toda a literatura.

Literariamente, o século XV foi decadente, em todos os setores, inclusive linguístico. Reinava na Alemanha o dialeto da Boêmia, próximo ao saxônico, no qual se expressou inclusive Lutero.

Em meio a esse marasmo, havia fenômenos isolados como o escritor Sebastian Brant (1458-1521), que influenciou  Erasmo de Roterdam, na Holanda e Gil Vicente na Espanha.

Observe-se que dos círculos da chamada “Devotio Moderna” nasceram dois monumentos: a “Imitação de Cristo”, e principalmente a obra de Erasmo, precursor da Reforma.

É  a época do humanismo que não se compara absolutamente com o francês de Montaigne, tampouco do inglês.

Os principais expoentes do período foram:

- Erasmo de Roterdã (1466-1536), que era holandês, autor do “Manual da Ética Cristã-humanista”, terrível arma contra o clero romano. Foi atacado tanto pela Igreja quanto por Lutero.

- Martin Luther (1483-1546) – Lutero – espírito medieval formado pela leitura da Bíblia e, também de Santo Agostinho. Ele que tinha contatos com Pascal, Kierkergaard, portanto, uma espécie de “Anjo e Demônio”.  Carpeaux dá-lhe o epíteto de  o maior prosador e gênio linguístico”.

 

2.O Pré-Barroco e o Barroco Alemão

 

Passemos para o século XVI. A literatura deixa de ser literatura para se tornar um documento histórico. O humanismo propriamente dito se divorcia da Reforma e torna-se canônico. Em 1587, é publicado em Frankfurt “A História do Dr. Joannes Faust”, livro que inspirou Marlowe, Lessing, Goethe e até mesmo Valéry e Thomas Mann.

Adentramos ao Barroco, quando a literatura alemã começa a ser valorizada. Dir-se-á que o século XVII cultiva já a alta literatura. Observe-se que Shakespeare só foi conhecido na Alemanha 150 anos depois. É fundado o Teatro Vienense e a literatura provem  de um grupo de aristocratas juristas, burocratas, teólogos protestantes e cientistas.

O Barroco alemão difere do protestante inglês e holandês, pois é pobre, tem costumes brutos, inseguro em termos de religião, reunindo beatos maquiavélicos, lascivos e também, por vezes, mártires. Isso inclusive demonstra sua inviabilidade cultural.

Por essa época despontam os famosos “corais” da Igreja Luterana, principalmente os expressos nas fantásticas cantatas de Johann Sebastian Bach. Surge o maior hinógrafo, o autor Paul Gerhardt (1607-1676), obra essa composta durante a famigerada Guerra dos Trintas Anos.

 

3.Século XVII

 

O século XVII é rico em poesia na Europa inteira. O maior poeta católico foi Johannes Scheffler (1624-1677), autor de “Angelus Silesius”, o “Caminhante Angélico” como ficou conhecido – obra, por sinal, próxima ao panteísmo.

Christian Hoffmann von Hofmannswald (1617-1673) e Daniel Casper von Lottenstein (1635-1683) se especializaram em poesia erótica, lasciva embora gongóricas.

No período, destaca-se uma obra barroca em prosa: “O Aventuroso Simplicio Simplicissimo”, o autor é Jacobo Grimmelshausen (1622-1676), espécie de panorama da época,  romance picaresco como o Dom Quixote, de Miguel de Cervantes.

4.Século XVIII

 

Estamos agora no século XVIII. O barroco já passou para o esquecimento. Aliás, tal como ocorreu no Brasil, o barroco parece não ter existido. Pior na Alemanha, pois, é o único país da Europa que não tem literatura alguma, no momento. É tempo de racionalismo.

A grande enciclopédia não é literária, mas musical e chama-se Johann Sebastian Bach (1685-1750), que, pouca gente sabe, pertencia à Sociedade de Ciências e Filosofia de Leibnitz – uma mistura de pietismo e racionalismo. E pasmemo-nos: foi amigo de Voltaire e de d’Alembert, ambos rebeldes religiosos.

A literatura deste século é protestante. Corneille, o teatrólogo e Racine, poeta clássico, não foram compreendidos na Alemanha. O primeiro poeta moderno nesse tempo é Christian Gellert (1715-1769, sobre quem Frederico, o Grande teria dito: “... o único sábio razoável entre os alemães.”

Internacionalmente famoso foi Frederich Klopstock (1724-1803)  divulgador da língua. A epopeia “Der Messias” é uma espécie de continuação de “Paradise Lost”, de John Milton, o poeta luterano,entretanto, mais esperançoso, sua temática a reconciliação de Deus com o mundo, o sacrifício de Cristo e o perdão geral.

Romance de formação nessa época foi a “História do Jovem Agathon” de Christoph Weland (1733-1813). Já Georg Lichtenberg (1742-1799), mais moderno, antecipou as ideias de Nietzsche e Freud, inclusive desafiou a cidade universitária em que lecionava, vivendo em concubinato. Cita-se também Moses Mendelssohn (1729-1786), aliás, o primeiro judeu na literatura alemã, autodidata, pobre, mas inteligente, espírito tolerante, embora fosse tímido. Seu neto foi o famoso compositor Felix Mendelssohn, criador de memoráveis peças musicais.

 

5.O Pre-Romantismo

 

A maior expressão literária à época foi Gothold Ephraim Lessing (1729-1781), tão universalista quanto Voltaire, Pope e Samuel Johnson, sua peça dramática “Klinger” assinala o pré-romantismo.

Segundo Carpeaux, o pré-romantismo alemão inicia-se com  “Wherther”, uma novela epistolar, escrita por Goethe, que se tornou  um verdadeira revolução amorosa à época, acarretando uma sequência de suicídios entre jovens. Já Johan Heinrich Voss (1751-1826), notabiliza-se pelas traduções perfeitas da “Odissiea” e “Ilíada”, o autor reconhecido por Goethe e Schiller.   

Como pré-românticos, Carpeaux inclui vários autores, aqueles que iriam anteceder dois grandes expoentes da literatura não só alemã, mas mundial: Goethe e Schiller. O livro “Whether” é um prenúncio da fortuna clássica de Goehte.

 

6.Período  Clássico

 

O período seguinte abrange duas correntes: a clássica e a anticlássica. Tempo da burguesia cujos principais ídolos foram Goethe e Schiller. Mas, neste século XIX,  surge, outros luminares: Immanuel Kant (1724-1804) – a construção do mundo pelo espírito humano e a arte como ocupação desinteressada das atividades espirituais.

Johann Friederich von Schiller (1757-1805), amigo inseparável de Goethe, professor da Universidade de Iena, conselheiro do teatro de Weimar, dirigido por Goethe. É autor de grandes poemas filosóficos: “Ideias”, “O Ideal e a Vida”, “O Passeio”, mestre no gênero épico-dramático. Afastou-se de Shakespeare, mas sem se aproximar dos gregos.

 

7.Os Românticos

 

 

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), o maior poeta clássico da literatura, um dos iniciadores do romantismo europeu. Sua vida a história de um temperamento romântico, filho de família burguesa de Frankfurt. Na Itália, produz a safra mais rica de sua vida. As “Elegias Romanas” são o poema erótico mais ardente da literatura moderna. Estudou o filósofo Espinosa, Mineralogia, Botânica e Anatomia, tendo, inclusive, antecipado as ideias darwinistas. Em “Conversações com Goethe”, Eckermann eterniza as concepções e os sentimentos do grande escritor alemão. Hermann Hesse, outro autor famoso, em “Jogo das Pérolas de Vidro” inspirou-se na obra de Goethe “Anos de Viagem de Hilhelm Meister”. Fato curioso, inclusive paradoxal: embora idolatrado pela Alemanha e também pelo mundo, os “hegelianos” da esquerda, assim como cientistas e tecnólogos, combatiam-no e o odiavam, inquinando-o de “velho reacionário”, “ o aristocrata”, “homem dos tempos passados”. Enquanto isso T.S. Eliot, o grande poeta inglês, afirma: “Goethe teria sido mais um grande sábio do que um grande poeta.

O romantismo é um movimento literário especificamente alemão, os demais noutros países dele tributários. Joann Gottlieb Fichte (1762-1814), filósofo, foi quem lhe deu origem. Devido a seu irracionalismo, contribuiu com o ideário para o nascimento do nacionalismo exacerbado de que se originou o nazismo.

Outro nome proeminente é Novalis (pseudônimo de Frederich von Hardebberg – 1772-1801), católico não convertido, grande poeta, cujo livro “Hinos à Noite” é tido como o maior monumento poético do romantismo alemão. Em “Fragmentos”, antecipa a psicanálise e a moderna filosofia da natureza. Tem-se também como antecipador do simbolismo e dos poetas simbolistas.

Joseph Freiherr von Eichendorft (1778-1857), ponto alto do romantismo, teve suas obras musicadas por Brahms, Hugo Wolf e Roberto Schumann.

Catalogados como românticos, temos ainda pelo menos três escritores importantes: Hegel (1777-1834), Humboldt (1769-1859) e Schopenhauer (1788-1860). Hegel, considerado o maior filósofo dos tempos modernos, com obras como “Fenomenologia do Espírito” e “Filosofia do Direito – livros por sinal de difícil leitura, aliás característica do autor, mais incompreendido do que compreendido, pois, ora defende a monarquia, ora propaga o socialismo político. Humboldt por sua obra “Kosmos”, panorama do Universo. Já Schopenhauer, o máximo do pessimismo alemão, cultuava o budismo e a filosofia indiana.

 

8.Os Revolucionários

 

Carpeaux analisa agora o que ele denomina período “pré-Revolução e Revolução”, já referindo-se ao século XIX. Assinalamos os mais conhecidos e que, de alguma forma, contribuíram para o conhecimento do cultura alemã:

- Henrich Heine (1797-1856 – considerado o coveiro do romantismo;

Ludwig Feuerbach (1804-1872) – que muito inspirou a doutrina marxista;

Karl Max (1818-1883) – suposto filósofo, com ares de economista, fundador da ideologia em que se baseia o comunismo. Aliás, Carpeaux o coloca como figura da história universal, não da literatura.

 

9.Século XIX

 

No século XIX, segundo Carpeaux, todos os escritores alemães são nacionalistas. Acrescenta que o positivismo alemão da época nada tem a ver com Auguste Comte. Não se trata de uma filosofia, mas uma atitude anti-filosófica.

Na literatura alemã agora o novo personagem é Nietzsche (1844-1900). E segundo este o grande Reich não tem cultura, é um reino de bárbaros e ignoram a realidade. Estamos no raiar do século XX. Os livros do autor de “Assim Falou Zaratustra”, espécie de novo evangelho do super-homem, foram impressos à sua custa. Passou dez anos no manicômio. Estranhamente é lido e publicado até hoje.

São  expoentes da época:

- Rainer Maria Rilke (1875-1926) – sua principal obra  “Livro das Horas”, uma grande meditação sobre Deus, o amor, a pobreza e a morte, o vocabulário mais místico do que cristão;

- Thomas Mann (1875-1955) – considerado o clássico da literatura alemã, assemelha  Balzac, Stendhal, Flaubert, Hardy, Henry James e Conrad, seu livro principal: “A Montanha Màgica”;

- Martin Buber (1878-1965) – escreve sobre a cabala judaica.

Carpeaux data o nascimento do expressionismo alemão entre 1910 a 1914. O maior poeta foi Gerge Heyn (1887-1912). Citamos alguns mais:

- Walter Benjamin (1892-1940) – faz crítica marxista sem o determinismo econômico;

- Ernst Bloch (1886-1977) – socialismo religioso;

- Georg Kaiser (1878-1945) – escritor habilíssimo, escreveu 50 peças;

                   - Hermann Hesse (1877-1962) – poeta e novelista, assemelha-se a Rimbaud, Valéry, T.S.Eliot e Maiakósvski.


 

             10. A República de Weimar

 

A Alemanha parece perdida: o imperador e outros monarcas exilados, aristocratas despojados do poder, o exército dissolvido, a burguesia ameaçada pelos proletários revoltados e camponeses desesperançados.

Assinalamos a seguir os autores essenciais:

- Oswald Spengler (1880-1936),autor de “O Declínio do Ocidente” que influenciou Tynbee;

- Wilhelm Dilthey (1833-1911) com “A Experiência e a Poesia”;

Werner Jaeger (1888-1961), autor de “Paidea”, a formação do homem grego;

- Max Weber (1864-1920), o mais notável em economia política e história econômica, um dos fundadores da República de Weimar;

- Karl Manheim (1893-1947), com “Ideologia e Utopia”;

- Stefan Zweig (1881-1942) – segundo Carpeaux, suas biografias são belíssimas;

- Robert Musil (1880-1942) sua obra-prima “O Homem sem Qualidades”;

Max Scheller (1875-1928) modernizou o mundo católico com “Da Revolução dos Valores”;

- Ernst Juenger (1895-1998) um dos maiores prosadores em língua alemã, mas admirador de Heidegger, no entanto uma figura isolada;

- Erich Maria Remarque (1898-1970) – “Nada de Novo no Front Ocidental”;

- Bertold Brecht (1898-1956) um dos dramaturgos mais representados no mundo, com inúmeras peças de sua autoria, dentre as quais “O Cícrulo de Giz Caucasiano”;

-  Franz Kafka (1883-1924), um dos autores mais lidos ao lado de Rilke e Thomas Mann. Muito citada é “A Metamorfose”. Sobre o escritor diz Carpeaux: “... Kafka foi um “displaced person”: criou símbolos de uma humanidade “displaced” no Universo.

 

11.Contemporâneos

 

Os doze anos de regime nazista constituem, na visão de Carpeaux, uma cesura na literatura alemã. E acrescenta: a literatura alemã não merece autores, pois não vale nada.

Dentre os contemporâneos, destacam-se dois autores:

- Gunter Grass (1927), autor de “O Tambor” em estilo brutalmente naturalista. E “Anos de Cão” – a história da vida do cão predileto de Hitler;

- Theodor Adorno (1903-1969), último dos grandes doutores do marxismo. Músico de profissão, pensador formado nas leituras de Hegel.

A análise de Carpeaux sobre a literatura alemã cessa em 1960. Coube a Stefan Wlhelm Bolle continuar esse trabalho no artigo “Á Sombra do Muro”. Por razões óbvias, dispensamo-nos de sua análise.

 

                                                                         Bsb,11.03.15

 
 
 

 


 

 

 

 

 

 

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