Filmes

               
                    O  QUARTO  DE  JACK

 


Room”, Canadá/Irlanda, 2016 – Direção: Lenny Abrahamson – Astros:  Brie Larson, Jacob Tremblay, Joan Allen, William H. Macy, Sean Bridges.

                                            - Peter Saint-John

 

   O filme caiu nas graças dos chamados críticos de plantão, que zoam nos blogs de cinema, jornais e revistas como a Veja e outras. Dizem que se baseia no best-seller de Emma Donoghue, escritora irlandesa, trafegando pelo Canadá e Estados Unidos.

      Minha impressão pessoal – e posso errar que não sou adivinho, mas apenas escritor e cinéfilo de longas datas – é que esse filme não será premiado com o Oscar deste ano. Por um motivo, a meu ver, muito forte: é preconceituoso e impinge, embora mui subrepticiamente, a propalada  aberração conhecida como “teoria do gênero”.

      Acontece que toda a cinematografia, americana e inglesa, está na mão do judeu – isso já vem desde a fundação do cinema como arte. Cecil B. de Mile era judeu e por ai vai, inclusive Charles Chaplin, cuja mãe era judia. Basta prestar  um pouco atenção nos filmes, enredos, tais como, crime não compensa, proclamação das virtudes, machismo versus feminismo, religião contra ou a favor – e por ai segue. E fundamentalmente o judaismo não aceita essa mudança de sexo na criatura humana, nascida homem, depois mudada a bel prazer para mulher ou vice-versa.

      O filme O Quarto de Jack pega esse “gancho”, como deve tê-lo feito a autora, irlandesa, querendo  meter pela goela abaixo do leitor uma ideologia infame, que é essa “teoria do gênero”, hoje tão em voga, mas pouca gente sabe bem de que se trata.

      Tive o cuidado de auscultar alguns dos principais críticos da moda, inclusive Rubens Edwald Filho, por sinal o primeiro que consultei. Todos caíram no mesmo alçapão, melhor dizendo, armadilha, porque o filme faz o espectador se enredar numa verdadera armadilha – tem enredo sibilino, subretício, como uma espécie de veneno. Nenhum dos críticos parece ter realmente entendido o filme, o objetivo do filme, a ideologia subreptícia que explora. Por detrás daquele drama terrível, o cineasta, certamente apoiado na autora, quer apenas justificar, mesmo em situação extrema, que as pessoas têm absoluta liberdade para fazerem o que lhes derem na telha,  que elas são proprietárias de si próprias, podem decidir tudo o que quiserem, como sua vida, vontade, desejos. Por que também não mudar de sexo?

       Observemos um pouco o enredo do filme. É bom ficar atento para as falas, são signos fundamentais para se descobrir o “grande” segredo da narrativa. Inicia com uma moça dentro de um quarto-cubículo onde parece morar, cuidando do minúsculo lugar, fazendo comida, brincando com uma criança (filho). Ela chama a criança de Jack, que tem cinco anos completos e cabelos grandes amarrados. Tudo está concentrado nessa criança que olha para clarabóia e só vê uma nesga do céu – caverna de Platão? A mãe, que Jack chama de Ma (diminutivo de mãe em inglês), cuida dele, dá-lhe um carrinho para brincar (note-se que carrinho é brinquedo específico de “menino”, não “menina”). De repente, a porta do cubículo se abre e chega um homem, que Ma chama de Old Nick, que traz alguma coisa e logo vai para a cama com a mulher. Jack está escondido no armário. O armário significa que a criança precisa se fechar para não ser descoberto seu segredo – ora, o segredo escondido no armário é o sexo da criança!

       Logo se percebe que a mulher, mãe de Jack, mãe e filho (a), são vítimas de sequestro, pois  encontram-se aprisionadas ali, a porta trancada a cadeado, embora no interior tenham TV e geladeira. O tal Old Nick,  o sequestrador que, inclusive, bate nela. Mas ela não deixa que o homem toque na criança. Até que um dia, ela resolve criar um estratagema para fugir e usa Jack para isso. Aquece toalhas e coloca nas faces de Jack, para fingir que está com febre alta. O  brutamontes chega, ela se queixa da doença de Jack, precisa ser medicado, mas o homem não liga, e quando retorna outra hora ela está chorando porque a criança afinal morreu, está enrolada num tapete. Tudo armação, e o tal Old Nick acaba saindo com o corpo enrolado no tapete. Sai no carro, para ver onde jogar o suposto morto. Jack instruído pela mãe, se desenrola do tapete e se joga para fora da camionete. O homem para o carro, mas Jack corre, encontra uma pessoa, pede socorro. Atrapalhado e receioso, Old Nick foge no carro, deixando Jack na rua. A polícia é acionada e acode a criança, que, depois de algumas perguntas, consegue dá pistas à policial. Enfim, o esconderijo é descoberto, a mulher é libertada, volta para sua casa, depois de sete anos de sequestro.

       É claro que o filme, assim como o livro, segue outros sequestros acontecidos, o último que se tem notícia nos Estados Unidos. A película tem a segunda parte, que os críticos dizem ser sua reviravolta, quando a moça, já na casa dos pais, tenta enfrentar a nova realidade, com Jack. Certa manhã, mãe e Jack acordam em leitos de hospital, a criança com máscara, embora saudável, corre para a janela para ver o espetáculo lá fora. Logo aparece um médico que mantém um diálogo com a mãe, pergunta se está decidida – que decisão seria essa, uma cirurgia em quem, em Jack?  Atenção para o que Jack diz, no momento: “Vou ser de plástico?”.

       Em casa, o avô  legítimo não aceita a criança, fruto de um estrupador. A avó de Jack não se entende com a filha, que não diz mais coisa com coisa. Traumatizada ainda ou arrependida? Acaba tentando o suicídio, Jack acode a mãe na banheira. Observemos agora duas deixas do cineasta: a primeira é Jack andando com dificuldade, como quem está convalescendo; segunda: Jack pede à avó que corte o seu cabelo, vai presenteá-lo à mãe ­ – “é minha força que dou a ela...” ele diz. Que força é essa? Ora, é seu ego feminino que acaba de perder, confirmando decisão da mãe de transformar a criança que era biologicamente menina, em menino.

        O filme termina com Jack, depois de jogar bola com outro garoto, enaquanto a mãe espia satisfeita na janela. Depois, a pedido de Jack eles vão ver o esconderijo onde os dois viveram todos esses seis ou sete anos. Como se Jack estivesse se despedindo de sua verdadeira identidade – menina.

        Pode se verificar que o filme é nada menos que uma espécie de justificativa da “mudança de sexo, no gênero humano”, objeto dessa teoria indigna e desprovida de qualquer fundamento biológico, psicológico ou sociológico – e o que é mais repugnante: contraria todos os preceitos morais e cristãos a que todo ser humano é submetido, diferenciando-o da barbárie.

       Atribuímos três estrelas ao filme pela performances dos atores, mãe e Jack, com essa ressalva de que seu desenrolar agride a sociedade, quiçá toda a humanidade (PSJ).
            - Cinéfilo, crítico de cinema, americano naturalizado brasileiro

 

 


                 HORAS  DECISIVAS


 

The Fineste Hours” – EUA, 2016 – Produção Disney – Diretor: Craig Gillespie – Astros:  Chris Pine, Casey Affleck, Bem Foster, Holliday Graenger

 

 

Os críticos oficiais – cada vez  entendendo menos dos filmes que criticam – acharam o filme previsível, à moda antiga, os efeitos especiais apenas para tornar mais emocionante a narrativa e de alguma forma segurar a curiosidade do espectador. Pode ser que a película de Gillespie ofereça esses aspectos. Afinal, todo bom cineasta tem por objetivo agradar o cinéfilo, jogar com efeitos especiais utilizando a tecnologia de hoje. Mas nunca será um “craque” no metier, se seu trabalho não for além, não produzir efeitos exegéticos que prendam o espectador.

E isto que ocorre precisamente em Horas Decisivas. É previsível, o mar tempestuoso é horripilante. Enfrentar uma tempestade em alto mar não é brincadeira, ainda mais num navio partido à deriva ou uma lancha sem proteção, vencendo ondas gigantescas. E ai,   aliás, onde residem os pecadilhos do filme: um navio despedaçado, uma das partes à deriva nas ondas e uma pequena lancha costeira, furando as ondas, como se fosse um submarinos – é algo quase inconcebível.

Mas o filme baseia-se em fatos reais. Realmente aconteceu o fato, em 1952. Avisada que um navio despedaçado encontrava-se à deriva no meio do oceano, com sobreviventes, a guarda costeira tinha de agir. E o fez, enviando um oficial, supostamente acostumado: o capitão Bernie Webber (Pine).

Horas Decisivas não é só a história bem sucedida do salvamento, em circunstâncias dramáticas, de mais de 30 homens. Isso é coisa de heroísmo, que, por vezes, os seres humanos se arrogam fazer, ao lado de tantos atos de covardia e insanidade. O heroísmo também tem um motivo seu “tour de force”.

O filme tem outra explicação simbólica. Ao lado do heroísmo de Webber e do maquinista de navio Ray (Affleck), fatos e emoções impulsionaram ambos. O maquinista que soube valer-se mais da intuição ao  desobedecer o capitão e fazer que o navio encalhasse num banco de areia, única tábua de salvação para aquela terrível circunstância. Capitão Webber por aceitar se casar com a noiva, a pedido dela e não partindo dele, o macho. Miriam, a noiva (Grainger) exerce seu poder feminista, sua audácia para submeter o machismo a seu capricho, não capricho em vão, mas honesto, civilizadamente  cortês. E ela foi mais: enfrentou as ordens violentas, a comunidade dos homens, para desafiar o Comandante e pedir pelo retorno do noivo que foi mandado para uma ação quase suicida. Depois, parte dela a ação de acender as luzes de seu automóvel à beira da praia, para sinalizar a embarcação de Webber, que se achava perdida, sem bússola. E todos os carros se enfileraram como o dela, as luzes sinalizando para a praia e o mar tenebroso.

Ai está o equilíbrio perfeito entre o feminismo e o machismo, quando perfeitamente equalizados, respeitando-se ambos, dentro dos seus próprios limites.

Portanto, é um filme interessante, emocionante, com homens de fibra, coisa que, hoje, está em falta e como!

Atribuímos quatro estrelas ao filme, qualquer pessoa pode assisti-lo por não trazer cenas impróprias ou inadequadas (EC).

 
       
 

                          BROOKLYN


 
 

 

Brooklyn”, EUA, 2015 – Direção: John Crowley – Astros: Saiorse Ronan, Domhall Gleason, Jim Broadbent, Eileen O´Higgins, Julie Waters, Emily Belt Richards, Samantha Munro, Jessica Paré

                                                                        
                                                                                 Edu Castanheira

 

Saiorse Ronan foi indicada pelo Globo de Ouro como melhor atris. A moça tem apenas 21 anos e fez filmes como “Desejo e Reparação”, “Hanna”, O Grande Hotel de Budabest”, “Um Olhjar do Paraíso”, “Caminho da Liberdade” e “A Hospedeira”. Rubens Ewald Filho acha-a “... inexpressiva e sem graça..” Tem sido muito elogiada pela imprensa estrangeira.

O filme narra uma história banal ocorrida nos anos de 1950, baseada no livro homônimo de Tolby Colm, que diz ter-se influenciado em fato verídico de uma moça irlandesa que veio para Nova York, assim como, também, em Jane Austen. Ellis (Ronan) é de uma cidadezinha irlandesa que morava com a mãe e a irmã Rose, o pai falecido e elas vivendo com dificuldade. Ellis, sempre gostando de números, trabalha num escritório de contabilidade e Rose, sua irmã, apesar de clásse média, frequenta o melhor clube da cidade, onde é muito benquista, por ser bonita e gentil. Ellis não é como a irmã, é retraída. Mas Rose, com sua influência, consegue para a irmã um empego nada menos que em Nova York, na América, graças a um padre irlandês naquela capital americana que intermedia essas viagens, beneficiando irlandeses. Ellis embarca em navio e aporta à metrópole – e curioso como ela não sofre quelaquer restrição, sabe exatamente onde deve ficar, sai carregando sua própria maleta. Tudo certinho, sem qualquer problema. Isto em se tratando de uma moça que se transporta praticamente de uma cultura para outra.

Sem qualquer problema, Ellis vai trabalhar num magazin de luxo, sofre alguns senões com adaptar-se, ela é retraída, tem de ser mais amistosa com os fregueses, mas nada que a atrapalhe sua vida. Na pensão de moças, dirigida por uma madame irlandesa mão de ferro, adapta-se bem, distingue-se das supostas sirigaitas com as quais convive. Tudo na santa paz de Nosso Senhor. Católica, vai aos bailes que o Padre administra na paróquia, de certo para arranjar rapazes para as moças, além de diverti-las. Logo se dá Tony, que não é irlandês, mas italiano, torna-se sua namorada, vai conhecer sua família, fica mais solta, vai à praia com ele, mas nada, nada mais que isso. Tony se apaixona por ela, pede-a em casamento, apesar de ele ser um simples carpinteiro, como seus irmãos. Ellis a essa altura já se adaptou bem à América, faz curso contabilidade com louvor. Um dia, ao saber repentinamente da morte de sua irmã Rose na Irlanda, se desespera e eis que quem a consola é o namorado Tony, então, infeliz, acabe se entregando ao rapaz dentro do quarto da pensão. “Apenas não façamos ruídos” – pede ela ao fogoso namorado.

Com a morte da irmã, Ellis tem de voltar à sua cidade para ajudar a mãe solitária. Mas, antes, se casa com Tony, num cartório, sem festas nem ruídos. O filme é omisso onde o casal vai viver, parece que vivem separados.

De volta à sua cidade de origem, Ellis é recebida como uma foragida americana, todos a bajulam, até os rapazes gostosões que frequentam o clube, com um deles acaba flertando. E agora, o que fazer? O rapaz a pede em casamento, é bonitão, família rica, todos fazem o maior gosto. Seria uma belíssima saída para uma moça apenas arremediada como ela. Mas Ellis acaba decidindo retornar para Tony – esse parece ser seu verdadeiro destino.

Como se percebe, é a história dos imigrantes, todos os imigrantes que se deslocam por razões pessoais ou impostas pelas contingências. A  nostalgia da pátria distante, os atropelos, para alguns abomináveis, se dando muito mal. Mas não é o caso da moça, as coisas são muito certinhas para ela – santa Ellis, na terra do rocking-roll, do glamour do cinema, da liberdade, do dinheiro e da perdição.

Edwald Filho tem razão: não é Saiorse que é absolutamente sem graça, é o próprio filme cujo enredo é mediocrizado pela falta de um certo toque de genialidade do cineasta ao narrar essa história. Três estrelas apenas e não acredito que a moça obtenha o Oscar (EC)    

 

 
                       




                                         FILHO DE SAUL

                                 

 

“Saul Fia”, Hungria,2015 – Direção: László Nemes – Astros: Géza       Röhrig.

 

            A comentarista da Veja, Isabela Boscov (Veja,10.2.16) declara enfaticamente que o diretor do filme é “... favorito disparado ao Oscar de produção estrangeira...”  Não sei em que se apoia  para fazer tal afirmação. O sr. László Nemes nos apresenta um filme horripilante, como a por para fora alguma maldição. Será que ele quer exorcizar algum parente vítima exterminado no diabólico holocaustro?

            Ocorre que essas estórias do holocaustro – que não são poucas – apesar de sabermos que baseadas naqueles monstruosos fatos efetuados pelo nazismo, à frente a figura ignóbil e satânica de Afolf Hitler, de tão horripilantes ninguém mais quer lembrar ou relembrar. O holocaustro, sim, houve. Os nazistas, também, eram comandados por um louco. Temos multidão de registros, relatos de sobreviventes, cada qual o mais macabro. Até hoje as edições do celébre diário de Ana Frank abarrotam as livrarias, está sempre entre os livros mais vendidos.

              Confesso que só assisti o filme até o final, na esperança de que o suposto “herói”, Saul, de alguma forma viesse a se salvar daquele inferno em que vivera. Infelizmente, nem isso o cineasta de Filho de Saul ousa fazer. O resultado: massacra o pobre do espectador, inclusive desavisado como o autor desta crítica.

             Dizem alguns críticos que é um filme “cult”, o diretor adota técnica realista, tem o formato quadrado – e sabe-se outros quejandos que em nada nos retira a sensação de que estamos assistindo um cenário  das atividades do Inferno, aquele mesmo descrito de maneira terrível na odisséia de Dante. Pode ser, acredito que seja – mas absolutamente não traz nenhum benefício ao pobre do espectador. Ao contrário, acha o filme ABOMINÁVEL.

              Ora, a sra. Isabel Boscow em sua crítica fala da Alma Morta, ou seja, o nosso infeliz Saul transita naquele inferno como se estívesse morto. Seria isto o que ocorreu com o judeu massacrado pelo preconceito de Hitler? Por que aceitaram o holocaustro como um “castigo”? Não se tem certeza, mas hoje ninguém se atreve a mexer com um dedo sequer num judeu: receberá a paga imenditamente. Haja vista aquela guerra dos sete dias entre o Egito e Israel: os judeus praticamene aniquilaram os inimigos numa semana!

               Por tudo isto e muito mais coisas que seria até ocioso enumerar,  acho difícil que esse filme receba o Oscar de melhor estrangeiro – só se não tiver fita mais assistível. E, principalmente, que não massacre o espectador com atos infames, como você ter de olhar aquela multidão de gente despida, mulheres, homens e crianças, empurradas para os fornos nazistas e os carrascos risonhamente dizerem que eles iriam apenas “tomar um banho de duca pra depois tomarem um chá”.

              Duas estrelas é o que atribuimos ao filme, na esperança de que jamais assistir coisa parecida. Haja coração e estômago (MMV) .

 








 

                            O  REGRESSO


 

“The Revenat”, EUA, 2016 – Diretor: Alejandro Gonzalez Iñarritu – Astros: Leonarrdo DiCaprio, Domhnal Gleeson, Forest Goodluck.

 

*Peter Sain-Jonh

 

É no momento o filme mais apontado pelos críticos de cinema como ganhador do Oscar/2016, notadamente o ator principal Leonardo DiCaprio. Iñarritu é um espcialista em fazer filmes extremamente realistas, com brutalidade mesmo. Este, portanto, não é exceção. Ocorre que o cineasta recorre a cenas onde se exploram a natureza, o céu, o rio, as árvores, a mudança das estações. Com esse ardil, ele consegue fazer um filme quase poético, não fosse a violência de seu enredo.

É a história de caçadores de urso e venda de peles desses animais, extremamente selvagens e capazes de estraçalhar uma pessoa. Hugh Glass (DiCaprio) é um destes caçadores e parece ser também o guia dessa perigosa caçada ao longo do rio Mississipi, no Estado de Dakota do Sul, nos Estados Unidos. A ação é passada no século XIX, os colonos americanos ainda às turras com os índios da tribo dos Akikara, que povoavam aquelas áreas. Os caçadores – homens geralmente acostumados ao perigo e à aventura, embrutecidos pela profissão – são comandados pelo capitão Andrew Henry (Gleeson). Como Glass parece ser conhecido da tribo dos Pawnee, pois ele anda com seu filho gerado por uma índia dessa tribo. O acampamento dos caçadores é atacado pelos Akikara, que querem pilhar as peles dos caçadores, para vendê-las aos aventureiros franceses que também rodeiam por ali e com os quais fazem negócios, trocando peles por armas. As cenas são brutais, homens sendo flexados e índios mortos à bala. Acabam fugindo pelo rio, mas por não ser seguro acampam noutro lugar.

Uma manhã Glass sai para caçar, quando é atacado por uma ursa, que defende seus filhotes. Ele praticamente é estraçalhado pela sanha furiosa do animal, mas consegue sobreviver. Para os caçadores agora é um problema, pois terão de carregar o sobrevivente Glass, o que logo acham ser impossível cotntinuar a estafante jornada de regresso ao forte onde têm sua força-tarefa. Então o capitão manda que dois homens tomem conta de Glass, pois não têm esperança de que sobreviva aos ferimentos. Um deles é Fitzgerald com outro companheiro, além do filho indiano de Glass. Fitzgerald acaba convencendo o colega que não vale a pena ficar esperando Glass morrer e acabam fugindo, deixando Glass semimorto, quase enterrado vivo. Antes, Fitzgerald mata o filho de Glass.

Essa estranha narrativa tem quatro versões, a última de Michael Punki (2002), na qual se baseou Iñrritur para fazer seu filme, em pareceria com Mark L. Smith, especialista em filmes de terror. Foi filmado no Canadá e na Argentina.

DiCaprio vive esse personagem que regressa ao forte com intenção de se vingar, sobretudo pela morte de seu filho. Passa por tudo quanto é dificuldade, sofre fome e sede, cai de um precipío, é levado por uma enorme cachoeira, dorme dentro de barriga de um cavalo morto e outras inúmeras desgraças. Quando finalmente consegue chegar ao forte e vai ser tratado pelo médico, resolve acompanhar o capitão na capitura do fugitivo Fitzgerald, agora ladrão e assassino. Glass encontra-se com o fugitivo, lutam, a martelo e faca, os dois acabam morrendo e assim Glass se vinga, enquanto um bando de índios passam por ele agonizante e não o socorrem.

O fime tem sido muito elogiado, cenário, fotografia, trilha sonora, interpretação dos atores. Em termos de exegese do filme, o regresso pode significar a humanização do ser humano, após seu período de barbárie, humanização que passa pela aferição religiosa, a igreja em ruina, mas mesmo assim premunitória à salvação. O ser humano se redime pelo sofrimento e assim pode superar suas dores, sempre prevalente a vontade viver.

O filme merece realmente ser indicado para o Oscar pelas qualidades extraordinárias que o torna quase uma narrativa poética. DiCaprio, apesar de sua falta de amadurecimento, se sai bem, certamente devido ao esforço do cineasta – aquele mesmo esforço que o diretor  George Stevens fez com Alan Ladd para representar com êxito o papel do cowboy complexado, na sua obra-prima “Shane” de 1953. Atribuimos ao filme quatro estrelas e talvez o ainda imaturo DiCaprio obtenha o prêmio por isso. (PSJ). 

 

  
 
AS  SUFRAGISTAS

 


 

Sufragettes”, Ingl. 2015  - Direção: Sarah Grovon – Astros: Merryl Streep, Carey Mulligan, Anne Marie Duff, Helena Bonham Cartr, Bem Whisham, Romola Garai, Samuel West, Brendan Gleeson, Adrian Schiller, Natalie Press

 

A crítica especializada não gostou do filme dirigido por Sarah Grovon. Rubens Ewald Filho comentou em seu blog: “Não podiam ter pensado em pior título, menos comercial de que este “As Sufragistas”, uma expressão que é pouco usada e nada atraente.” Para ele, o filme não deu certo, não rendeu mais do que 4,3 milhões na América e 11 milhões no exterior.

Ora, penso que 15, 3 milhões para uma renda de filme já é uma grande coisa. Acreditamos que é o roteiro que não ajuda, pois a película não empolga. Streep, que sempre costuma alanvacar os filmes em que participa, faz apenas uma ponta como Emmeline Pankhurst, enquanto Carey Mulligan, que faz o papel principal, não tem elan, parece forçada. Segundo Ewald “... Carey Mulligan é uma Sally Field piorada com cara de cachorro triste e em nenhum momento tem garra ou presença para segurar o filme.”

Não é que seja uma má fita. Afinal é narrativa baseada  em fatos reais. Enfoca o movimento feminista no Reino Unido, cuja lider, em 1913, era uma senhora chamada Emmeline Pankhurst, que fazia comícios e viajava clandestinamene dando palestras e incentivando a rebeldia das mulheres, na luta em favor de seus direitos, à época, não reconhecidos. O filme Grovon trata sobre este episódio.

As mulheres londrinas foram combatidas, muitas presas, trabalhavam como escravas, sem perspectiva de mudança. Até se rebelarem e logo o movimento se expandiu no mundo todo. A palavra “feminismo e feminista” teria sido inventada por Charles Fourier, socialista utópico francês, em 1837. Feminismo aparece pela primeira vez na França e nos Países Baixos em 1872 e no Reino Unido na década de 1890, enquanto nos Estados Unidos somente em 1910. Na Inglaterra eram conhecidas como “suffragettes” ou sufragistas, faziam campanha pelo sufrágio feminino. Em 1918, o “Representation of the People Act” foi aprovado, concedendo o direito do voto às mulheres acima de 30 anos, extensivo em 1928 a todas as mulheres acima de 25 anos.

A propósito do voto feminino, surpreende-nos a informação de que a Suiça, de nível cultural altíssimo, como é sabido, só permitiu o voto feminino em 1971 e no cantão de “Appenzell Interior”, só em 1991, quando forçado pelo Supremo Tribunal da Suiça.

Pelo menos o filme tem essa qualidade, de rever em parte o movimento da rebeldia feminina. Atribuimos três estrelas por isso. (PSJ)





                           O  MANTO  SAGRADO

 
“The Robe”, EUA, 1953 – Direção: Henry Koster – Astros: Richard Burton, Jean Simmons, Victor Mature, Michael Rennie, Ray Robinson, Dean Jagger, Richard Boone, Jeff Morrow, Ernest Thesiger
 
“          Manto Sagrado”, filme de 1953, teve grande sucesso nas telas. Foi a época de outros sucessos, no rastro das faraônicas películas de Cecil B. deMille, como “Dez Mandamentos” e outras. O enredo não parece de forma alguma plausível, como, por exemplo, foi “Spartacus”, de 1970, estrelando Kirk Douglas, que se baseou em fatos históricos, ou seja, houve realmente uma rebelião comandada por um escravo que ousou desafiar o poderoso império romano. Outro na mesma linha, mas bem antes, em 1932, foi “O Sinal da Cruz”, direção de B.deMille, com Fredric March. Todos esses filmes praticamente tratam do cristianismo, de seu início, quando seus adeptos, os cristãos, foram perseguidos e mortos, crucificados ou entregues a leões famintos, em Roma.
          Trata-se de uma história inteiramente implausível, feita apenas para emocionar o público, narrando o que aconteceu com o manto de Jesus Cristo, depois de sua crucificação na Palestina. Hoje esse dito manto é objeto de outra história também  motivo de polêmica –o Santo Sudário, que teria sobrevivido até nossos dias, guardado a sete chaves no Vaticano. Geralmente são filmes que sempre são levados pelos canais de TV em fim de ano ou em período de Semana Santa.
          Estamos nos últimos dias de Tiberio Graco como Imperador romano. O Império ainda exerce dominio sobre o mundo conhecido. Marcellus Graco (Burton) é um tribuno romano que se dedica a mulheres e ao jogo. Acontece que acaba de comprar, em leilão público, o escravo grego chamado Demétrius (Mature), pela absurda quantia de 3.000 moedas de ouro, em disputa com Calígula (Robinson), sucessor de Tibério no império, disputa que acaba vencendo. Calígula considera o feito do tribuno uma desfeita à sua pessoa e manda que o cinturião seja transferido imediatamente para a Palestina, o pior lugar do Império. Marcello que é a paixão de Diana, que vive sob a tutela de Caligula, tem de se separar dela. Mas, por motivos políticos, é chamado a Roma. Pilatos (Boone) a quem está sujeito, antes de partir, dá-lhe o encargo oficial de supervisionar o suplício e a crucificação de Jesús Cristo. Findo a tarefa, sem escrúpulos, os soldados e o próprio centurião que os chefia, apostam quem fica com o manto do mártir, que acaba de dar o último suspiro. Marcellus ganha e fica com o manto, que dá para Demetrius, seu criado, guardar. O tribuno não gosta do manto, acha que está enfeitiçado, no momento em que o toma, fica imediatamento desorientado. Seu servo, Demetrius, que já se convertera ao cristianismo nascente, imputa seu patrão de ter crucificado Jesus, resolve fugir com o manto. De volta a Roma, Marcellus é chamado a prestar conta a Tibério sobre sua ação na Palestina, mas o tribuno não está bem, todos acham que perdeu a razão e que a causa é o tal manto do Rabino recém-crucificado. Então Tibério dá-lhe a tarefa de procurar o servo e distruir o tal manto enfeitiçado. O tribuno retorna a Palestina e acaba se encontrando com Pedro (Renny) e os Apóstulos, e, depois, se convertendo.
              Agora toda a Roma procura pelo tribuno convertido à nova seita, que Calígula, feito o novo Imperador,  começa a perseguir, principalmente a pessoa de Marcellus. Depois de algumas peripécias, em que Marcellus consegue libertar Demetrius, ele acaba sendo preso. Calígula então invoca o Senado para julgar Marcellus como traidor do império e os senadores aprovam, condenando-o a morte. Ocorre que Diana (Simmons) que ama Marcellus, na hora do julgamento, desanca Calígula e se diz também cristã, acompanhando seu amado. O final do filme: ois dois, Marcellus e Diana, deixam o Senado, com todo o povo olhando curioso. Talvez sejam, ambos, trucidados pelos leões famintos – é o destino dos primeiros cristãos. Aliás, esclareça-se ser esse também o final de “O Sinal da Cruz”, de Cecil B.deMille.
                São muitos os absurdos, sobretudo as incongruências históricas. Tibério Graco era cônsul e viveu entre 163 a.C e 133 a.C, portanto, morreu aos 30 anos, mais de cem anos antes de Jesus Cristo. A história do manto é quase ridícula, o próprio enredo infantil, sem falar nas péssimas atuações de Richard Burton e de Victor Mature, este mais parecendo um boneco careteiro. Talvez a única que se salva seja mesmo Jean Simmons, sempre muito bonita e correta no seu papel. Apenas uma curiosidade: quase todos os atores são falecidos – Burton, com 58 anos; Simmons, 81; Mature, 86; Boone, 63 e Rennie, 62.
                Mesmo assim, ainda é um filme que prende nossa atenção. Atribuimos quatro estrelas, pela performance de Jean Simmons, atriz de grandes sucessos (MMV).
  


 

NO CORAÇÃO DO MAR


 

In the Haert of the Sea”, EUA, 2015  - Direção: Ron Howard  - Atores: Chris Hemsworth, Benjamin Walker, Cillian Murphy, Bem Whishaw, Tom Holland, Brendan Gleeson, Charlotte Riley, Frank Dillane

 

                              Peter Saint-John

 

O filme dirigido por Ron Howard “No Coração do Mar”, infelizmente nada tem a ver com a considerada obra-prima da literatura americana, “Moby Dick”, de Herman Melville. Então já começa enganando o cinéfilo, ao trocar uma coisa pela outra.

Colhamos algumas informações sobre este fato, porque o filme não é sobre o livro de Melville, mas sobre “os fatos em que o autor se baseou para fazer sua ficção”. Acontece que “a imitação muitas vezes sai pior que o original”– e parece que é isto o que ocorre com esse filme de Rom Howard.

A versão verdadeira foi a do filme dirigido por John Huston em 1956, com Gregory Peck no papel do Capitão Ahab. Em 1998, Francis Ford Copolla produziu uma minissérie para TV, com Patrick Stuart.

Dizem alguns críticos que esta versão está anos luz da de Huston. Primeiro porque nesta, o centro da história é o Cap. Ahab, enquanto na versão de Howard é o contramestre Owen Chase (Hemsworth), o que certamente torna a coisa completamente diferente. Herman Melville (1819-1891) contou em seu famoso livro uma saga, que foi a luta entre o Cap. Ahab e uma baleia branca, assassina cuja fama espalhava-se pelos meios marítimos à época. Ahab, em suas viagens como baleeiro, enfrenta certa vez a “baleia assassina”, na verdade um “cachalote” de proporções gigantescas. Na ficção, o barco de Ahab é afundado pelo violento animal marinho e perde toda sua tripulação. Moby Dick, personifica o próprio demônio e torna-se uma espécie de defensor  do próprio mar, tendo como protetor o terrível deus Netuno. No livro, Melville conta o horror que era a pesca da baleia, em alto mar, um empreendimento perigoso, mas necessário à época, por causa do óleo dela extraído e utilizado nas cidades, porque não havia eletricidade ainda, tampouco tinha sido descoberto o petróleo. Há cenas também de canibalismo, os náufragos que, para sobreviverem, tiveram que executar seus companheiros – alusão ao “paroxismo do apetite humano”, que caçava baleias, mas também era capaz de sacrificar seus próprios parceiros.

Tirante, pois, esse fato de que o filme narra os fatos aproveitados para a ficção e não a ficção em si  de Melville, a película perde seu “tour-de-force”, passando a ser apenas uma história sobre a pesca da baleia e suas desventuras em turbulentos mares. As cenas são emocionantes em terceira dimensão, mas o enredo, o cerne da questão, fica diminuído e estreito, não tem a dimensão de uma saga humana, história de vingança, como é o livro de Melville. Pois o autor vai muito além de uma simples aventura enfrentando o mar tenebroso e um monstro marinho. É a luta do bem contra o mal, embora invertida, porque significa a selvageria do próprio ser humano contra a fúria implacável da natureza. Observe-se que esta história do Cap. Ahab tem muito a ver com o livro de Ernest Hemingway “O Homem e o Mar”, Spencer Tracy no papel principal.

Pelas cenas emocionantes e o trato minucioso na caraterização da narrativa, atribuímos quatro estrelas ao filme de Howard, na realidade aquém de nossas expectativas, proibido a menores de 14 anos (PSJ).

 

 ALIANÇA  DO  CRIME

 


 

“Black Mass”, EUA, 2015 -  Direção: Scott Cooper – Astros: Johnny Depp, Joel Edgertpm. Benedict Cumberbatch, Dalpta Kpmspm. Kevin Bacon, Jesse Plemons, Peter Sarsgaard, Corey Stoll

 

 

Johnny Depp é ator dos mais conhecidos, desde sua estreia no papel de “Mão de Tesoura”, quase um clássico no gênero terror romântico. Tem uma lista já bem razoável de atuação em Hollywood, sendo os mais recentes os filmes “Mortdecai – A Arte da Trapaça”, “Transcendence – A Revolução”, “O Cavaleiro Solitário" , “Diário de um Jornalista bêbado” e “Sweeney Todd – O Barbeiro Demoniáco da Ra  Fleet (2007)”, este último que lhe valeu a única indicação ao Óscar de sua carreira.

Renato Hermsdorff, crítico do blog ADORO CINEMA considera esta “a melhor atuação da carreira de Johnny Depp desde o filme "Sweeney Todd”.

Para entrar na pele do gangster Whitey Bulger de Boston, nos anos 1970, Depp teve de fazer uma caracterização, porque o personagem era muito feio: fez aplique capilar, seus dentes foram manchados e teve de usar de lentes de contato, com olhos azulados. Ele tem voz mansa, mas o olhar duro de fazer tremer qualquer um. É um sujeito extremamente violento – e o foram todos esses contraventores e mafiosos, nos Estados Unidos e em todo o mundo. Há a cena em que ele diz ao filho que pode bater nos seus desafetos, contanto que ninguém veja. De outra feita, em jantar em casa de seu amigo da FBI, John Connally ao ver que a esposa deste, Marienne, não estar presente à mesa, que se diz doente, mas na realidade não quer comparecer, porque não apoia o marido, Jimmy (seu apelido) vai ao quarto dela e dá uma demonstração de violência psicológica, de arrepiar. Na mesma cena, porque o outro comparsa, também do FBI, Morris, lhe passa gratuitamente certa receita de família, duvida de sua fidelidade, depois diz estar brincando. O gangster é um assassino frio, já tendo praticado mais de 11 mortes. Lembra-nos Richard Widmark na cena do filme “O Beijo da Morte” (1947), em que o criminoso (Widmark) empurra escada a baixo um cadeirante.

O filme é narrado em “flasback” através de comparsas de Jimmy. Baseia-se em livro homônimo de Dick Lehr e Gerald O’Neill. Tem irmão senador, Bill Bulger, que, de certo modo, protege o irmão, que cumpre pena condicional, egresso inclusive da prisão de Alcatraz.

Ele atua no submundo de Boston nos anos de 1970/80. Connally foi seu companheiro de infância, agora agente da BFI, interessado em crescer e ganhar postos na entidade, faz um acordo com Jimmy para que seja informante e assim a polícia consiga desbaratar quadrilha da máfia italiana. Na realidade, é uma maneira do criminoso se livrar de seus próprios desafetos no crime. O filme tem um elenco de atores famosos: Kevin Bacon, Dakota Johnson, Croy Stoll, Peter Sarsgaard, Adam Scott, Juno Temple e outros. Durante duas décadas Jimmy torna-se informante da BFI, sem que, contudo, o FBI obtenha avanços frente ao crime organizado em Boston. Mas as coisas começam a se modificar, quando o novo promoter de Justiça toma posse e a primeira providência é enquadrar Jimmy e grampear os agentes que o estão ajudando, Connally e Morris. No final, o bandido é preso, depois de alguns anos homiziado noutro País, pega “prisão perpétua” duas vezes e os Agentes, seus amigos, destituídos das funções e também sentenciados à cadeia.

A película integrou o 40º Festival Internacional de Cinema de Toronto, em setembro último. A atuação de Johnny Depp impressiona, ele acostumado a fazer filmes leves, até engraçados, com seus disfarces horríveis. Observe-se que não há cena de sexo, mas violência pura, como violentos eram esses gangsters, razão por que se impunham atemorizando as pessoas.

Merece quatro estrelas e dá margem a muita reflexão no que se refere à corrupção de policiais e políticos (MMV).

 

A ILHA DO MILHARAL


Sigminds kundzuli” – Georgia, França, Casquistão, Alemanha,                     Rep.Techeca, 2015 – Direção: George Onashvili – Elenco: Ilyas                      Salman, Mariam Buturishivili, Iraqkli Samushia.


 

 

 

Produção pluricultural, como se vê pelos Países envolvidos, que se juntaram neste projeto. É sem dúvida um filme com características de “cult”, o que não agrada, senão a um público, também cult. Quase todo mudo, os personagens atuam sem falar, quase.  O enredo é extremamente simples. Um velho camponês se muda com sua neta para uma pequena ilha no meio de um rio – que seria o Enguri  – para plantar milho. Este rio separa a Geórgia da Abkhazia e já foi cenário de sangrentas lutas. Soldados armados ainda patrulham o rio e por isto o ambiente é de perene tensão. O ancião constrói sozinho, com a ajuda apenas da neta, uma casa de madeira na ilha e faz uma plantação de milho, até bem sucedida. Depois de algumas peripécias, em que o velho encontra um homem ferido e desacordado no milharal, que ele cuida das feridas e parece curá-lo, o tempo passa. A neta se sente muito solitária e sebe-se pela narrativa cinematográfica que seus pais faleceram e ela vivia às expensas do avô.

Tudo vai bem até que sobrevêm uma grande tempestade e a enxurrada acaba levando tudo, casa e o próprio velho, salvando-se pelo que parece apenas a garota, que escapa no barco, no meio da noite.

É claro que o filme implica uma metáfora. O rio pode significar a natureza que corre de forma inexorável. No seu fluir, vai influenciando a atividade humana, que o velho representa no caso a produção de milho, o milharal, a indústria, a evolução, o progresso. O milharal é o sonho humano que sempre impõe sua força construtiva à natureza e com ela luta, embora possa perder, mas nunca desistir. Observar que a garota, a neta, consegue escapar, quem sabe para engendrar novo sonho. A guerra, os conflitos humanos, no filme está representado pelos soldados, que patrulham o rio, ora amigos ora inimigos – significando os eternos conflitos havidos no mundo. Mas, vem a tempestade e um verdadeiro tsunami arraza com tudo. Será que aponta para o futuro do mundo, que seremos destruídos em nossos sonhos? É esse o grande enigma do filme. Pelo enigma que envolve, a película merece quatro estrelas, inclusive pelo desempenho dos protagonistas(MMV).

 
     PONTE  DOS  ESPIÕES
 
 

Bridge of Spies”, EUA, 2015 – Direção: Steven Spielberg – Elenco:

Tom Hanks, Mark Rylance, Scott Sjhepher, Amy Ryan, Sebstian                       Kooch, Alan Alda, Austin Stokwell, Peter MCrOBBIE

                                                  por   Peter Saint-John

 

Steven Spielberg agrega mais este filme à sua já extensa cinematografia. É um filme de ação, mas sem utilizar efeitos especiais, nem qualquer tipo de violência, senão o suspense psicológico.  Por assim dizer é mais um filme com as características de “cult”, com enquadramentos artísticos de câmara, iluminação acompanhando a trama psicológica, sombreamentos para reforçar o intimismo e as extraordinárias performances dos atores.

A trama versa sobre espionagem, mas diferente dessas espécies de filmes, porque ao contrário de focar o conflito em si, recai sobre a pessoa dos espiões e as consequências de suas ações, quando são pegos. Propõe um enigma: o que fazer quando os espiões forem capturados e da possibilidade de eles terem revelado segredos oficiais aos órgãos de segurança das nações envolvidas.

O interessante é que implica em duas situações: a captura de um espião russo,  o fato de ele “abrir o bico”, contar ou não às autoridades o que sabe . Outro fato é  espião americano ser capturado em avião inspecionando a fronteira do país “inimigo”. Então, surge o enigma: o que fazer?  A solução mais plausível, a atender as duas partes, é a proposta a ser adotada pelos dois países: fazer a troca dos dois, antes que sejam obrigados a falarem, contarem segredos. O advogado, especialista em seguros, Donovan (Hanks) é indicado coercitivamente a fazer a defesa do espião russo capturado, Rudolf Alba (Rylance). Depois, encarregado de efetuar a troca dele com outro espião, americano, que se deixou capturar nas fronteiras russas, quando fotografava do avião posições russas. Ocorre que o advogado (Hanks) resolve defender com unhas e dentes o espião, alegando os direitos humanos. Enquanto isso, na Rússia, o piloto Thomas Powers, é processado por invasão do território e espionagem. Donovan a essa altura vai fazer muitos inimigos, inclusive da parte da própria justiça americana, cujo Juiz encarregado, já considera, de antemão, o espião culpado. O advogado consegue modificar a pena, de pena de morte, para “prisão perpétua”, E faz dele moeda de troca, para beneficiar o piloto prisioneiro na Rússia, alegando que assim os segredos oficiais estariam garantidos, tanto do lado dos EUA, quanto da Rússia.

Donovan agora terá de seguir para a Alemanha, dividida pela Rússia, para efetuar a troca dos espiões. Mas ai as coisas se complicam quando certo estudante americano é pego pela polícia russa, fazendo uma pesquisa econômica na zona de conflito (Alemanha Oriental) logo após o término da 2ª Guerra Mundial. Os russos acham que se trata de mais um “espião americano”, quando na realidade Thomas Watters, o estudante capturado,  é inocente. Donovan, que está na Alemanha, vai administrar esse perigoso imbróglio. Mas resolve extrapolar sua ação e, estrategicamente, fazer a troca, em vez de 1 por 1, 1 por dois – ou seja, trocar o espião russo por dois americanos nas mãos dos russos com que, assim, salvaria a vida do estudante. E ele só consegue, porque Alba, o espião russo, colabora a favor, só aceitando entregar-se às linhas russas, se os dois americanos forem devolvidos.

A troca se passa numa ponte, a neve caindo, tudo no maior suspense, porque pairava a dúvida se os russos aceitariam o acordo 1 por 2. Dai o título do filme “Ponte dos Espiões” (“Bridge of Spies”).

A crítica tem elogiado o filme. Nós também, pois, valoriza mais os atores e suas performances, a trama evidenciado o conflito de cada personagem, com interpretação magistral tanto de Tom Hanks quando do espião interpretado por Mack Rylance.

Por todos esses atributos e pela atmosfera cult do filme de Spielberg, não temos dúvida de atribuir-lhe “cinco estrelas”, classificando-o como excepcional, sob nossa ótica (PSJ).   

 
 

TERRA DE  MARIA


“Tierra de Maria “ Esp.2015 – Direção: Juan Manuel Cotelo –   Carm Losa, Juan Manuel Cotelo, Emilio Ruiz, Luis Roig,                                         Lucia Ros,Elena Sanches, Cristina Ruikz, Ruben Fraile,Clara Coleto


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               È um documentário espanhol produzido pelo INFINITO MÁS UNO, sob a direção de Juan Manuel Cotelo. O filme está obtendo retumbante sucesso, na Polônia, Estados Unidos, México e até na China.

É interessante, algumas partes levando o espectador à emoção, dado tratar-se da vida de Maria, Mãe de Jesus, a Mãe de Deus e Protetora da Terra, cujos habitantes são seus filhos legados pelo próprio Criador.

Só não apreciei o início, pois parecia uma imitação do Código Da Vinci, baseado no espalhafatoso best-seller de Dan Brown, filme estrelado em 2006 por Tom Hanks e Audrey Tautou. Tirante isso, o filme de Cotelo dá bem seu recado, com um enredo bem moderno, certamente para atrair quem não é muito religioso. Mas já surgiu um destes críticos de cinema de plantão, dizendo que quem é cético, sai do filme mais cético ainda.

É claro que a pessoa que não acredita em nada, senão em si mesmo e no propalado cientificismo, não adianta apelar para a emoção, ou querer demonstrar o indemonstrável que são as coisas do espírito, do coração, como preferem dizer os entrevistados, todos tendo modificado suas vidas, ao serem “apresentados” a Maria, em Medjugorje. É o ponto nevrálgico do documentário: revelar como as pessoas convertidas transformaram suas vidas, tornaram-se mais solidários e dizem ter encontrado a felicidade pela prática do bem.  

Observe-se, a propósito desse documentário, que Jean-Luc Godard, em 1985 produziu e dirigiu o filme “Je vous salue Marie”, em que a personagem que seria Maria, Mãe de Deus, aparece modernizada e vivendo situações as absurdas possíveis, inclusive como prostituta. Chegou a ser proibido aos católicos assistirem essa heresia.

O documentário é bem pertinente e adequado a nossos tempos, onde a fé tem sido relegada a coisa desimportante, as pessoas afastadas das religiões. E o que se vê é um mundo cada vez mais ateu e as pessoas, apesar de toda a modernidade, infelizes.

Atribuimos QUATRO ESTRELAS ao filme de Coleto, sobretudo por sua criatividade em recriar a figura de Maria, como a Mãe de Deus e dos homens´(MMV).

 

  PERDIDO  EM  MARTE


 

      “The Martian”, EUA, 2015 – Direção: Riddle Scott – Astros: Matt Damon,Jeff Daniels, Brian Caspe, Chen Shu, Chiwetel Ejiofor, Donal Golver, Eddy Ko, Enzo Cilenti, Geoffrey Thomas, Kristen Wiig, Lili Bordan, Kate Mara, Machenzie Davis, Sean Bean

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                                                        por Peter Saint-John

Em cartaz, a mais recente produção do cineasta britânico Riddle Scott, cuja cinematografia nos tem oferecido bons filmes, como “The Dualist”; “Alien”; “Blade Runner”, “Legend”, “Someone to Watch Over Me”; “Black Rain (1989)”,” Thelma & Louise (1992)”; “Gladiator (2000)”, “Hannibal (2001)”; Black Hawk Down; Kingdom of Heaven e mais recentemente “Prometheus”, “O Conselheiro do Crime” e “Êxodo”.

Com esse aforismo todo da NASA sobre o planeta Marte, que planeja expedições em breve àquele planeta, Scott aproveita a onda e produziu esse PERDIDO EM MARTE, baseado em best-seller de Andy Weir, autor americano que começou essa alucinante narrativa num blog, com grande aprovação dos internautas.

Mark Watney (Damon), fazendo parte de uma expedição a Marte, devido a um incidente terrível, que foi uma tempestade naquela planeta, é abandonado e dado como morto pelos companheiros, enquanto a missão é repentinamente abortada e o foguete retorna à Terra, sem condições de continuar o trabalho. Acontece que, passada a tempestade, Mark encontra-se  semissoterrado, mas vivo. Vê-se, então, sozinho num lugar inóspito, sem água e pouco mantimentos para sobreviver, distante cerca de 225 milhões de quilômetros. O projeto de que faz parte só será substituído por outro dentro de quatro anos, segundo a NASA e Mark terá de sobreviver todo esse tempo.

O único jeito é adotar um manual de sobrevivência totalmente inédito e até absurdo, salvo as licenças cinematográficas, sempre inventadas pela magia do cinema, para contornar os inomináveis obstáculos, como, por exemplo, fazer água potável e outros inúmeros itens de primeira necessidade, que absolutamente inexistem em Marte.

Apesar do enredo não conter grandes sacadas e se desenrolar de maneira seca, como aliás é o lugar onde as coisas ocorrem, o filme atrai o espectador, sobretudo graças à performance do ator, Matt Damon, o seu verdadeiro malabarismo para conseguir sobreviver. É uma espécie de primeiro homo sapiens, lá pelos primórdios do surgimento da espécie humana, a fabricar suas primeiras armas e utensílios, principalmente o fogo. No caso de Mark (Damon) é “fazer” água, para poder plantar batatas, numa estufa, sem o que certamente morreria de fome.

Mas para sobreviver – a exemplo de outros filmes de sobrevivência humana (“A Última Esperança da Terra”- 1971, com Charlton Heston e “Náufrago” – 2000, com Tom Hanks; e “O Pianista” – 2002) – Mark tem de dar nó em trilho e o absurdo é que ele consegue. O mais estapafúrdio é que ele consegue ser resgatado, depois de dois anos, pela NASA, passando toda sorte de agruras, mas que ele a tudo vence com criatividade e bom humor, do contrário enlouqueceria.

Sem dúvida é um filme interessante graças à esplêndida atuação de Matt Damon, ator já consagrado pelos papéis que já representou no cinema. O  script, a nosso ver, apresenta muitos furos, inadequações, sofismas e outros fantasmas inerentes à arte e técnica cinematográficas, os “efeitos especiais”. Mas é difícil o espectador engolir, por exemplo, como Mark consegue fazer água, através de uma combinação química aleatória e – o incrível que era ele ter barbeador, para cortar sua enorme barba, antes de ser resgatado. Já o resgate, também é estapafúrdio: ter de ser projetado de Marte num foguete desmontado, a rolar pela atmosfera do planeta e, como não bastasse, acoplado no espaço por uma astronauta, também projetada do foguete salvador, tudo isso no espaço sideral – é o máximo.

O filme merece QUATRO ESTRELAS, sobretudo pelo papel de Matt Damon e a magia dos efeitos especiais nas mãos de um expert na matéria: Riddle Scott. (PSJ)

 

 

A  DAMA  DOURADA


 

“Woman in Gold” – EUA, 2015 – Direção: Simon Curtis – Astros:                          Helen Mirren, Ryan Reynolds, Daniel Bruhl, Katie Homes, Max Irons,              Charles Dance, Tatiana Maslany, Antje Tram

 

 Filme baseado em fatos verídicos. Trata-se de pessoa comum que enfrenta um Estado, através dos tribunais. É o caso narrado pelo cineasta Simon Curtis. Maria Altmann (Mirren), depois de 35 anos resolve enfrentar o Estado da Áustria, a fim de recuperar quadro pintado por Gustav Klint, retratando sua tia Adele Bloc-Bauer, que fora roubado pelos nazistas na 2ª Grande Guerra, quando invadiram esse país.

Para tanto, contrata advogado, conhecido de sua família, Randal Schoenberg (Raynolds), embora sabendo se tratar de causídico que começa a carreira, inexperiente ainda nas lides jurídicas.

Em “feedback”, o filme vai mostrando a vida e os episódios sobre o sofrimento de sua família, assim como os demais judeus, ao serem violentados nos seus direitos e, por fim, submetidos aos fornos nazistas.

O filme transita entre o drama e a tragédia procurando demonstrar as peripécias da ação reclamatória de Maria, que tenta reaver o famoso quadro de Klint, mas tem de enfrentar terrível oposição da parte das autoridades austríacas, que fizeram do quadro, denominado “A Dama Dourada”, espécie de corifeu do País, como o quadro “Mona Lisa” seria para a Itália. O referido quadro se encontra exposto em Museu da Áustria. Maria é impulsiva e, às vezes, chega, em determinado momento das “acirradas” lides dentro e fora dos tribunais, a desistir do intento, preferindo viver em paz na Califórnia, com sua lojinha de enfeites. Mas seu advogado insiste, porque agora ele colocou todas as fichas no caso, teve de abandonar o emprego numa grande empresa jurídica, para tratar do rumoroso processo, tido, por sinal, como causa perdida, porque nada iria demover o estado austríaco a devolver o famoso quadro, mesmo sabendo que a verdadeira proprietária era fugitiva do regime nazista e que estes simplesmente se apoderaram da obra de arte, de propriedade particular da família judaica Bloc-Bauer.

A crítica oficial foi desfavorável ao filme. Achou que era inconsistente, pois não mostrou na realidade o embate nos tribunais, com vistas à solução de um considerado quase impossível. Ao final, o filme acaba sendo uma apologia à justiça americana que de certo modo obriga a instância jurídica  austríaca a devolver o quadro a seu verdadeiro dono, a austríaca Maria Altmann – a cobro talvez do holocausto, pois os pais da demandante foram vítimas dos fornos nazistas, em campo de concentração. Reclamam também da atitude do advogado, muito moço e inexperiente na carreira, como conseguiria desafiar os advogados do governo austríaco.

Mas o certo é que o suposto inexperiente advogado consegue que o Governo Austríaco devolva o quadro à sua proprietária, depois de alguns imbróglios jurídicos. O filme não enfoca de modo específico os embates jurídicos da causa, portanto não é uma fita de suspense costumeira nos tribunais, pros e contras, réplicas e tréplicas violentas. Mas não deixa de ser um bom filme. Os críticos deram DUAS ESTRELAS, preferimos dar-lhe TRÊS,    pelo desempenho sempre perfeito de Helen Mirren e também de Ryan Reynolds, este até se revelando um bom ator (EC).

 



QUE MAL EU FIZ A DEUS?

Qu’est-ce qu’on a fait au Bom  Dieu?” França, 2015  – Direção:                   Phillippe Chauveron – Astros: Christian Clavier, Chantal Lauby, Ary   Abittan,  Medi Sadoun, Frederique Bel, Noom, Diawara , Tatiana Rojo,    Elie Semoun.



 
Eis uma comédia realmente hilariante. Aliás, diga-se, os franceses sabem fazer um cinema hilário. Basta que nos recordemos dos filmes impagáveis de Jacques Tati, cineasta dos anos de 1950, que ocupou nossos cinemas ao lado do Totó italiano. É claro que em se falando de comicidade, nada supera Charles Chaplin, gênio no qual se inspiraram os que o seguiram, Tati, Totó, Mr. Beans e nossos simpáticos Oscarito e Grande Otelo.
Phillippe Chauveron nos oferece, hoje, uma história de nos fazer rir à larga. Que o diga o público, que, na estreia do filme, estourou de rir, pelo menos uma moça, atrás de nós, bolava de tanto rir, até com gritos, uma pândega.
Claude e Marie Vermeil (Christian Clauvier & Chantal Lauby) forma um casa francês tradicional, católico com quatro filhas: Isabelle, Odile, Ségolène e Laure, a mais nova e ainda solteira. As demais são todas casadas: Isabelle (Bel) com Rachid, advogado (Sadoun), Odile com David, argelino (Abittan), Ségolène com Chao, chinês. O casal acolhe os genros em sua residência, mas com desconforto, pois são de religiões diferentes. A única filha solteira, Laure, eis que resolve casar e anuncia sua decisão aos pais, informando-os que o noivo Koffi (Diawara) é católico.
A princípio os pais ficam radiantes com a notícia, afinal iam ter um genro católico. Mas qual não é a surpresa, quando conhecem o jovem: é negro e pertence a tradicional família africana. Marie, a mãe, fica em depressão e Claude, o pai, decididamente não aceita aquela união. Assim sendo, ele parte para sabotar o casamento e, pasmem, acompanha-o na ousadia o próprio pai do noivo, o Sr. Koffi.
Depois de uma série de trapalhadas, entre as duas famílias se digladiando, ambas por preconceito, acabam concordando com o “famigerado” casamento entre os pombinhos, um negro com uma branca, quando descobrem que Laure, a noiva, em desespero, resolve abandonar tudo e voltar para París, onde trabalha.
Evidente que se trata de uma sátira, bem feita por sinal, revelando os problemas gerados pelo preconceito de ambas as raças, a branca contra a negra e a negra contra a branca.
Observe-se que esse problema de preconceito racial já foi abordado por vários filmes, principalmente os americanos. Um dos mais significativos  foi “Adivinha Quem Vem para o Jantar” (1967), estrelado por Sidney Poitier, Spencer Tracy e Katherine Hepburn. Neste filme, o casal recebe para um jantar o noivo da filha, mas tudo se transforma quando defrontam-se com o rapaz  negro. A partir daí temos uma troca de preconceitos, pois o pai não aceita de jeito nenhum esse relacionamento – interpretações magníficas dos protagonistas, em especial o desempenhado por Poitier, um dos grandes atores de Hollywood, tempos atrás.
O filme de Chauveron parece inspirar-se nessa película de Stanley Kramer, mas agora com pitadas absolutamente hilárias, destinado a divertir o público, sem deixar de alfinetar o assunto “preconceito”.
Assinale-se também que filmes cômicos parecem fervilhar na cinematografia, desde priscas eras. Pense-se nas trapalhadas dos irmãos Marx, nos filmes de Dom Camilo, interpretados pelo hilariante Fernandel, nos anos 1950, nos gracejos sem jeito das duplas Abott e Costelo e Bing Crosby e Bob Hope, de Dany Kay, com aquela película engraçadíssima “O Inspetor Geral” –sem falar nos filmes atuais, nos quais têm brilhado atores como Jimmy Carey, protagonizando toda sorte de estripulias, Bem Stiller, com suas aventuras no Museu e Adam Sandler, com outras tantas películas loucas. Isto para não se falar no maior de todos os cômicos do cinema que foi o genial Charles  Chaplin, com películas inolvidáveis como “Tempos Modernos”, “O Grande Ditador” e muitos outros.
Todos os atores do filme de Chauveron estão ótimos nos seus respectivos papéis. A fita é simplesmente hilária, a despeito da sisudez do tema. Atribuímos quatro estrelas ao filme, parabenizando todos os atores pela oportunidade que nos proporcionaram de rir, da melhor forma possível. (MMV)
 
GEMMA BOVERY - A VIDA IMITA A ARTE

APENAS UMA BRINCADEIRA
 "Gemma Bovery - A Vida Imita a Arte", França, 2014 - Direção: Anne      Fontaine - Astros : Fabrice Luchini, Gemma Arterton, Jason Flemying
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                                                   Maria Vilma Muniz Veras
 
O filme em cartaz no país, Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte, é quase uma brincadeira do cinema com o romance de Gustav Flaubert,  Madame Bovary. Brincadeira de bom gosto, diga-se a bem da verdade. Como acontece no texto literário, numa pacata cidade do interior da França uma bela e jovem mulher vem morar com o marido, com quem se casa logo depois de uma decepção amorosa. Instalam-se em frente à casa onde mora o padeiro Martin com a mulher e um filho, no local onde também funciona seu comércio de pães sofisticados.  A protagonista é decoradora e chama-se Gemma Bovery, lógico que para fazer  analogia com Emma Bovary, mas é também o nome da atriz (Gemma Arterton). O marido tem o ofício de restaurador, e pouca aparece em cena. A sedução do padeiro pela moça é de imediato, uma tração fatal, revestida de forte suspeição.  Equivocadamente ele vê naquela mulher de expressão doce e sonhadora, a personagem que é a insatisfação em pessoa, no romance de Flaubert, do qual Martin guarda na memória todos os diálogos, como acontece também com Ana Karenina de Tolstoi.
 O padeiro amassa o pão com volúpia, sem conseguir matar o tédio, nem saciar a fome da alma, o que  faz lendo os clássicos da literatura,  focada em adultério coisa ultrapassada para os novos tempos de liberdade feminina. Gemma veio a calhar para Martin, que desde sua chegada não mais desgruda dela, acompanhando seus passos, ora de perto, ora de longe, com curiosidade, mesmo vício, pensando, inclusive, em livrá-la do triste fim da personagem do livro de Flaubert. O interior da França seria tão belo quanto monótono para quem vem de uma cidade grande, e  logo ele apressa-se em mostrar-lhe alguns locais, e em oferecer-lhe o livro de Flaubert para ela ler e se conscientizar do perigo que corre. A moça parece não se dar conta disso, da tragédia que Martin imagina de antemão, pensando no quanto a vida imita a arte. Quando Gemma foi comprar pão pela primeira vez em sua padaria, o padeiro fez com que ela provasse de cada um dos seus sofisticados pães, para poder observar o quanto ela se delicia com o produto. O pão que vai ser peça fundamental na tragédia final, uma farsa das boas de se ver.
Quando Gemma conversa com um rico e belo  jovem local, Martin de longe sente o perigo iminente na situação. Repete os diálogos que eles falam, os mesmos dos personagens do livro, ciente do quanto a vida imita a arte. Uma tragédia que pode, sim, ser induzida pela força do pensamento, a  pessoa ser levada inconscientemente a agir segundo a criação de uma mente doentia. O poder do inconsciente de Martin, numa cruel contradição, como é a própria vida. Mas se a alma da mulher é a mesma de sempre, sensível, ou fraca, em questões sentimentais, na modernidade ela goza da liberdade, o que não existia no passado. As circunstâncias as mesmas, mas não a mentalidade das pessoas envolvidas. Só na cabeça do padeiro, no seu poder de intuir, através da ficção realista  do século XIX, o que não deve ser ignorado, mesmo nos tempos atuais.  O pão sofisticado e delicioso que o padeiro Martin oferece a Gemma, é a metáfora do prazer primordial, presente em todos os tempos, que se sofistica para continuar a causar tragédias, como essa, anunciada.       
 




ENQUANTO SOMOS JOVENS


          “While we’re youngs” EUA, 2014 – Direção: Noah Baumbach –               Elenco: Bem Stiller, Naomi Walls, Adam Driver, Amanda Seyfried

 

 

Segundo o crítico de cinema Antonio Carlos Egypto do blog Pipoca Moderna, é uma comédia simpática. Josh (Stiller) e Cornelia (Walls) formam um casal quarentão que vive bem em Nova York. Não têm filhos, mas, para eles, não é problema. Outros casais amigos têm filhos e fazem festinhas para as quais eles são convidados. Jamie (Adam) e Darby (Amanda) são um casal espontâneo. Josh e Cornélia vêem-se atraídos por esse casal mais jovem, de 25 anos. Dizem-se “hipsters” apelido dado a pessoas atraídas pela tecnologia antiga, como máquina de escrever, vitrolas e LPs, enquanto os demais, inclusive o casal Josh/Cornélia, usam “phones”, ipads e Netflix. Então surgem as diferenças de geração: jeitos de viver, ambições e maneira de solucionar problemas.

O cineasta Noah Baumbach faz uma reflexão sobre tais comportamentos, a maneira como os problemas são solucionados. O que nos parece errado, pode não ser necessariamente por maldade, falta de caráter ou até mesmo bandidagem, mas, sim, em virtude de outro padrão ético. Quanto aos valores, são relativos. O que fazer? Desesperar-se, tentar mudar o mundo?

Em sua crítica na Veja, Isabela Bostow resume o filme. O casal Josh & Cornélia são quarentões e sofrem dos males de sua geração: indecisão, adolescência prolongada. No momento, Josh está editando um documentário já há dez anos, sem conseguir finalizá-lo. Cornélia, sua mulher, trabalha para o pai. Vêem-se acossados pelo entusiasmo do casal mais jovem Jamie & Darby. O olhar de Josh é um pouco míope com relação ao estilo “hipster” de Jamie & Darby – ele aspirante a documentarista, ela faz sorvetes. Usam chapéu e sapato sem meia.

               Quando as coisas degringolam entre os dois casais – em razão dessa diferença de geração – no final do drama Josh grita para Jamie com quem acaba se atritando: “Sou velho, sim.” E ao dizer isso, ele não se sente derrotado, mas sua raiva funciona na realidade como um triunfo.

O filme tenta demonstrar, assim, que as gerações diferem uma das outras, em função quase sempre dos costumes que mudam, a influência da mídia e da suposta modernidade. Também, os comportamentos, com a consequente mudança de valores, inclusive morais. O que Jamie, do casal moderninho, faz contra Josh, de outra geração que não a sua, não foi nada de anormal, segundo seus valores, mas para Josh foi uma traição, um comportamento aético do suposto amigo. Então ele prefere observar seu próprio valor, com o qual costuma ainda ver o mundo.

Ocorre que o papel Bem Stiller, representando esse meio ultrapassado Josh, não lhe cai muito bem, fora de seus padrões normais, que é o de cômico, de fazer trapalhadas. Vez por outra ele ousa ser dramático e quase sempre não se sai tão bem, como é o caso deste filme. Atribuímos apenas três estrelas para essa comédia light e sem muita pretensão. (EC).

 

 

 MEU PASSADO ME CONDENA 2

 
 
 
 
 
 

“Meu Passado me condena”, Brasil, 2015 – Direção: Julia Rezende –            Astros: Fábio Porchat, Miá Mello, Marcelo Vale, Inez Viana, Ricardo                         Pereira, Antonio Pedro, Ernani Morais

 
 

 

Renato Hermdorff, do site Adoro Cinema, tem palavras de certo modo muito elogiosas sobre este filme dirigido pela cineasta Julia Rezende. Segundo ele, é uma comédia com boa fotografia, luz e figurino... “um capricho raro no gênero, no Brasil””. Continua dizendo que “... é menos fantasioso no que se refere aos episódios que cercam o casal”.

Ora, pois, nós discordamos e vamos dizer porquê neste comentário.

Primeiro uma sinopse do enredo. Não difere muito do “Meu Passado me Condena 1”, o inicial da série. Casal que se acha apaixonado, Fábio (Porchat) e Miá (Mello), depois de três anos de casamento, descobre que as coisas não andam muito bem, principalmente para o lado de Miá, que reclama de tudo de seu marido, que ela chama de “crianção”, por ser desarranjado, não cumprir os horários e as promessas. Miá logo pede um tempo, o que significa uma separação. Fábio não aceita porque acha que a ama muito e seria um absurdo se separarem tão cedo. É então que Fábio recebe um telefonema de Portugal informando que sua vó faleceu. Seu avô Nuno (Pedro) mora em Portugal, onde tem uma fazenda numa cidadezinha de apenas 200 habitantes. Resolvem viajar imediatamente para assistir os funerais da avó que Fábio diz tanto amar.

Ocorre que o conflito entre os dois só faz piorar, quando Fábio se encontra com uma antiga paixão de infância, agora noiva de seu também amigo da mesma época Alvaro (Pereira). Dá-se o imbróglio, quando Miá, que não vê melhoras no comportamento desleixado do marido, decide retornar ao Brasil e se separar definitivamente dele. Entrementes, como a preencher as lacunas no frágil enredo, acontecem casos, por exemplo do avô Nuno (Pedro) que se embeiça pela suposta aparição da mulher morta, na realidade a pilantra da Suzana (Viana) que quer dar um golpe no inconformado viúvo – ou do ciúme de Álvaro diante da presença intrigante de seu companheiro de infância, agora transformado em rival. É que Suzana recobra sua paixão infantil pelo antigo namorado. E Miá acaba descobrindo o engodo e parte para o retorno. Ainda há a aparição de suposto amigo do Fábio, o Cabeça (Morais) fazendo toda sorte de gracejos, inclusive com apelos sexuais, não se sabe bem se com o próprio Fábio ou com as parceiras do “crianção”.

É óbvio que o filme se apoia num roteiro muito fraco, ao contrário do que afirmou o comentarista do site Adoro Cinema. Cremos mais fraco que o do anterior, original da série. E mais: é absolutamente inconsistente, porque não explora inclusive o potencial dos atores, tornando-os, no filme, espécie de fantoches da primeira versão, caso do casal de vigarista formado por Wilson e Suzana (Vale e Viana), que se dispõem a fazer as mesmas graçolas caricatas.

O filme também peca na sua direção. A cineasta parece não entender bem de cortes e de close up, quando ou não explora esses instrumentos ou os faz mal, cortando as cenas e deixando de aproveitar os atores mais vezes de perto. É óbvio que falta elã às cenas. Além disso, o filme é falto em  ação, atos e fatos interessantes, ficando as cenas restritas a uma cidadezinha de interior, o que acaba deixando a história cansativa, desprovida de encano, quase medíocre.

Penso que as comédias atuais oriundas da nova cinematografia brasileira não são melhores nem piores do que as antigas chanchadas da Atlântida, com Oscarito e Grande Otelo. Claro que hoje o cinema brasileiro já tem independência, usa da mais moderna tecnologia, mas é notório que carece ainda de bons roteiristas e também bons atores. É quase gritante a diferença da comédia americana para a nossa, por mais brasileirófilos que queiramos ser, como recomenda o furor nacionalista em que vivemos. Vejam-se, por exemplo, os filmes interpretados por Jimmy Carey ou desses dois também atuais Adam Sandler e Ben Stiller – tirante alguns de seus filmes que são horríveis, a maioria deles são bem feitos, com um roteiro bem costurado e cenas realmente hilárias. Tudo depende de um bom roteiro e naturalmente o desempenho dos atores, senão qualquer filme cai no vazio. Como chega a ser o caso deste Meu Passado Me Condena 2.

Poderia até ter sido um bom filme, mas era preciso que nosso mogangueiro Porchat fizesse menos trejeitos e fosse mais criativo em suas piadas, principalmente se tornasse menos roliço, a exemplo de Jimmy Carey que, cinquentão, dá show com seu corpo saradão. Não podemos dar mais que duas estrelas a este quase medíocre filme da cineasta Júlia Rezende, apenas com a ressalva de não ter cenas picantes de sexo (PSJ).



                 SOB O MESMO CÉU















 

 

 

“Alaho””, EUA, 2015 – Diretor: Cameron Crowe – Astros: Bradley Cooper, Emma Stone, Rachel Adamas, Bill Murray, John Kravinski, Alec Baldwin

 

 

Alguns críticos acharam o último filme do cineasta Cameron Crowe uma bela história de amor. Três atores de atuação recentes valorizam o filme: Bradely Cooper, Rachel Adams e Emma Stone, além de mais dois muito conhecidos – Bill Murray e Alec Baldwin. O enredo parece bastante simples: Brian Gilcrest (Cooper) é um militar americano que teve carreira brilhante, mas agora está em declínio, tentando se recuperar no Havaí, como sabemos possessão americana. Na verdade ele tenta esquecer a ex-esposa, (Rachel), que está casada com colega de base (Kravinski) e acaba se envolvendo com uma colega, também militar Allyson Ng (Emma). Uma empresa particular de artefatos nucleares, tenta colocar uma ogiva num satélite que está para ser lançado. O dono da empresa é um milionário que quer tirar proveito do empreendimento espacial americano, Welch (Murray) e, para tanto, contrata Gilcrest, que trabalharam juntos noutros planos, para providenciar o lançamento.

Enquanto isso, Brian fica numa espécie de corda bamba porque ainda nutre amor por Tracy (Rachel). A colega mlitar Allyson Ng cai de amores por Brian, ela é descendente de havaianos. Os críticos oficiais dizem que o filme aborda o silêncio, ou seja, a falta de palavras entre os relacionamentos, gerando os desequilíbrios. Woody (Kravinski) fica intrigado com a volta do ex-marido e nasce assim um conflito latente entre ele e Brian, o ex de sua mulher Tracy.

Há um imbróglio no tal programa espacial patrocinado por Welch, o qual na realidade quer apenas lucrar com a atividade. Reconhecendo as trapaças do amigo Welch, Brian aborta o foguete que colocará uma ogiva nuclear num satélite, causando prejuízo ao programa americano e vem de sofrer a fúria do Almirante (Baldwin). Assim, os relacionamentos são quebrados, o militar e o pessoal, levando Brian a um desânimo total. Tracy, sua ex parece assinalar querer voltar com ele, pois a filha adolescente é fruto de sua união com ela, no passado. Ela está sempre risonha e disposta.

No final, como esperado, o ambicioso empresário é preso e Brian é reconhecido por ter agido corretamente. Tudo se acerta no relacionamento pessoal. Tracy recebe o marido, que se aborrecera com a presença do suposto rival e Brian, por sua vez, aceita se apaixonar por Allyson Ng. E fica o dito por não dito, na santa paz, sob os eflúvios espirituais do Havaí – o Alaho.

O filme parece-nos entrever outra versão, que foge desse  padrão cinematográfico. É possível vislumbrar neste “Sob o Mesmo Céu”, influência da obra-prima “Além da Eternidade” (1989), de Steven Spielberg. Apenas, este não é uma obra-prima, mas uma imitação no que se refere ao conteúdo esotérico. Também aqui temos uma base, agora para lançar foguetes, em vez de aviões para apagar fogo nas florestas. Uma esposa que perde seu marido que a abandonou de algum modo. E o atual dela precisa substituir seu amor perdido, mas tem dificuldade, daí seu comportamento silencioso. Por outro lado, Brian, como se vê por suas ações  militares perigosas anteriores, na verdade pode ter morrido e está ali, no Havai, um lugar também mítico, eivado de lendas esotéricas, não ele, mas seu espírito que, assim, como Dreyfuss, o piloto morto que acompanha sua mulher no filme de Spielberg, procura concertar o errado no passado e fazer que a vida flua para Tracy mais feliz. Enquanto isso ele, melhor, seu espírito, se perde na ilusão daquele “alaho” com Allyson Ng, que seria a visão espírita, propriamente dita,  segundo reza a seita de Alan Kardec.

Não se pode taxar senão de apenas razoável essa película, talvez o mérito se deva justamente a essa imitação, quase propedêutica, da maravilhosa sacada de Spielperg. Três estrelas e meia, é a nossa avaliação - (ED).

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         MAPA  PARA  AS  ESTRELAS


 

 

 


 
Maps to the Stars”, EUA, 2014 – Direção: David Cronenberg –     Astros: Julianne Moore, John Cusack, Oliva Williams, Roberto Pattinso, Mia Wasikoska, Evan Bird.
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        Alguns comentarista assinalaram – com muita dose de razão, por sinal – que este último filme de David Cronenberg mais parece delírios de David Lynch em seu “Twin Peaks” (1992).
          Dr. Stafford Weiss (Cusack) é um guru de autoajuda e sua mulher Christina (Williams) administram a carreira do filho Benjiie (Bird), mas sombras do passado acossam a família com o aparecimento repentino de Agatha (Wasikoska), que é contratada por uma estrela decadente  Havana (Moore). Havana luta para obter o papel principal de filme sobre sua mãe, já falecida.
               Na realidade trata-se sem dúvida  de filme de  categoria B ou C, repleto de pastiches, cenas de outras películas. Cronenberg, assim como outros cineastas com ele alinhados – uns mais outros menos, mas sempre usando o massacre como instrumento de trabalho – não precisa ser cinéfilo para concluir que ele abusa do método cinematográfico, empurrando para nós,  espectadores, todos os preconceitos do mundo. Assim sendo não é de admirar que nesta película ele nos impinja esse horror. Também o fizeram Van Thier, Quentin Quarentino e outros: o objetivo de todos eles é simplesmente escandalizar a plateia, o pobre do frequentador, que tem de aturar tais idiossincrasias.
              Segundo ouve-se nos bastidores da crítica cinéfila, Cronenberg quer neste filme atacar Hollywood, a meca do cinema. Diríamos até mais: ele parece não só arrasar com a indústria cinematográfica, mas denegrir os atores e atrizes. É um acinte, do ponto de vista do espectador, por exemplo, aquela cena de um dos últimos filmes de Von Thier, “Melancolia”, em que Kirsten Dunst, atriz não só linda mas retraída, aparece escandalosamente desnuda durante longo tempo. Pois não é menos escandaloso, e nesse caso até infamante, neste “Mapa para as Estrelas”, Julianne Moore, bela atriz com seus mais de cinquenta anos, fazer uma cena como a do filme, sentada no vaso sanitário, peidando e depois se limpando.
              Por outro lado, não se sabe como uma atriz como Julianne Moore, que arrebatou, merecidamente, o Oscar 2015, se rebaixe a tal ponto. Fez por dinheiro? Em amor à arte? Mas que arte é essa?
              O filme é terrível, tem cenas repugnantes, como essa feita por Julianne. Os atores todos parecem enlouquecidos, fazendo personagens sádicas, isso sem falar que sua trama – o plot que se constitui a espinha dorsal da narrativa – é inteiramente sádico, antiético e até imoral. Cusack é casado com a irmã, portanto, pratica o incesto; Christine, a mulher, transa fora do suposto casamento; Havana, a personagem de Julianne, é completamente louca, faz qualquer coisa para obter o papel do filme que está sendo planejado e transa com qualquer um, inclusive com o chofer que a conduz, o Fontana (Pattinson), e dentro do carro; a filha do casal Weiss, Agatha (Wasikoska) devido ter sofrido um acidente e ter o corpo todo queimado, torna-se (o filme não explica bem);  uma delinquente e num ataque de fúria assassina Havana a pauladas (violentos golpes de um quebra-luz); seu irmão, Benjiie (Bird) com apenas 13 anos já é ator, mas faz tratamento de drogado e numa crise violenta acaba matando um garoto do elenco, seu companheiro de filmagem.
             E o final – para encerrar com “chave de ouro”, mas de forma infernal – Benjiie e Agatha fazem um pacto de morte, os dois se prometem casar, irmão com irmã, como os pais já tinham feito. É de arrasar qualquer ser humano decente.
            Atribuímos, a duras penas, duas estrelas, totalmente impróprio para menores de 18 anos (MMV).                           
 

                            GOLPE  DUPLO

 
 
 
 
 
 
 

Focus”, EUA, 2015 – Direção: Glenn Ficarra – Astros: Will Smith, Margot Robbie, Rodrgio Santoro, B.D.Wong, Gerald McRaney, Adrian Martinez, Dominic Fumusa, Griff Furst

 
               Nicky (Smith) é uma espécie de trapaceiro profissional. Aplica pequenos golpes e possui uma quadrilha que o ajuda. Conhece outra golpista, por quem cai de amores, a Jess (Robbie) que usa sua beleza para conquistá-lo. Depois de alguns contratempos, ele é contratado pelo namorado de Jess, Garrida (Santoro) para praticar um golpe numa corrida automobilística. Drama de humor, romance, ação e suspense. Todos são vilões, tendo sido rodado em Buenos Aires, New Orleans, Nova York e Las Vegas.

O filme deixa a desejar, talvez um dos piores de Will Smith, ele que protagonizou boas películas, como “Independence Day” “Enemy  of the State”, “Wilde Wildd West”, “Men in Black”, “The Pursuit of Happiness” e “I am Legend”. O filme é confuso, e o que é pior, parece fazer uma apologia ao crime, sobretudo por revelar as atividades criminosas dos “pick pockets”, delitos que grassam nos grandes centros urbanos. O mérito do filme talvez resida no fato de servir de prevenção às pessoas, para não caírem nessas armadilhas de rua.

A atuação do galã brasileiro, Rodrigo Santoro, é pequena e de tal ordem que seu nome só aparece nos créditos finais do filme, quando devia aparecer na entrada, junto aos principais. Toda a ação é centrada na dupla Smith/Robbie, Smith um pouco fora de seu “metier! Que é de dar uma de brincalhão, geralmente aquele pobre que busca por um lugar ao sol (“Em Busca do Felicidade”).

Sob o prisma da moral e da ética o filme está totalmente errado, pois em nenhum momento vê-se a ação da polícia que parece nem existir, enquanto a cidade lá fora fervilha de ladrões, vigaristas, golpistas, em todos os lugares, como se tudo isso fosse normal. É uma espécie de panegírico à vigarice e à patifaria – tanto que o próprio pai de Nicky (adotivo) no fim dá um golpe no próprio filho.

Não podemos atribuir mais do que duas estrelas ao filme com restrição para menores de 16 anos (AC).

                                                      
                                GAROTA  EXEMPLAR

 

 
 
 
 
“Gone Girl”, EUA, 2014 – Diretor: David Fincher – Astros: Bem Affleck, Rosamund Pike, Boyd Hobrook, Carrie Coon, Casey Wilson, Emily Tatajkowski, Kin Dckens, Lee Norris, Missy Pyle, Neil Patrick Harris, Patrick Fugit, Scoo McNairy, Sela Ward, Tyler Perry.

 

 

Rubens Edwald Filho, o renomado crítico de cinema brasileiro, elogiou o filme, principalmente pela escolha do elenco. Considera o papel de Rosamund Pike (Ammy) maravilhoso, por isso e por outros aspectos, ele, Edwald Filho aponta como páreo ao Oscar 2015. Coisa, como se sabe que não aconteceu. Elogia também a atuação de Tyler Perry, que está perfeito como advogado, ao defender Nick (Affleck), assim como Neil Patrick-Harris, como o ex-namorado de Ammy.

Afflec é um ator de atuação sempre muito segura, que também é diretor, com uma folha de serviços cinematográficos expressiva.

Mas vamos ao filme, para se ter uma ideia de seu plot . Nick é um escritor medíocre que tem um bar em sociedade com a irmã. Conhece Ammy (Rosamund), escritora de livros infantis, novaiorquina, considerada brilhante pela mídia. Apaixonam-se à primeira vista e resolvem se casar. O filme passa a relatar a vida do casal, cada um a seu lado, sempre em off, Nick relembrando cenas passadas em feedback e Ammy através de um diário, onde ela relata os pros e os contras de seu casamento com o galã Nick.

No início, Nick acorda e não encontra a mulher, enquanto observa certos detalhes curiosos, um móvel de vidro quebrado, por exemplo, sinal de algo errado. A partir daí dá-se o suspense: Ammy sumiu de casa, sem deixar vestígios. Sequestrada? Assassinada? Nick naturalmente chama a polícia, mas sua conduta pessoal não convence. As investigações acabam encontrando pistas que o apontam como suspeito. Agora Nick se acha em grande apuro e sua inocência constestada, não só pela polícia, mas, principalmente pela mídia. É preso e solto em seguida mediante fiança, graças à ação do advogado (Tyler) que recentemente contratou.

As pistas foram deixadas no diário de Emmy, todas muito óbvias, mas suficientes para que Nick seja tratado como assassino da própria esposa. O expectador fica em suspense até o final do filme, se tudo não passa de uma acusação “fabricada”, pela suposta vítima, para incriminar o marido.

Aos poucos vamos percebendo, no desenrolar das cenas, que Emmy é uma personagem psicótica. Ela some de casa, tem vida dupla, muitos fatos e ocorrências se dão ao longo da narrativa. Mas será preciso assistir duas horas e meia de filme até se chegar ao final, na verdade surpreendente.

Vale dizer que o enredo deste Garota Exemplar não é absolutamente original. Já foi tratado por “n” filmes, inclusive películas antigas. Observe-se, por exemplo, o filme “A Malvada” estrelado por Betty Davis. Temos a impressão que os roteiristas de Hollywood esgotaram seu cabedal de talentos e agora parecem estar rateando, isto é, copiando ideias e roteiros anteriores, enxertando e maquiando outros, para sob novo rótulo, apresentar ao público, que raramente vai perceber, exceto os cinéfilos inveterados.

Atribuímos três estrelas e meia  pela atuação do casal Affleck & Pike e pelo desenrolar da trama dirigida por David Finsher, que nos apresentou um razoável “thrilling” (EC).


                        PARA SEMPRE ALICE


                   


 

“Still Alice”, 2015, EUA,2014 – Direção: Richard Glatzer e Wash Westmoreland – Astros: Julianne Moore, Alec Baldwin, Kristen Stewar, Kate Bosworh, Shane McRae, Hunter Parrish, Victoria Cartagena.

 

 

Virou moda falar de Alzenheimer, terrível mal que ataca o cérebro das pessoas e as tornam, às vezes, absolutamente incapazes. É o mal do século.

Esse filme, dirigido por dois cineastas – o que já é de si uma coisa muito estranha – e estrelado pela vip Julianne Moore, fazendo a personagem Alice, acometida de Alzenheimer precoce.

Segundo Rubens Edwal Filho – expert em cinema – o filme baseia-se em fato real. Os dois diretores são gays e casados e quiseram narrar sua própria história de vida – Glatzer, um deles, está realmente com Alzenheimer e piorando a cada dia. Apenas por estratégia, apresentam o caso como ocorrido com uma mulher, Alice, no caso.

Não há negar: o filme é muito dramático, embora os cineastas tenham tentado dourar a pílula para depois vendê-la ao público. A interpretação de Julianne é fantástica, pois ela não se deixa trair por trejeitos, como ocorre, por exemplo, com Merryl Streeps e Anthony Hopkins, cujas interpretações são eivadas de mugangos, muxoxos e outros trejeitos estilísticos que às vezes incomodam e causam espécie ao expectador atento.

Alice é uma professora universitária, linguista famosa, com 50 anos, portanto na meia idade, que, de repente, sente a memória falhar, quando está fazendo seu cooper na rua. A princípio pensa ser apenas um lapso, desimportante e passageiro, mas a coisa vai num crescendo que se torna insuportável, fazendo com que recorra urgente ao neurologista. Descobre, mediante exames e entrevistas com o especialista, que está doente, com Alzenheimer já bem adiantado e o que é pior, tem origem genética e, para completar o quadro de infelicidade, tem 50% de chance de seus filhos (são três: um rapaz duas moças, um a delas casada e esperando filho e a outra, mais nova, estuda teatro).

Alice é professora, tem de continuar o magistério, já fez, inclusive, conferências ao redor do mundo. Numa palestra, programada para falar sobre a doença que lhe acometeu, em plena audiência, os papéis do discurso caem no chão, mas ela chega a fazer até blague e sorridente, ao final, recebe aplausos – aliás, uma cena até constrangedora à vítima, até dispensável, mas talvez para marcar mais o quanto o mal é perverso, levando a pessoa ao ridículo.

O papel do marido coube a Alec Baldwin, o qual parece vem se redimindo dos personagens escroques que já fez ultimamente, fato, por sinal, que combina com seu ego de arruaceiro e deselegante na vida real. Mas no filme, ele está impecável, solícito, amoroso, como manda o figurino.

Dia a dia, as coisas vão piorando – e deve ser o caso de Glatzer com a doença. E torna-se horrível ver uma pessoa culta, erudita até, que passou a vida manipulando fatos e atos linguísticos, como é o caso de Alice, ver desmoronar sua personalidade, esquecer ou trocar o nome das pessoas, não saber mais onde se encontra, vagarosa mas insidiosamente ir perdendo sua consciência. O filme acaba mexendo com o expectador e penso que foi esse o objetivo dos cineastas, plenamente alcançado, principalmente com a interpretação extraordinária de Julianne Moore.

Interpretando-se o filme dessa dupla de cineastas gays, o que podemos concluir é que talvez com esse episódio dramático, suscetível de acontecer a qualquer um, a película sinalize para o fato de que  o ser humano é um ser extremamente frágil e falível e que a erudição adquirida pode, paradoxalmente, se constituir veículo propício ao ataque do Alzenheimer, o lidar com as palavras, a linguagem, a repetição sistemática de um assunto, ações e procedimentos, o caminho para o ataque do mal.  

Julianne Moore mereceu o Oscar recente. Aliás, ela já ultrapassou a própria Streep, além de ser muito bonita, simpática e talentosa. Atribuimos ao filme quatro estrelas, sobretudo pela mensagem de alerta e circunstancial que nos oferece, sem proibição de exibição. (MMV).    




                   INTERESTELAR

“Interstellar”,, Inglaterra/EUA, 2014 – Direção: Cristopher Nolan – Astros: Mathew McConaughey, Anne Hathaway,Wes Bentley, Jessica Chastain, Matt Damon, Mackenzie Foy, Elyas Gabel, Michael Caine, Casey Affleck, Topher Grace, Ellen Bustyn, John Lithgow
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  Cristopher Nolan é cineasta que tem sido bafejado com a fama na meca do cinema. Assinale-se sucessos e insucessos em sua carreira. Fez filmes como Amnésia (2000), Insônia (2002), a Trilogia do Batman-Cavaleiro das Trevas, O Grande Truque (2006) e Origem (2010). E agora este Interstellar, filme que a mídia vem elogiando. 

Convém façamos um prólogo antes de qualquer comentário. O filme tem semelhanças com a obra-prima de Stanley Kubric, Odisséia no Espaço. Seu script baseia-se nas teorias mais ou menos excêntricas de um físico americano, Kip Thorne, especialista em assuntos cosmológicos, como buraco-negro, buraco-minhoca, deformações do espaço-tempo e ondas gravitacionais, tendo sido ele mentor de certas ideias divulgadas por Stephen Hawking. Pois o cineasta que aceitou o projeto do filme tenta dar corpo a essas teorias extravagantes, adaptá-las à cinematografia. E o resultado é o que o público vê nesse recente hit nas telas.

Tem como trama o seguinte. A terra encontra-se em estado de alerta geral, devido a crise que se abate sobre a produção de alimentos, com a devastação das plantações dos produtos alimentícios. Está prestes de se extinguirem as fontes de alimentos no planeta, sem que se tenha solução definitiva para a calamidade pré-anunciada. O filme, porém, se limita a exibir uma situação, numa pequena fazenda do interior, longe de se considerar uma calamidade planetária, mas restrita a um estado americano. Sugere que grassam a fome e o sofrimento, embora apenas sub-repticiamente – situação inspirada na grande crise de 1930, nos Estados Unidos. 

Prevendo o pior, a NASA prepara um programa espacial ambicioso: transportar a humanidade para outro planeta que tenha condições semelhantes às da Terra. Mas a coisa fica totalmente em segredo, para não amedrontar as pessoas. Cooper (McConaughey), ex-astronauta e agora fazendeiro, já aposentado da função, devido certo estratagema da mesma NASA é cooptado a aceitar o comando da nave especial que levará tripulação escolhida numa viagem galáctica. O gestor da ideia é um professor meio cientista maluco, que bola a possibilidade. A equipe é formada, mas Cooper tem de convencer seus familiares a aceitarem-no partir para uma viagem espacial, cheia de perigos e talvez com a possibilidade de nunca mais voltar. O filme procura explorar essa parte emocional familiar dos protagonistas. Dizem os críticos que todos os filmes de Nolan exploram esse campo.

O filme é para tratar dessa viagem extraordinária, em que os astronautas, numa nave espacial superequipada, inclusive com um computador top de linha – assim como ocorreu com o da Odisseia no Espaço – com a diferença de que este é bonzinho, não quer destruir os humanos, responde tudo o que lhe pergunta e age como um expert da área. Como é de se esperar, surgem os atropelos, as dificuldades, as terríveis surpresas a que se sujeita esse tipo de atividade, que é a realização de uma viagem interplanetária, inclusive, segundo o filme, intergaláctica – e o que é pior, a nave terá de atravessar um buraco-de-minhoca (wormhole, em inglês). Começam então as tragédias, agora, lá nas estrelas, num planetoide desconhecido, onde já se encontra outro astronauta, também da NASA, enviado anos antes. Doravante a película se complica, o cineasta coloca muitas cenas estrambóticas de difícil compreensãol, utilizando técnicas de flashbacks e outros artifícios. Na realidade, acaba misturando, no enredo, ficção científica com espiritismo, coisa que Spielberg fez, por exemplo, em Além da Eternidade, mas com muito mais maestria.

Depois de muitas peripécias nessa espécie de infinito galáctico – o filme tem três exageradas horas de duração – Cooper, através de um estratagema decorrente de interpretação do espaço-tempo e da gravidade, o certo é que ele consegue, lá das galáxias, retornar à Terra. Mas ai já é decorrido quase um século e ele agora vai encontrar a querida filha Murph (alguma coisa com a Lei Murph?) muito mais velha do que ele, o pai, cuja idade foi encurtada pelo fenômeno do espaço-tempo devido a viagem interplanetária.

Como se depreende, é visível a semelhança com a Odisseia de Kubric. O que ocorre é que Nolan não chega aos pés daquele. Faz um filme confuso, mas supostamente fundamentado na FC, ou seja, nessas teorias mais modernas derivadas da física quântica ou influenciadas por vezes em inúmeros conceitos e interpretações gerados por essa teoria. Ora, em termos de FC, não se pode desprezar as diversas versões cinematográficas da bem sucedida série Jornada nas Estrelas (Star Trek, em inglês), a nosso ver mais palatáveis, por serem mais fantasiosas.

Não há negar que o filme explora trama interessante, que é o drama pessoal das pessoas ao experimentarem alguma dia as tais viagens interplanetárias. As complicações são imensas. A trama se desenrola em torno do problema da gravidade e dos famigerados buracos-negros e seu similar, não menos catastrófico, que são os chamados buracos-minhocas (wormholes, em inglês).

Vale uma ligeira explicação sobre esses buracos-minhocas. Trata-se de uma teoria criada e desenvolvida pelo físico Kip Thorne, cientista de ponta, que já orientou filmes de FC, como Contato (1997), atualmente consultor da NASA. Trata-se de um desdobramento da Teoria da Relatividade de Einstein. É uma ruptura no espaço-tempo, sendo este o “tecido do universo”, ou seja, o ambiente dinâmico onde os acontecimentos ocorrem. Como as viagens interplanetárias são fisicamente impossíveis nos termos da física atual, devido as distâncias impressionantes dos entes estelares, os cientistas mais criativos ousam sugerir que as distâncias sejam encurtadas, para tornar tais viagens plausíveis e realizáveis. Os buracos-minhocas funcionariam como verdadeiros túneis de escape e atalhos no tecido galáctico, encurtando consideravelmente as distâncias. O planeta mais semelhante ao nosso é o KEPLER, que dista da Terra cerca de 500 anos-luz (a medida utilizada em astronomia). Para alcançá-lo, com nossa atual tecnologia, ou seja, uma nave viajando a 1% da velocidade da luz, levaria cerca de 50.000 anos, portanto, fora de cogitação. Utilizando a hipótese do buraco-minhoca, talvez a viagem levasse apenas 5 anos. Ora, quem assistiu os filmes da série Jornada nas Estrelas sabe que, lá, os astronautas utilizavam a chamada “velocidade de dobra” nas suas navegações, quer dizer, velocidade para além da velocidade da luz, impensável humanamente. O termo buraco-minhoca foi criado em 1957 pelo físico John Archibald Wheeler e eles seriam possíveis por causa da chamada “matéria exótica”, que seria uma substância teórica possuidora de densidade de energia negativo – ambos os conceitos não são provados pela ciência atual. Kip Thorne imaginou um buraco-minhoca transponível.

O que se pode depreender do filme de Nolan é que as viagens interplanetárias ainda constituem um ponto de interrogação, no que se refere à sua viabilidade. A migração dos habitantes da Terra para outro planeta é tema futurista, de longínqua efetivação. Segundo a classificação galáctica prevista por Carl Sagan, a civilização terrestre encontra-se ainda em estágio incipiente, incapacitada de intentar uma aventura interestelar.

Quanto ao retorno espetacular de Cooper, narrado no final do filme, talvez tenha ocorrido o mesmo da personagem do best-seller Contato de Sagan: ele nunca saiu da Terra, tudo não passou de imaginação. Pelas atuações dos atores e assim mesmo achando que de certo modo Sandra Bullock (Gravidade) foi melhor do que Anne Hathaway, atribuímos quatro estrelas ao filme, com possibilidade de ser indicado para o próximo Óscar 2015. (MMV)
 
 
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BIRDMAN OU (A INESPERADA  VIRTUDE DA IGNORÂNCIA)

Birdman(or The Unexpected Virtue of Ignorance)”, 2014, EUA – Direção: Alejandro González Iñarritu – Astros: Michael Keaton, Naomi Watts, Zachj Galifianakis, Edward Norton, Emma Stone.

 
 


Depois de ter feito várias tentativas para entrar no rol dos grandes cineastas hollywoodianos – com filmes como Amores Brutos (2000) e Babel (2006), eis que Alejandro González Iñarritu, cineasta mexicano,  agora se candidata com este “Birdman”, indicado nada menos que a nove categorias do Oscar/2015: melhor filme, direção, ator (Keaton), ator coadjuvante (Norton), atriz coadjuvante (Stone), roteiro, fotografia, edição de som e mixagem de som. Dizem os tecnólogos de cinema tratar-se de “... um trabalho fenomenal de câmera, montagem, iluminação e interpretações com uma carga intensa de adrenalina.”

Não há dúvida que é um filme interessante, cult, embora não difira das atuais películas ultramodernas que abusam da profusão cênica e da tecnologia, tornando-os, quase sempre, confusos e ininteligíveis.

A interpretação de Michael Keaton é revolucionária, aliás, ele tem sido assim em quase todos os papéis que realizou no cinema. Veja-se, por exemplo, em  Os Fantasmas se Divertem” e nos dois filmes em que encarnou o Batman –– segundo alguns críticos o ator que melhor viveu a figura do Homem Morcego.

Em “Birdman”, Keaton é Riggan, um ator decadente que, após representar três vezes o super-heroi Birdman, caiu em certo ostracismos. Sua intenção é dar a volta por cima e faturar, estreando uma peça na Brodway, inspirada num conto de Raymond Carver, com que ele pretende se reabilitar como ator e também financeiramente, pois está com dificuldade nas finanças pessoais. O filme todo se passa praticamente nos corredores dos camarins do teatro, onde estreará a suposta peça, os movimentos dos atores, suas emoções e os embates passionais decorrentes, como a luta entre os dois egos: Riggan X seu parceiro em cena (Keaton x Norton). Nesse interim, ele, Riggan (Keaton) tem de administrar uma filha inquieta (Watts), um produtor angustiado (Zach) e ainda seu terrível super-ego, o Birdman, que ora o rebaixa, ora eleva seu austral.  Em meio a todo esse distúrbio vivencial, ele tem de satisfazer sua imaginação, se passando por Pégaso, voando através dos imensos skyscrappers de  Nova York.

O grande mérito do filme de Iñarritu não está no que narra o roteiro, mas no seu simbolismo, isto é, no que ele significa, as múltiplas representações que ele sugere, no que se pode ou não ser explicado subliminarmente.

Na realidade, o cineasta nos insinua uma representação da realidade, ou seja, fala sobre o próprio cinema, ou utiliza a metalinguagem para celebrar ou criticar a 7ª arte. Melhor dizendo, o cinema dentro do próprio cinema, o interior ou o avesso da arte como expressão cultural, mas em sentido contrário, aquilo que representa ou pode fazê-lo, através do choque de imagens.

Não seria então uma crítica à própria arte cênica, visto que o filme é passado num camarim de teatro? Crítica inclusive do cinema, assim como de seus intérpretes? A nosso ver, o teatro, em si, como arte é uma atividade ambígua por natureza, pois os atores têm de demonstrar aquilo que não são, e, consequentemente, agir e interagir, como se não fossem eles próprios, mas outras pessoas. Dai se origina um grande conflito de personalidade, do representante para o representado. O ator tem de se desnudar de sua personalidade para assumir a de outrem, transfigurando com isto a realidade, que passa, assim, a espelhar uma meta-realidade, ou uma virtualidade, cuja resultante é a corrupção dessa mesma realidade, podendo atingir o cerne do ser, que passa a ser um “não-ser” com o preenchimento do lugar por outro “não-ser”. Em outras palavras, o teatro, a encenação, enfim a ficção, pode favorecer a ruptura do ser-do-ente, tanto que talvez seja por isso que Platão interditou os poetas a participarem da sua República, como loucos, porque poderiam desvirtuar a realidade.

No nosso entendimento, o grande mérito é a magistral jogada do cineasta neste filme, contrapondo à realidade uma virtualidade capciosa, a ponto de o eu-ser enganar-se a si próprio, semelhantemente a um novo Pégaso – dai os voos rasantes  que o personagem faz pela metrópole, tudo comandado por um super-ego (Birdman). Aliás, nas suas entrelinhas o filme de certo forma faz renascer  o mito do cavalo-voador – apenas com a diferença de que, por serem de cera, as asas do Pégaso derreteram ao sol, ele e quem o montava, caíram no abismo. No nosso caso, Riggan/Pégaso fica flutuando no espaço. Mas até quando?

O filme faz jus a indicação ao Oscar/2015, principalmente devido ao  simbolismo de sua aplicação ao muito atual, cheio de contradições, irrealismos e virtualidades mórbidos, quantos birdmen não estão voando por ai.  Atribuimos ao filme quatro estrelas. (MMV)

 

 

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