Contos




             O SHAKESPEARE  DE  OXFORD


                                    Murilo Moreira Veras

 
Londres, 1580. Edward de Vere está de volta à sua terra natal, depois de alguns anos vividos na Itália – Roma, Florença, Veneza. Fluente em italiano, a viagem só lhe trouxe benefícios. Conheceu in locum as culturas daqueles rincões. Preparou-se para isso. Estudou nas universidades de Cambridge e Oxford. Era versado em grego e Latim, graças a seus tutores, o diplomata Sir Thomas Smith e o erudito Laurence Nowell. Vive e integra a Corte  de Elizabeth, que continua mais forte do que nunca, a Rainha Virgem. Ele é que se considera mais maduro. Sabe que ainda recebe os favores da Rainha, a despeito de tudo, principalmente das intrigas da corte. Intrigas de interesses, invejas e outros quejandos, inerentes à Coroa Britânica.
Ele pertence à nobreza, como defensor da Rainha, o 17º Conde de Oxford, desde a morte de seu progenitor, John de Vere, em 1562, quando tinha apenas 12 anos.
                    Londres tem progredido muito e, usufrui – ele reconhece – do mérito de ser o maior centro cultural da Europa. Tem vida artística e comercial agitada, embora boa parte de sua população viva em condições mínimas de higiene e progresso material. Alegam que o Reino vive sua era de ouro, a celebrada Era Elizabetana, o que, para ele, de Vere é algo exagerado. Afinal ele acaba de vir de cidades maravilhosas, como Florença e Veneza, onde as manifestações artísticas, de beleza e estética, são incomparáveis.
                     Naquela manhã, Edward de Vere, Conde de Oxford, com seus já maduros 30 anos, idade já avançada para a época, se prepara para enfrentar na corte o processo de separação de seu casamento com Anne. Ele sabe que parece  ser espécie de persona non grata na referida corte. Sabe também que tem se envolvido em alguns escândalos, inclusive aquela que ficou conhecida como “briga da quadra de tênis” com Phillip Sidney, aquele que foi o primeiro pretendente da mão de Anne, filha de Lord Burghley. Sem falar nos problemas causados pela briga de suas duas famílias, que Lorde Burghley comenta como sendo “brabbles e frays”.
                  Como de costume, De Vere adentra  na Corte com suas vestes mais sofisticadas do que nunca, o corpete talhado com riscas de ouro em camadas, mangas fofas, seu corpo já esbelto enfiado em espatilho, calças altas e soltas com braguilhas, sobre cujas vestes ele se cobre com um gibão, o inseparável rufo e o chapéu em forma de cone com plumas decorativas. Calça sapatos de couro, que valorizam seu elegante caminhar. Na lateral, o famoso corte conhecido como  Landskneeth,  deixando à mostra o tecido  fino e luxuoso da roupa de baixo, o que os francêses chamavam “crevé”. Quem o recebe nas dependências da Abadia de Westminster é seu antigo tutor Sir Thomas Smith, seu amigo e defensor no litígio.
                 Apesar do snobismo, De Vere, o Conde de Oxford, reconhece que passa por momentos difíceis. A Rainha já vem lhe torcendo a cara há algum tempo, devido o tempo que passou fora. Enquanto isso,  nos corredores correm não menos escabrosos rumores, inclusive o de ser amante da Rainha, o que absolutamente ninguém acredita, ou, pelo menos faz vista grossa. Ora, ele sabe que tem se metido em vários escândalos. Melhor, tem sido vítima. Refere a seu “affair” com Anne Vavasour, uma das damas de honra da Rainha. O receio é que descubram que Anne Vavasour está esperando um filho e dele!
                  – Então? – pergunta assim que abraça seu tutor e amigo Sir Thomas.
                – Tranquilize-se, as coisas vão indo a contendo, logo tudo será resolvido – assegura o outro, tomando-o pelo braço.
                Sir Thomas Smith é pessoa que desfruta de muito bom conceito na Corte, sobretudo entre os Juízes.
                Ora, Sir Thomas é um dos que sabem que os problemas de seu pupilo Edward de Vere vão muito mais além do que essas escaramuças. Na realidade, são graves e piores, constituem segredos que não podem ser revelados, sob pena de o Conde sofrer terríveis penalidades, da parte inclusive de seus inimigos e quem sabe da própria Rainha, sua protetora. Por exemplo, Sir Thomas sabe que o Conde escreve poemas, sonetos e peças teatrais e as publica, ou são encenadas, sob pseudônimo de William Shakespeare. Nestas obras, de Vere exercita seu extraordinário talento pela arte cênica. O problema é que nelas ele critica, embora com verve e sutileza, a vida na corte, as mazelas dos reis e as intrigas dos nobres palacianos. E pior: peças que já foram encenadas no famoso teatro-de-arena “The Globe”. Como a que obteve grande sucesso – Hamlet. Depois, Romeu e Julieta. Sem  falar nos sonetos dirigidos a uma possível amante, sobretudo o intitulado  Dark Lady –  a senhora oculta, na realidade é Anne Vavasour.
               À entrada veem o Prior da Abadia, Joseph Prior Smuggler, um homenzinho baixo e gordo, de lábios finos, sorriso cínico, como sempre disposto a destilar veneno.
– Vamos falar com o Prior – apressa-se a dizer Sir Thomas. Ele já nos avistou.
Mesmo a contragosto, de Vere acompanha seu protetor. Sabe que é imprescindível obter o beneplácito do Prior, homem ferino, que tem passe-livre na Corte, até, quem sabe, pelos aposentos da própria Rainha, espécie de “eminência parda”.
            Ao vê-los se aproximar, o Prior se abre num sorriso, que ambos sabem, falso quanto sua própria personalidade.
              – Meus nobres amigos, faz tempo que não o vejo, meu caro Conde e Sir Thomas, que prazer em rever ambos...
              Cumprimentam-se, como se fossem bons amigos.
             Libações feitas, os dois enveredam pelos corredores e alamedas da magnífica Abadia. A única finalidade, como sussurra Sir Thomas a seu ex-pupilo, é fazer presença na Corte. De Vere precisa ser visto, congratular-se com os demais nobres, manter o sorriso sempre aberto, auspicioso, àquelas pessoas afetadas e preconceituosas, alguns deles, seu inimigo, ou, quem sabe até desafeto.
               E o motivo de toda essa precaução da parte de Sir Thomas é proteger, a todo custo possível, a honorabilidade de seu protegido, Edward de Vere, o 17º Conde de Oxford. É que ele, Sir Thomas, sabe que se a identidade  do teatrólogo, conhecido pelas peças sarcásticas e ofensivas à classe da nobreza atual, representadas no Teatro Globo, de nome William Shakespeare, são escritas por Edward de Vere e que o homem a quem se atribui o autor das referidas peças, certo senhor de nome conhecido por William Shakspere ou Shaxpere ou Shakspeyr ou Shaspere ou ainda Shaxbere, não passa de uma espécie de laranja do Conde – certamente o Conde acabaria na Torre de Londres, torturado e morto.
                              ____________

               Passam-se os anos. Edward de Vere anula seu casamento com Anne Burghley. Contrai novas núpcias. Em 1581, sua amante Anne Vavasour dá a luz a um bebê e por isso, ambos são levados para Torre de Londres, para cumprir punição. Finalmente, em 1604, aos 54 anos, ele vem a falecer na sua propriedade de King’s Palace, enterrado na igreja paroquial de São João, em túmulo desconhecido. E mais anos são decorridos, cavando-se silêncio profundo sobre aquele que, na Era Elizabetana foi um cultor das letras e protetor das artes. Até que, quatro séculos, depois, em 1920, o pesquisador J.Thomas Looney reivindicou para o Conde de Oxford a verdadeira identidade do célebre teatrólogo William Shakes–Peare, na verdade pseudônimo que usou para satirizar a Corte inglesa à época. Quanto ao outro, o chamado “homem de Stratford-upon-Avon”, não passava de mero negociante, que viveu em Londres e tomava conta de cavalos em frente ao Teatro Globo, sem nenhum registro na sua cidade natal de ter cursado escola, semianalfabeto, que se assinava ora como Shaxpere, ora Shakspeyr, ora Shaspere ou ainda Shaxbere. um cidadão comum, cujas mulher e filhas eram analfabetas, portanto incapaz de escrever uma linha, quanto mais 36 peças teatrais, inclusive obras-primas como Hamlet e Romeu e Julieta, sem falar em 154 sonetos construídos com absoluta maestria.
                Post Scriptum: Humberto de Campos, escritor maranhense renomado da Academia Brasileira de Letras, em seu livro Memórias, narra um fato interessante. Sendo também Veras (por razões pessoas, preferiu ficar com o nome da mãe, Campos), resolveu fazer a genealogia dos Veras e descobriu o seguinte: tratava-se na verdade de linhagem ítalo-teutônica, designando-se DE VERE, cuja corruptela deu Veras. Cinco irmãos desses de Vere/Veras eram cristãos novos judeus que viviam em Portugal, onde foram perseguidos e migraram para o Brasil, aqui se dispersando pelos estados do Maranhão, Ceará, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo. Até hoje vemos Veras espalhados por esses estados.
Vem-nos à baila, a propósito, a deixa do personagem Hamlet na peça do mesmo nome de Shakespeare, Ato I, Cena III, onde se lê: “There are more things in heaven and Earth, Horatio, Than are dreamt of in your philosophy.
                                                                        Bíb, 30.03.17



  













                                              O FUTURO DO MUNDO
                                                                            
                                                                                       Murilo Moreira Veras
          
          O movimento no aeroexoporto em Trappist 1.b é imenso com o aporte de naves espaciais a cada minuto. Os controladores de voos a todos instantes se posicionando, graças à potência de seus supercomputadores galácticos.
                No seu posto de comando, onde supervisiona toda essa azáfama, Dr.Ykejdoiop troca ideias com seu comandado, o Professor Jônius, que o auxilia no imaginoso trabalho de monitoramento, a cargo dos computadores.
              – Está algo inusitado, não acha Dr.Ykejdoiop – indaga o ajudante escrutinando a ampla tela do computador central, diante do formigueiro de espaço naves em trânsito.
             – Sem dúvida, sem dúvida – responde o Supervisor-Geral, com sua vestimenta de trabalho, um uniforme padronizado azul celeste, de material infravermelho, à prova de qualquer intempérie, como exigia o Código de Ética Profissional Galáctico.
           – A propósito – continua o Dr. Ykejdoiop – há poucos dias tivemos uma comunicação fantástica vinda do Dr. Martin Soleil, que se encontra em visita estratégica a nosso planeta, de que o Sol, a principal estrela do vetusto Sistema Solar, encontra-se já nos seus últimos estertores, depois de bilhões de anos de atividade...
             – É verdade, já soube desse fato,  aliás, esperado pela Conselho de Gerenciamento Galáctico, o CGG, há tempo. Temos ai então uma tragédia que se  consuma, não Dr. Ykejdoiop?
O outro esboça um sorriso amarelo.
             – ... Uma tragédia monumental, meu caro. A espécie “homo sapiens, sapiens”, de bilhões de anos de existência, está a ponto de desaparecer...
             – ... Será que não tem alguma coisa a ver com esse trânsito fantástico que estamos assistindo?
O Dr. Ykejdoiop encolhe os ombros.
            – ... É possível, é possível, pois esse movimento não parece normal.
          Professor Jônius – ele mesmo descendente de um dos últimos “homo sapiens, sapiens” do velhíssimo planeta Terra, que orbitava o ainda mais velho Sol – sente dentro de si um arrepio, como  se alguma coisa lhe fosse extraída.
           Está na hora de deixar seu turno e ele se despede do Supervisor-Geral. Ele quase sempre não tem hora para deixar o posto, ainda mais com todo aquele movimento.
           Jonius Asylik, Professor do Instituto de Astrofisica Galáctica, em Iaya, a capital do exoplaneta Trappist1 b, Iayaglobus, tem outras ocupações. Não naquele momento que ele dedica ao repouso e distração. Vai se encontrar com sua companheira Vilovina que trabalha no Centro de Reflexão Artística da capital, para onde se dirige. Lá fazem refeições juntos e depois se dedicam ao lazer – regra de ouro do conviver intergaláctico.
         Já na sessão de repouso, com música suave no recinto e salão de recreio próximo, os dois conversam num gabinete privativo.
          – Como foi seu dia, amor? – ela indaga, ao consorte, enquanto saboreia uma chávena de chá repousante.
          –  Ah, nem me fale. Tivemos um movimento incomum no exoaeroporto, naves chegando de todos os confins, muitas de antiquíssimas civilizações...
           – Hum, estranho, não? Você tem alguma explicação?
          – ... acho que sim. Tudo leva a crer e o Dr. Ykejdoiop concorda, que  algo fantástico acaba de ocorrer no Universo...
          – ???
         – ... Eu lhe falei sobre isso e não se trata de grandes subterfúgios. Claro que se trata de uma fatalidade, mas totalmente prevista, inclusive dentro dos anais da ciência galáctica, isto é, o desaparecimento de uma civilização em decorrência de um fenômeno, a morte de uma estrela... O problema é que não é uma estrela comum que se extingue...
          –... então?
         – ... trata-se do antiquíssimo Sol, uma estrela de quarta grandeza, na Via-Láctea,  que, depois de bilhões de anos em atividade, extingue seu fabuloso arsenal de hidrogênio e repentinamente se apaga, arrastando consigo, para o vácuo inevitável de um buraco negro em que se transformou, todo um sistema planetário também vetusto e todas as civilizações ali construídas há tempos remotos...
Vilovina arregala os olhos, ela também já ouvira falar disso, embora não seja essa sua especialidade, artista que é vinculada à estética e beleza.
        – Por Zeus do Universo! Isso é uma catástrofe... Não é de lá daquele pequenino planeta chamado Terra, que orbita esse Sol, que pertence sua linhagem, meu querido? Você já me falou sobre isso...
       Jônius Asylik se limita a segurar a mão da mulher e os dois caem num significativo  silêncio, quase piedoso, em que ambos não encontram palavras para exprimir o que sentem – em especial o Professor.
       Então das profundezas da alma como ser humano que   representa, Jônius Asylik exala um suspiro extraordinariamente simbólico: é que o espécime “homo sapiens, sapiens” acabava de desaparecer no buraco-negro do mistério da infinitude univérsica.
E uma lágrima de compaixão misturada com esperança, cai dos olhos do talvez último representante ainda recorrente da linhagem humana dos terráqueos.
                                                                                                                                Bsb, 25.02.17
























                CANTANDO  NAS  ESTRELAS






                           Murilo Moreira Veras

        Ali está ele sozinho. A rua singrando o asfalto como a querer atingir o horizonte. O sol já mergulha seu disco ofuscante nas primeiras sombras da noite. Nas mãos, que as mantem em gestos leves, traz o simbolismo das estrelas próximas a surgirem.
              Na rua solitária, ela então  emerge, os olhos grandes e astutos, como dois faróis cintilantes. Sorri encantada com a possível miríade de estrelas que irá habitar a abóboda celeste.
             Os olhos dela fundem-se com os olhos dele, ao encontrarem-se e logo se enlaçam, saltitando na semiescuridão da rua.
Bailado a dois a vida, os olhos inspirando ternura, enquanto vai caindo silenciosamente a noite. Sapateiam, rodopiam. Lá adiante as luzes da Cidade Grande piscam no lusco-fusco da tarde. O disco solar se avermelha, sombreando o cume da montanha cobrindo o horizonte.
            Um casal dançante – amigos, namorados, marido e mulher, amantes por acaso? Ou apenas dois desconhecidos?
           No escurecer do crepúsculo, as sombras singrando o veludo do horizonte, o furor do cotidiano emudece o furor noturno da Metrópole. Pontos de luz pululam aqui e ali, enfileirando-se  num rosário cintilante.
           É a Cidade das Estrelas que se prepara para viver o turbilhão noturno. Veste-se  de sonho, horror e esperança.
          Plano acima, embriagado de música, cujos acordes se projetam na agora vastidão noturna, o casal rodopia, fascínio conspícuo, ignorando a vida, o mundo.
          Acima de nosso vergonhoso terral, lucilam pingos de luz, pequenas lágrimas lucíferas que começam a povoar o panteão do noturno celeste.
          Crepúsculo de sonho?
        O que se dá depois é o ocorrer do encantamento. Por que temos de sofrer a crueldade da imanência?
          O casal une-o o amor, o fascínio, a vibração da oportunidade do encontro. Os dois se amam. A paixão os enleva.
           Leo e Lisa sapateando no palco natural da vida.
           Leo é um músico ainda não descoberto.
           — O que você quer ser? – pergunta Lisa, os olhos cheios de inquietante ternura.
           — Pretendo montar uma casa de show só minha, ter uma banda de jazz...
           — ... de jazz?
           — ... jazz original, revitalizar o espírito jazzístico, hoje tão esquecido do público.
Leo está eufórico. Também é compositor, está compondo uma melodia.
         — E você, minha parceira linda, qual o seu sonho? — ele indaga, o coração em festa.
         A moça pousa nele os grandes olhos luminosos:
       — Quero ser atriz, representar papéis como figurante desse grande teatro que é a vida. Também escrevo peças teatrais...
        — Uau!  estou dançando com uma moça genial...
        — E eu estou nos braços de um músico talentoso, uma pessoa ainda sonhadora...
        Dois jovens dançarinos trocando ideias sobre seus sonhos.
       É proibido por acaso sonhar, deslizando assim no asfalto, antes que o ruído notívago da Grande Cidade aumente?
     Oxalá jamais proíbam o amar, que não  chegue a esse ponto o pragmatismo tecnológico, a supermodernidade  de hoje em dia.
      — Essa sua canção já existe, tem nome, como se chama o sonho de seu coração? — Lisa quer saber.
       — “O Meu Coração Canta” – e começa a assoviar os primeiros acordes de sua canção.
      — Oh! Que linda, amei — ela  responde, doce, a gentileza revelada nos trêmulos lábios, a sorrir de emoção.
       — Dedico a você.
      — A mim, mas você mal me conhece, parecemos tão desiguais, não sei se gosto de jazz, só gosto de música clássica...
      — Mas o verdadeiro jazz é um clássico, como Chopin, Bach, Beethoven...
      — Você é um amor, eu me chamo Lisa.
      — E você uma estrela, minha estrela-guia, meu nome é Leo.
      Assim, enlaçados, ao enlevo daquele instante amoroso e singular, os sopros dos elísios os impelindo e impulsionando, ao som dos acordes de uma belíssima melodia — os dois, Leo e Lisa se elevam acima dos rés-do-chão do mundo.
      E dançam voejando através da abóboda celeste, a saltitar entre as estrelas, cada uma delas exalando luz — verdadeiras pétalas cantantes...
     
























                                   ILUSÃO


                                          Murilo Moreira Veras

Para mim a luz  apagou, uma luz que não se via precipitou-se em meu olhar, parecia envolta em sombras. Palavras soltas, involuntárias entremeiam-se. Parece que a tudo falta  fôlego, esse impulso que nos leva adiante, sem amarras. Não são as amarras que costumam interceptar os caminhos do coração?

O que sabia sobre a ilusão? Meu amigo cicerone me faz esta pergunta e de pronto não me proponho responder. E a realidade: pode a realidade representar uma ilusão? Sim – penso com meus botões. Há cinco séculos antes de Cristo, Zenão de Eléia, filósofo pré-socrático, já tentava provar, mediante artifício de raciocínio, não existir o movimento. Ora, não existindo o movimento, também não existiria a realidade, posto que esta não passa de um seguimento da mesma realidade.

– Você acha que vive uma ilusão? O outro pergunta, como me testando.

– O que sei é que o mundo atual está cheio de ilusões, inclusive as chamadas “ilusões perdidas”.

– Isto é verdade, todos nós já sofremos de uma “ilusão perdida”...

Falamos e alcançamos novos entrechos de nossa caminhada, penetramos numa espécie de bosque entrecortado de alamedas, exemplares de herbários, caules com folhas entrelaçadas, flores silvestres cujos botões coloridos denunciam pequenos sorrisos, encontradiços em pomares naturais,  jornadas interioranas.

– Veja este lugar – meu amigo desfila sua cantilena, acompanhante improvisado. Quer me chamar atenção, enquanto me perco ouvindo o ruído dos pés calcando a trilha de cascalho, o som rítmico de nossos passos.

– Parece um pedaço do Paraíso!

(Ele não se dá conta de estar me prestando um serviço, não me dando aula sobre a beleza do local, descrevendo a paisagem com detalhes,  dando o nome científico das flores, coisa que absolutamente desconheço, deve ter decorado um dicionário de floricultura).

Por que ele compara o lugar como um pedaço do Paraíso? A mim me parece um local como outro qualquer, talvez um sítio na periferia de uma grande cidade. Ou se tratava de um jardim, um parque?  O Hide Park no centro de Londres ou o Central Park em Nova York? Quem sabe o Jardim Botânico do Rio de Janeiro? Ora, também pode ser o Jardim Botânico, não do Rio, mas de Meise em Bruxelas, Bélgica.

Não é uma ilusão se àquela hora da tarde de um dia movimentado, estivermos passeando, eu e meu cicerone em quaisquer desses maravilhosos parques, todos cravados em centros metropolitanos. Penso: onde, pois, a ilusão? Mas, se é realidade, então eu e meu cicerone estamos perdidos.

A última hipótese me ocorre com mais certeza. Mas, então estamos perdidos em algum lugar no espaço tempo. Dou voz alta a este pensamento.

– Você realmente acredita nessas coisas de transmigração da matéria?

– Você quer dizer o “teletransporte” do filme Star Trek? Sei lá, tenho visto tanta coisa estapafúrdia neste nosso novo velho mundo. Outro dia soube de pesquisas telepáticas incríveis, pessoas se comunicando com outras a quilômetros de distância, pessoas que dizem ter sido abduzidas por criaturas extraterrestres, sem falar nos casos de assombração e possessão demoníaca, explorados pelos filmes de terror...

Falamos dessas coisas, ali, em meio a espaços floridos, plantas exóticas. Ele me designava as espécies pelos seus nomes científicos. Esta é uma avena, Adrantaum spp; agora é uma bromélia, Aechmea fulgens; ali uma malva rósea, Alcea rósea; adiante temos uma barbana, Arctrum lappa; essa é uma cânfora-de-jardim, Artemisa vidali; agora temos uma begônia, Bellis perenis; agora vemos uma calêndula, Calendula officinallis; e esta aqui é uma camélia, Carmellia japônica; dália se chama esta, Dahlia pinnata; eis um fícus, Ficus benjamina; agora uma gardênia, Gardenia Jasminoides; e eis a verônica, Hebe speciosa; veja agora uma magnólia, Magnolia liliflora; e este é um lótus, Nelumbo nucífera; este outro um gerânio, Pelargonu hortorum; esta é a famosa rosa, Rosa grandiflora; agora temos uma framboesa, Rubus idaeus; eis agora uma sempre viva, Xerochrysum bracteatum, e agora um jacinto, Hyacinthus orientalis; e esta a margarida, Leucanthemum vulgare; depois vem esta que é um lírio, Lilium sp; e esta última que é nada menos que é o nosso belíssimo girassol, Helianthus annus.

Fico embevecido um momento com aquele florilégio, os títulos em latim desfilando-me à mente, os estereótipos da língua morta em que se fundou nossa flor de Lácio inculta e bela. Quando retorno agora à verdadeira realidade, meu cicerone latinista havia sumido. E eu fico só naquele estático, quiçá inverídico herbário.

                                                                               Bsb,21.09.16








                      SANTO,  MAS  HUMANO

 



                                                                              
                                                                                             * Elisário Moreno

      Naquela manhã todos os jornais e fontes midiáticas, imprensa, rádio e televisão, destacam a notícia bomba:


“              ENCONTRADAS CARTAS AMOROSAS ENTRE

                 O PAPA E UMA MULHER CASADA”


         Ora, o Papa é nada menos que João Estêvam, falecido há algum tempo, até já canonizado pela Igreja Católica.

        A mulher casada é ela, Maria Dolores d’ Avelar, historiadora, escritora de renome, professora da Universidade Complutense de Madrid – só para esclarecer, entidade fundada em 1499 pelo cardeal Francisco Jiménez de Cisneiros.

        A notícia absolutamente não a surpreende. Acabou de ministrar uma aula  sobre História Antiga, matéria em que se especializou. Vê a bombástica manchete na sala dos professores, onde se  encontra, num intervalo de aula, enquanto espera a sineta de ingresso noutro turno de sua fauna diária, como catedrática. A servente lhe serve o cafezinho, que ela sorve em pequenos goles, saboreando o gosto amargo tanto de seu agrado.

       Lá adiante, o professor de Matemática Superior, Astor di Sálvia a cumprimenta, enquanto gesticulava em conversa com sua colega Florenza de Lucca, mestra em Física.

       Não nota qualquer vestígio, entre os lentes,  de que tenham  tomado ciência da desassombrada notícia. Compulsando a folha do jornal, onde consta a reportagem, observa que seu nome não é citado. Aliás, foi a condição imposta, quando negociou o fabuloso legado das cartas à Biblioteca Nacional de Madrid, depois descobertas pelo repórter do periódico madrileno EL Mundo. Ali só consta mesmo o nome de João Esêvam, o Papa.

      Sorri com certa malícia. Termina seu cafezinho, sem açúcar, o amargo do acepipe parece lhe penetrar a alma. Acomoda-se melhor na poltrona e respira fundo. Tem ainda uns bons trinta minutos até a próxima aula cuja tema agora é a civilização egípcia. Veja só, vai falar sobre o reinado do faraó Amenófis IV, que depois passou a se chamar Akenaton.

      De onde se encontra pode descortinar, através do janela, que se abre para fora, uma réstia do cmpus universitário,  a rotina dos estudantes, em bandos, a conversarem, gesticulando, sobraçando livros, cadernos, as moxilas pesando-lhes às costas. Moiçolas saracuteiam com suas saias revoltas, ou se apertam em jeans, igualando-as a bonecas esguias nos seus espartilhos de enfeites.

      Como tudo começou entre ela e o Papa João Estêvam?

      Sente um ligeiro pulsar, um frisson,  o coração lateja, os olhos brilham.

     Ele era apenas um sacerdote, recém-egresso do Seminário Conciliar de Madrid. Servia na Parroguia de Nuestra Señora del Sagrado Corazón. Ela matriculara-se na paróquia para fazer o Curso Por  Um Mundo Melhor, em que o noviço Padre Ayala era coordenador.

      Impressionou-a à primeira vista sua postura, meia estatura, elegância atlética, voz vibrante e bem postada, mas sobretudo os olhos de um azul profundo, que marcava suas faces amplas e rosadas. Logo descobriu que não se tratava de um simples religioso. Tinha presença e, mais, arrebatava a plateia.

      Travaram amizade desde então, ela frequentadora da bela Igreja de São Francisco Borja, situada na Calle Serrano – templo onde o Pe. Ayala encarregava-se, aos domingos, de oficiar as missas da tarde. Ela tomava o Metrô Ruben Dario, Linha 5 e não perdia aqueles momentos em que o Pe. Ayala, à missa, fazia a homilia domingueira. Concorridíssima a missa. Por causa do padre noviço de bonita preleção?

      Passaram-se os anos. O mundo mudou muito. Maria Dolores mudou-se para o México com a família, onde terminou seus estudos. Bacharelou-se na Universidade Pontifícia do México, em História, especialidade: civilizações antigas, também as que floresceram no México.

      Desperta com o sinal da aula. Desvaem-se os eflúvios de uma bela recordação – ela, Maria Dolores e o Pe. José Maria Ayala, por quem nutria  carinho especial. Ah, já lá se vão trinta ou quarenta anos!

       Dra. Maria Dolores d’Assunción vai ministrar sua aula sobre o brevíssimo reinado do faraó considerado o “precursor do cristianismo na civilização antiga”. Dizem que ele inventou o monoteísmo, na religião politeísta do Egito Antigo, de ritos e rituais herméticos.

       A mestra especializada em cultura antiga apenas se recordara do  romance proibido vivido com o Pe. José Ayala. Trocaram mais de trezentas cartas, mesmo depois de ela se casar com empresário madrileno do ramo de navegação.

       De si, o Pe. José Maria Ayala progredia vertiginosamente em sua carreira eclesiástica, de simples sacerdote, logo tornou-se cônego, pelos méritos prestados e sucessivamente bispo e cardeal. Era tão elevada sua proficiência que, aos 45 anos e 25  de vida eclesiástica, já detinha o grau de Cardeal. E Maria Dolores, sua assídua correspondente e regular cooperadora em alguns escritos do clérigo em ascensão, não se surpreendeu quando soube que seu amigo, já membro do cardinalato conciliar, foi inesperadamente eleito Papa.  Título escolhido  – João Estêvam. E, em Roma, ela esteve presente na cerimônia de  sua entronização como Vigário de Cristo.

       Mesmo casada, com dois filhos, o marido empresário bem sucedido, ela manteve com o Papa João Estêvam relacionamento epistolar “de forma intensa” como insinuou maliciosamente a imprensa mundial.

       Passou-se o tempo, inexorável, nem sempre favorável ao platônico casal de amigos. Depos de um longo e profícuo  exercício como Pontífice – João Estêvam sofre violento atentado em plena Praça de São Pedro, no Vaticano. Sobrevive milagrosamente, mas as sequelas são violentas e irreversíveis, levando-o a morte poucos anos depois.

       Um dia antes do desenlace, Maria Dolores esteve lá, à beira de seu leito, antes de seu afetuoso amigo partir para a eternidade.

       Dois anos depois – não se sabe por quais motivos, quiçá amargurada espiritualmente – o certo é que Maria Dolores, através de um desses profissionais do metier – negociou as cartas recebidas do Papa com a Biblioteca Nacional de Madrid. Condicionou que não venderia  as que enviou ao Papa, aquelas que ele a presenteou no último dia em que o vira vivo no Vaticano.
       Por ironia do destino – essas que escapam à compreensão humana – o Papa João Estêvam foi beatificado e logo canonizado. No seu currículo mais de uma centena de milagres ocorridos ao redor do mundo. Pouco tempo depois, Maria Dolores também falecia.

       O  Sumo Pontífice, ora elevado à categoria de Santo na Hagiografia Católica, teve ou não envolvimento mais significativo com sua admiradora – não sabemos.

       O que sabemos é que a figura ecumênica de João Estêvam cresce cada vez mais. É que, agora, ele não é somente santo, é também humano.
       
       * Contista nordestino nosso colaborador eventual.

                                                                Bsb, 19.02.16


                                                             O  DOMINÓ
                                                                         * Telêmaco de Sá



Curiosa a maneira como ela trajava naquele domingo de Carnaval: toda vestida de preto, luvas nas mãos e o rosto sob uma mascar inviolável. Esse tipo de fantasia naquele tempo tinha um nome: Dominó. Preferido de empregadas domésticas, moças velhas e suburbanas. Mas as más línguas diziam que muito senhor e moça da sociedade se fantasiavam de domínó para não serem reconhecidos e poder freqüentar as três noites desses bailes independentes, de má fama, por sinal.

Esgueirou-se da casa às onze horas da noite, sem ser vista e logo se enturmou com um grupo de outros dominós que se achavam na rua. Deu-se a conhecer evasivamente, para não levantar suspeitas.

Uma delas quis sabe seu nome, para se conhecerem no ofício:

– Tetê – respondeu com voz em falsete.

Que bonitinho. O meu é Juju.

E se foram as duas, Tetê e Juju de braços dados, saracoteando com o bando de sirigaitas, todas trajadas de dominós.

Nas esquinas, paravam, abordavam os passantes, davam adeusinho, sempre a voz de falsete, atrevidas, brincalhonas:

– Alô, benzinho, quer vir comigo?

Mas quando o sujeito queria seguir, elas se afastavam ligeiras, lépidas, enturmadas.

Um camarada falou: “São impossíveis esses dominós de uma figa.” E completou: “ O diabo é que ninguém sabe o que está por debaixo dessa bata preta. Pode ser até uma velha ou um macho.”

Seguiram pela rua Grande – a principal artéria da cidade, naquele dia bastante movimentadapois, ali perto, ficava desses clubes, nos quais ocorria o que era chamado  de “festa de segunda”. Primeira eram os bailes nos clubes granfinos, o Lítero ou o Cassino.

Chegaram à porta do sobrado, onde se aglomerava uma pequena multidão, a maioria curiosos – o público que formava o chamado “clube do sereno”, as pessoas que iam ali para assistir a festa de fora, apurarem os escândalos, se deliciarem com o barulho da música e as confusões geralmente armadas nessas ocasiões.

Uma espécie de “leão-de-chácara” controlava o acesso, geralmente para os marmanjos que chegavam desacompanhadas com cara de briga e assim evitar os primeiros fusuês. Sim, porque as mulheres, ou sejam, os dominós,essas tinham a entrada garantida, sem qualquer restrição. Pode-se dizer que a festa era delas, as folionas da vez.

Subiram as escadas em magote, fazendo aquela algazarra louco. O salão estava repleto: dezenas de outros dominós, mulheres fantasiadas e homens de todo jeito, sentados, de pés, a maioria “butucando”, isto é, na paquera. E o barulho infernal da música quase a fazer explodir os tímpanos das pessoas.No ar, um odor que recendia a cerveja com cachaça e guaraná, tudo isso misturado com um vago bodum de suor e perfume.

Depois de alguns instantes, Tetê notou que um senhor de bigode, cabelos ligeiramente grisalhos e com uma impecável camisa social branca a olhava insistente. Ela fez um sorriso que ele logo notou, sinalizando em seguida. Daí a pouco,  estavam juntos, dançando no meio daquela confusão.

Como é teu nome? – quis saber o homem, no seu ouvido.

– Tetê.

– Tetê, você é um doce.

Mesmo?

Ele puxou-a para si, até sentir que a bata do dominó colava no seu corpo, ela deixando se esfregar, dengosa.

O homem prosseguiu sussurrando, ofegante:

Deixa eu prova desse doce, belezoca.

– Ah, isso depende – ela falou em falsete.

- De que? Diz logo? Dinheiro?

Por detrás da máscara, ela ciciou: “muito amor”.

O homem aproveitou a confusão, o empurra-empurra doido e quis apalpar-lhe os seios, ela negaceou com esperteza, enquanto lhe sorria e lhe acariciava os cabelos.

Não, não.

quero provar um pouco.

De repente, ela disse estar com sede e o homem compreendeu que ela queria era beber. Carregou-a para o bar, pediu para si wiskey, mas ela quis guaraná misturado na cerveja. Ficaram bebericando, enquanto olhava o salão, a música alta, os casais fungando, atracados, numa dança que mais parecia uma fornicação dançante. Vez em quando ele enfiava a mão e sentia o que seris o durinho de seus seios. E sua excitação foi aumentando a cada gole de wiskey, enquanto ela ria e de leve se esfregava nele.

para as tantas, o homem viu o salão rodopiar um, pouco, quis arrancar-lhe a bata. Puxou a carteira do bolso, polpuda, enfiou-lhe na mão um monte de notas. “Vem, vamos ali.”

Desceram as escadas aos trambolhões. Entraram no primeiro táxi. O taxista orientou o casal para umlugar tranqüilo e bom que conhecia”. Entraram num quarto às escuras, na periferia da cidade. O homem estava tão bêbado que arriou-se na cama. Puxou-a para cima, arrancando de um safanão as roupas dela, a máscara, montou em cima daquelas carnes que pareciam estar em chama, sem muita visão, refestelou-se como pôde, às cegas.

E totalmente embriagado, ali mesmo apagou, em sono letárgico, como álcool costuma fazer.

Foi então que a mulher acendeu a luz de cabeceira para tornar a vestir sua fantasia, o amarrotado dominó. A claridade iluminou-a toda: Tetê na verdade não passava de uma velha, enrugada e feia.

Uma velha que resolvera se divertir no carnaval, fantasiada de dominó.


* Contista, nosso colaborador eventual                                       












                                        A  COMPETIÇÃO
                                                                                  
                                                                       Murilo Moreira Veras

Estamos em Mirabolândia, país que fica noutro planeta, pertencente  a uma longínqua Galáxia, distante pelo menos um milhão de ano-luz de nossa Terra, mas, estranhamente, tudo ali  se parece muito conosco, em gênero, número e grau. O planeta se chama Aegidus Planetarius assim chamado por ser o celeiro estelar do perigoso Aegidus Egipcius.

Governa-o atualmente o Presidente Oãmolas, o Justiceiro. Seu governo não tem sido tão miraculoso quanto os de seus antecessores Ivad e Luas, anos atrás. Os analistas mais escrupulosos têm reclamado de desorganização e sua gestão diagnosticada como  pródiga em desacertos. Reclamam inclusive  que,  para governar o Presidente  Oãmolas não precisaria mais do que  20 Ministérios. Mas o Presidente, com seu poder de persuasão e apoiado por uma facção política extremamente forte, tem nada menos que 39 Ministérios.  E mais: vai criar mais um para perfazer 40 – o Ministério da Esperteza – espécie de Ministério curinga dentro da administração. O Presidente alega perante seus governados que as críticas que lhe fazem são inócuas, o de que o seu domínio precisa urgente é de um bureau de trabalho que vise a realização de ESPERTEZAS, isto é, que incentive a criatividade, propostas e feitos cada vez mais mirabolantes – até mesmo para justificar o nome da grande nação que governa, com pulso forte, mas com habilidade, sem se preocupar com contensão de gastos.

É assim que naquele dia quente do verão em Mirabolândia, que fica no hemisfério sul do planeta Aegidus Planetarius, Oãmolas, seu Presidente até certo ponto perpétuo, chama seu Primeiro Ministro Leumas e ordena:

– Ministro, encarregue-se de fundar imediatamente mais um Ministério no meu Governo. Será o Ministério da Esperteza.

– Excelência, mas já temos 39 e dizem a boca miúda que é ministério demais.

  Não interessa – retruca o Rei, áspero, quando sente-se desobedecido nas suas ordens – esse novo Ministério irá calar a boca dessa plebe ignara.

O Ministro faz a mesura costumeira de obediência e quando vai retirar-se para cumprir suas ordens, o Presidente o interrompe:

– Espere. Tem umas condições a serem  observadas...

– ?

– ... a remuneração do novo Ministro será de $50.000 voadoras mensais (moeda oficial do País) e para ocupar esse importante cargo faça diversas competições que resultem em dois candidatos: serão um Mancebo de muito bom aspecto e uma Senhorita, bela de imagem e amorosa de coração. Na última competição, cada um provará ser o  mais esperto  e vencerá o  que for  melhor em invencionices.

Imediatamente o 1º Ministro baixa uma ordem a seus comandados – uma imensa secretaria com inúmeros funcionários – para que executem as Competições.

Depois de um rebuliço geral em todo o Pais entre os candidatáveis ao fabuloso cargo, onde campeiam troca de farpas e insultos nas competições internas, entre “mortos e feridos” na ingênita batalha, quase de vida e morte –  por fim, restam apenas dois: um rapaz de grande porte, louro e complexão atlética e uma moça, esbelta e linda, os olhos de uma doçura oceânica.

 É hora da última competição. O local é um anfiteatro,  as arquibancadas lotadas de participantes de ambos os competidores. Corre um frisson no ar, o que vai acontecer é do interesse de todos os presentes.

Há certo bulício na assistência e logo se formam duas correntes, uma a favor do rapaz, outra da moça – é difícil adivinhar quem irá ganhar  competição tão acirrada e, ao mesmo tempo, tão díspar.

Então, abrem-se as cortinas e um senhor bem apessoado, de casaca e gravata borboleta, se apresenta ao público, o burburinho decresce, faz-se absoluto silêncio. Todo mundo quer saber o que o apresentador vai dizer,  saber mais sobre tão importante  competição, haja vista a celeuma, antes,  criada na plateia.

– Senhoras e Senhores, presentes a esta Assembleia. Chegamos à final de nossas competições. Daqui a instantes saberemos, segundo o escrutínio de nossa Egrégia Corte, quem ocupará o cargo de Ministro da Esperteza, no Governo de nosso honorável Presidente. Esclareço que a Egrégia Corte encontra-se ali, em tablado especial e é composta de 15 membros, 14 juízes e 15 com o próprio Presidente Oãmolas que terá o voto de minerva, cabendo-lhe a decisão final.

Em seguida o apresentador expõe como se realizará a competição, falarão os Defensores de ambos os contendores, o tempo que lhes será reservado, em seguida os dois candidatos falarão de si e de seus projetos à frente do novo Ministério.

Não precisa dizer que a sessão entrou pela noite a dentro, as alocuções intermináveis, cada qual puxando brasa para sua sardinha, a assistência já inquieta de tanto blá-blá-blá, não havia ar condicionado que contivesse o calor.

O certo é que os dois ministeriáveis apresentaram tantas invenções, tantos tipos de espertezas que iriam incrementar na disputada Pasta que ficou muito difícil qual dos dois, se o mancebo ou a moça, teriam direito a abocanhar o disputado cargo e quem, dos dois, apresentou realmente as maiores estrambóticas espertezas a serem implantadas. O rapaz disse que iria escamotear todas as contas públicas para promover mais ações sociais e distribuir voadoras à população pobre. A moça ataca dizendo que os colégios abrirão suas portas para todo mundo, do ensino fundamental até a faculdade, tudo de graça e assim não faltariam mais professores, médicos, economistas, advogados, pois todos se formariam não importa quão ignorantes forem, a população de Mirabolândia será toda de doutores no futuro próximo.

São tão grandes as espertezas propostas pelos dois candidatos que, ao final, depois de ouvir os eternos sofismas jurídicos dos juízes da Egrégia Corte querendo apoiar um ou outro, nosso honorável Presidente, fazendo jus a seu epítome de Justiceiro, decidiu que a moça e o rapaz dividissem o mesmo Ministério e foi além: que os dois inclusive se casassem – pois ambos eram na verdade farinha do mesmo saco.

                                                                                 Bsb, 13.12.15 

 




 O PARALÍTICO E O HOMEM DE NAZARÉ



 Faz tempo que ele ouve falar. É um homem que cura, diz o vizinho viandante, outro dia mesmo vindo de lá daquelas bandas, onde se falava que nascera. Ele quer saber mais. Mas quem é esse homem, descende de quem, é nosso irmão? Em nome de quem fala, como ele cura?

Oziel, o andarilho, mascate de muitas idas e vindas àquelas distâncias, sorri e mostra os dentes falhos, carentes de cuidado, os olhos postos nas montanhas longínquas. Fala gesticulando:

– Dizem que ele nasceu na Galiléia, num chamado Belém, em Nazaré. Carpinteiro por profissão, como o pai.

Aquim está atento a todas as palavras do mascate, lábios trêmulos, olhos fitos em cada ge3sto do outro, como se ali estivesse a res posta do que procura, onde encontra esse homem milagroso.

E logo se atrapalha, ao mesmo tempo que ri, felicidade, alegria interior, chama o filho, Jônatas, correi, ele sabe quem é o homem dos milagres e quando o filho chega, às lágrimas escorrem pelo rijo rosto de dores e lutas. Diz, meu amigo Oziel, diz pra meu filho quem é ele!

Jônatas, moço ainda, ralo de barba, nos seus vinte anos, procura acalmar a afoiteza do pai. Mas o relato também o impressiona. Ele sabe o que representa tudo aquilo para seu velho, trôpego pai, na verdade um homem completamente deformado pela impiedosa doença: é paralítico e está condenado a viver para sempre preso a um catre.

Nem sempre fora assim, lembra-se o filho, ainda na infância quando o pai tinha negócios prósperos, mantinha uma pequena, mas frutífera caravana e viajava, Síria, Galiléia, Trácia, Capadócia. E as lágrimas também de lhe saltam dos olhos.

Posso ser curado, pensa o inválido homem, imobilizado no catre. O filho Jônatas é o primogênito e atrás dele um pequeno séquito de crianças precisadas, que ele não pode dar conta sozinho junto com a mãe, quase desesperados todos.

A quem recorre, ao rei, aos sacerdotes, aos saduceus, aos fariseus, ele mesmo não passando de um samaritano, apátrida naquela pátria dos judeus?

Mas ele, Aquim, tinha os amigos, a família, os filhos, parentes em Samaria.

O mascate Oziel o encoraja, mesmo com seus falhos dentes, o rosto curtido de sol, magro e rijo como um cepo:

– Amigo Aquim, nem tudo está perdido. O Homem de Nazaré pode te curar!

– Mas como, se estou aqui preso num catre, sem poder me mover? Como chegarei até ele?

O outro coça a cabeça de ralos cabelos, a barba rebelde sem tosa no pontudo queixo:

– È, assim é ruim...

De repente ele arregala os olhos, vem-lhe à telha uma ideia, quem sabe a solução, pensa o ágil mercador:

– E se a gente te levasse até ele?

Pai e filho se entreolham, atônitos, como se a solução caísse do céu, vindo da boca do viajante.

É a única solução: Aquim tem de chegar até o Nazareno, falar com ele, pedir que lhe cure pelo amor de Des, o livre daquela prisão eterna, daquele horror que é sua vida, para que ele possa voltar a sustentar os seus, olhar pelos filhos, seguir de novo em frente.

Mas, como Aquim se deslocará até onde se acha esse miraculoso rabi?

Então, outra ideia nasce no imaginoso cérebro do ambulante do deserto. E logo explica  aos dois, Aquim e Jônatas, seu filho e também à sua mulher e a toda a família.

É uma solução completamente maluca, mas ninguém tem ânimo nem o direito de contestar, porque está em jogo a vida, a cura de Aqui, o indigitado paralítico.

Imediatamente eles passam a executar a famigerada ideia de Oziel, a quem se juntam mais dois companheiros, Aron e Samec, aprendizes de mascate. Os quatro, Oziel, Aron, Samec e Jônatas vão às vias da obra: ele transformam o pobre catre de Quim num improvisado carro, toscas rodas de madeiras atadas às laterais, a estrovenga toda puxada por um e surrado jumento de carga, último bem da família do paralítico.

E, sem mais delongas, parte a trupe dos quatro para Galiléia, o pobre Aquim deitado imóvel no improvisado leito-carruagem, que avança rasgando o deserto da Palestina, aos trancos e barrancos em busca de um milagre imaginário.


O predestinado galileu, filho do carpinteiro José e Maria, o Homem de Nazaré, empreende sua desenvolta missão de revelar ao mundo dos homens os segredos e as sutilezas do Reino. Ele perambula pela Galiléia com seus doze discípulos e onde quer que permanece, à beira do mar, ao pé da montanha, nas casas para onde é o conviva principal, acompanha-o sempre uma multidão de pessoas de todas as classes, sacerdotes, fariseus, saduceus, ricos e pobres, mulheres, crianças, enfermos, curiosos, transeuntes.

Naquele momento ele está em Caparnaum, adentra a casa de um morador que o recebe como honrarias. Logo a multidão toma conta da moradia. Impossível alguém querer ali entrar tal o tumulto à porta, o aglomerado de tanta gente.

É justo quando o tosco veículo carregando nosso pobre paralítico aporta à gente da casa onde o Rabi acaba de entrar.

O acesso parece cerrado para o infeliz Aquim.

De novo o artifício é de Oziel, o viandante do deserto. Com o apoio dos quatro homens, usam uma escada e carregam o catre até à cumeeira da casa, destelham o lugar onde o Galilei é visto, no meio da sala, depois, com uma corda amarrada ao catre, descem-no até colocar o paralítico em frente a Jesus.

Nem tão surpreso quanto parece, o Rabi olha fixamente para aquele mirrado homem em cima de um catre, ainda suspenso no ar e diz: “... Meu filho, os teus pecados te são perdoados.”

A multidão, espantada, lhe dá passagem: e Aquim, inteiramente curado, sai, ileso, caminhando – o semblante iluminado de felicidade. (MMV).


                                                                   Bsb, 14.10.15


                     NOSSO MUNDO POSSÍVEL OU VIAGEM EDUCATIVA À MARTE

                                                 

                                                  Jean-François Martin-Soleil




Agora estou só. Nem os meus familiares e amigos acreditam em mim. Fui afastado de minhas funções. Acreditam que estou sofrendo das faculdades mentais. Até um médico, não sei se psiquiatra ou neurologista, atestaram isso, que não estou bem e que tudo tem acontecido comigo não passa de alucinações. Talvez sofra de uma doença até desconhecida.

É por isso que estou nesta casa de repouso, faz alguns dias. Ou meses? Sinto falta de meu trabalho, os meus pensamentos são perfeitos. Tenho boa saúde, o organismo funciona perfeitamente. Então, o que estou fazendo aqui, sozinho, abandonado? Por que as pessoas não acreditam na verdade? Por que desprezaram o que eu lhes disse, as razões que ponderei? Não sou eu o louco, são os outros, vocês, infelizmente, amigos, familiares, meus alunos, os terrestres, enfim, esse mundo de doido em que se transformou nossa Terra.

Querem ver? Então me escutem e me julguem, se puderem, pois as coisas andam tão às avessas hoje em dia que ninguém acredita mais em ninguém, tal é a desorientação que nos encontramos. Como é o caso dessas temerárias expedições planejadas pela NASA e outras empreendedoras oficiais, para Marte, por estes dias.

Ouçam, pois, o meu relato. Suplico-lhes.

Tenho cinquenta anos, fui professor de Ciências Políticas na UNB, pós-graduado em Filosofia Pura e Política Aplicada, na Sorbonne, tendo lecionado em Havard, Estados Unidos  e Oxford. Sou funcionário de carreira do Itamarati e atualmente exerço a função de Consultor Para Assuntos Especiais na ONU, representando nosso País naquela Corte. Sou considerado um “scholar” na nomenclatura científica, tenho vários livros publicados versando sobre economia política, geopolítica, filosofia e sociologia antropológica, assim como grande número de artigos em jornais sobre esses assuntos e outros inclusive astronomia amadora, posto que também sou rádio amador, com mais de trinta anos de atividade, tendo recebido prêmio de qualidade e eficiência internacionalmente reconhecido. Portanto, meu amigos, posso lhes afirmar: não sou uma pessoa qualquer, sou um verdadeiro “homme de lettre”.

Pois, exatamente no dia 13 de janeiro deste ano de 2053, um fato extraordinário me aconteceu. Ao sair de meu escritório em Bruxelas, onde estava adido para assumir agenda especial de trabalho, à tardinha, fui de repente abordado por um casal à saída do prédio onde trabalho. O moço era bem parecido e sua acompanhante uma moça belíssima, ambos com vestimentas mais ou menos insólitas, em relação às nossas. Eles se aproximaram e o moço falou em português puríssimo:

– Vós vos chamais Estanislau Montenegro?

– Sim – respondi meio desconfiado

– Fazei o favor de nos acompanhar, Excelência.

Quando percebi que alguma coisa de anormal acontecia, quis fugir, mas a moça belíssima me segurou a mão e     de imediato  perdi os sentidos, pois tudo escureceu. Quando dei por mim, estava dentro de uma nave, deitada numa espécie de cama suspensa no ar. Acordei atordoado, a mente em turbilhão, mas a moça, a meu lado, tomou-me a mão e voltei imediatamente ao meu estado normal, inclusive as pulsações cardíacas que haviam como que disparadas.

Com um sorriso brilhante, ela me disse:

– Acalmai, Excelência, nada de mal irá vos acontecer. Somos de paz.

– Quem são vocês? – ousei perguntar. O que querem de mim?

Então o moço se aproximou e fez as apresentações:

– Eu sou Uriel e esta é a Eridana. Pertencemos à Chancelaria de Visitantes do Planeta Marte...

– ?!

– temos a missão importante de convidar Vossa Excelência a fazer uma visita à capital de nosso  Planeta Marte, Martânia, em vossa língua.

– Quer dizer que vocês, os senhores, me abduziram, assim contra a minha vontade – argui, sem contudo mostrar qualquer espécie de rebeldia.

– Absolutamente, Excelência – agora era a vez da moça, que se chamava Eridana falar. Nossa moção tem o intuito inteiramente pacífico, sem nenhum sinal de força, apenas queríamos que o convite fosse exclusivo à vossa pessoa e para evitar envolvimentos desagradáveis.

Uriel completou, com toda a amabilidade:

– Nós, Excelência, nunca utilizamos a força, somos pacifistas por índole, apenas cumprimos os protocolos da convivência galáctica. Nosso objetivo é, de certo modo, nos prevenir quanto ao descumprimento das leis áureas predominante no Universo Galáctico.

Dito isso, com meu espírito totalmente pacificado e ouvindo uma harmonia que parecia fluir da própria nave, o bólido, como assim classifiquei aquele transporte, partiu numa velocidade incrível. Algo desacordado, envolto num redemoinho, quando dei por mim a nave instalara-se numa espécie de extensa pradaria. Eridana tomou-me a mão, tonto que ainda estava, a porta da nave se abriu automaticamente e saímos. Noto que estou com um capacete em forma de bolha transparente. Eridana explica que o ar lá fora é muito rarefeito, eu não poderia respirar.

À nossa frente estende-se um imenso deserto, aqui e ali abrem-se  grandes cavernas e penhascos, os raios solares a pino castigam aquela vastidão, vez em quando varrida por estranhos ventos, fazendo levantar uma espécie de fuligem quente e irritante para a pele. É por isso que os meus anfitriões usam uma vestimenta colada ao corpo e infensa a esse desconforto. Só então verifico que estou também usando a mesma coisa.

Então, Eridana que está sempre me acompanhando, enquanto o companheiro avança três passos adiante, me mostra ao longe, emergindo do mormaço, torres pontiagudas, construções e grandes alças que se entrelaçam, anéis circundantes e auréolas, tudo com reflexos brilhantes como se iluminadas. Fico espantado com a visão inusitada e ao mesmo tempo desfrutando daquela florescência em plena insolação.

– Vede Excelência, é lá Martania, nossa capital – Eridana aponta para aquela visão iluminante.

No mesmo instante surge um transporte, espécie de bolha transparente, na qual entramos e somos transportados rapidamente para a cidade, cujos pórticos agora posso ver. Fico realmente deslumbrado ao ver a cidade de perto, construções altíssimas, elevados que se cruzam, nada que se pareça com qualquer coisa na terra.

Nosso guia que maneja nossa bolha agora começa a percorrer, em voluteios estonteantes, o interior da cidade, ultrapassando pontes, alças gigantescas ligando corredores e espaços, um verdadeiro labirinto. É tudo muito fantástico e nem tenho palavras para descrever.

Por fim, a um  sinal de Uriel, o condutor pára o veículo-bolha e todos saímos por um túnel, mas que é transparente, que nos leva a uma abóboda em cujo portal entramos. Para meu espanto, somos recebidos por uma comitiva de marcianos, pessoas como nós, mas esbeltas, cabelos aloirados e vestidos do mesmo jeito, apenas, para diferençar, trazem consigo pequenas mantas, espécie de solilóquios, ricamente emoldurados. Uriel então explica:

– São nossos representantes oficiais, administradores de Martânia.

Eles me fazem cumprimentos respeitosos. Alguns de aparência muito idosa.

Em seguida, sempre guiado por meus anfitriões, sou convidado a uma espécie de ágape, num salão muito bonito, com desenhos e arabescos insólitos para mim, mas de extrema harmonia e beleza. Somos servido com bebidas de aparência  desconhecida, mas sofisticado paladar.

Um dos anciãos – que Eridana me adianta ser o Presidente da Liga das Nações de Marte, órgão máximo que governa todo o planeta – começa a fazer sua saudação. A língua é diferente, mas tenho tradução simultânea para o português, graças a um aparelhinho colocado na orelha. Ele apresenta suas boas vindas a Martânia, diz que estão todos felizes com a presença de um terráqueo em seu planeta. Eis como termina sua oração, cujo teor muito me impressionou:

“Preclaro Visitante do Planeta Terra, nosso convidado de honra neste momento. Quero dizer-vos que Vossa Excelência é muito bem vinda em Martânia e todo nosso Planeta se curva perante vossa pessoa, primeiro representante terráqueo que temos a honra de receber e conhecer. Mas, em nome de nossa Corte Suprema e também em nome de todo o povo marciano, peço-vos que vos digneis a comunicar a vossas autoridades que estamos cientes de que os terráqueos no momento se aprestam em organizar expedições experimentais a nosso planeta. Adianto que nós, marcianos, somos um povo extremamente pacíficos e que já abolimos a força e a violência de nossos códigos de conduta e todas as nossas leis se predispõem a estabelecer normas visando o bem comum e a felicidade de nosso povo. Temos ciência, através de nossas inúmeras perscrutações, estudos e abordagens invisíveis a vosso belíssimo planeta, quão belicosos e violentos são vossos concidadãos, que, a despeito de já terem evoluído em termos de ciência e tecnologia, ainda não alcançaram os níveis adequados de convivência pacífica em sua evolução, cujas mentes se deixam impregnar de  comportamentos violentos que conspiram contra a paz e a harmonia entre os seres organizados. Portanto, peço que propugneis por levar esta mensagem aos Dirigentes da Terra, para evitar que, a desgosto supremo nosso, tenhamos que agir e colocar em alerta extrema nossos artefatos secretos de defesa, inclusive forças superiores da justiça galáctica.”   

É-me concedida a palavra e eu digo algumas palavras primero, assinalando de minha admiração causada com o belíssimo impacto da beleza da cidade, agradecendo a gentileza com que sou tratado, depois afirmando que de minha parte faria todos os esforços possíveis para levar esta advertência às autoridades suprema de nosso planeta. Ao final, eles não aplaudem: fazem reverências.

Terminada a cerimônia, meus anfitriões me convidam a retornar ao veículo-bolha. Então, vamos conhecer vários lugares, fazer um “tour” turístico, novamente em voos rasantes.

Sinto-me completamente extasiado com os diferentes locais e ambientes a que sou levado a conhecer. São praças imensas com lagos artificiais e repuxos de água de variadas cores, de onde se elevam sons de verdadeiras sinfonias, eflúvio magnificente de sons, incompreensíveis para mim, mas belíssimos. Jardins, muitos de repente suspensos, com flores de diversas tonalidades e feitios, que se deslocam e de onde ecoam vozes  e sussurros como quê paradisíacos para meus pobres ouvidos terrestres.

Numa de nossas paradas turísticas, conheço uma construção lindíssima em forma de pássaro gigantesco, cujas asas esvoaçam em movimentos sutis e onde frui-se perfume agradabilíssimo nos deixando quase em estado de vertigem.

– É nosso Templo Oracional – explica Edidana.

É qualquer coisa de extasiante a beleza que envolve aquela espécie de templo-pássaro. Em sua abóboda interior, incrustrado num altar artisticamente moldado, encontra-se uma esfera e dentro dela, espargindo modulações sonoras, um olho brilhante a  lançar intermitentes jatos de luz coloridas.

– É a figura do Ser Criador que nos visualiza a todos, Excelência – explica minha anfitriã, após fazer uma profunda reverência com a mão no coração, como ato de extrema fé.

– É o Olho Univérsico, que comanda tudo –  complementa Uriel, que também faz uma silenciosa reverência.

Ao nosso redor, muitas pessoas, anciãos, mulheres, crianças e jovens, agrupam suas vozes em magníficos corais.

Tudo é muito emocionante e ao mesmo tempo intrigante, de ver pessoas de outro planeta que não a terra, fazer demonstração tão grande de fé e devoção  no Criador do Universo.

Minha anfitriã como que me adivinhando  o pensamento assegura:

– Em Marte, Excelência, como em todo o universo habitado, cultua-se o Criador do Universo, embora não tenhamos uma religião específica, igual a professada no planeta Terra.

É assim que sou levado a visitar outros locais, cada qual o mais fascinante possível, como escolas, fábricas, monumentos ou simplesmente me surpreender com a súbita coloração que tinge do céu, como que a disfarçar a vermelhidão que cobre a atmosfera.

Os meus anfitriãos a tudo vão me informando, enquanto os meus olhos se extasiam de ver tanta beleza, serenidade e harmonia em todas as coisas. A despeito de parecer ser uma metrópole, intriga-me não observar qualquer movimentação de transportes, como nas cidades da Terra.

É então que percebo – e Eridana me aponta – seres voando pelas desvãos de elevados, pontes e edifícios.

– Não temos praticamente meios de transportes como tendes em vossa terra, Excelência – argumenta. A rigor, nós marcianos já descobrimos a transposição da matéria, assim nós nos transportamos mediante navegadores portáteis (e me mostra um aparelho minúsculo que traz junto ao pulso), capaz de nos levar para onde quisermos, inclusive através do espaço. Também, portamos asas que são implantadas em nossos corpos, com as quais podemos voar a pequenas distâncias, como Excelência acaba de ver alguns marcianos adejando pela cidade.

Outro fato que me impressionou bastante é que em todos os lugares, até mesmo nas fábricas, que são todas subterrâneas, ouvem-se músicas, melodias totalmente diferentes de qualquer outra conhecida na Terra – belas, sincopadas, harmônicas e extremamente relaxantes.

De novo minha anfitriã explica que em Martânia e em todas as demais localidades habitadas de Marte têm na música sua inspiração diária. E como eu insistisse no motivo dessa inclinação pela música, Eridana, depois de sorri, como a medir minha ignorância e insensibilidade terrestres, me instrui:

– Nós marcianos, Excelência, fazemos da música nosso grande alimento da vida, em tudo o que fazemos. Nossa música, contudo, tem inspiração muito mais profunda, nasce conosco. Vossa Excelência de certo já ouviu falar na música das esferas, pois é justamente esta em que somos instruídos desde o nascimento e se expande por toda parte, até os confins do universo, a música das estrelas, a harmonia que simboliza o infinito e a eternidade.

Eis que de repente Uriel consulta uma espécie de interfone que mantém em sua cintura. Troca olhares com a parceira Eridana. Intrigou-me aquele gesto, então pergunto de que se trata:

– É que nossa visita chegou ao fim, Excelência. Temos que devolvê-lo imediatamente à Terra.

E  em questão de segundos, acomodado à bolha, faço a viagem de volta à Terra, ao mesmo lugar de onde fui levado – à saída de meu escritório em Bruxelas.

Consulto meu relógio e verifico que, desde que fui transportado, a viagem não passou de três horas, por incrível que pareça.



Não preciso relatar o resultado dessa incrível aventura de que participei. Ao retornar, procurei,  de todos os meios de que disponho e me possibilitam as funções, transmitir a mensagem da  Suprema Autoridade do povo marciano, naquele ocasião memorável. Fui ao plenário da ONU, depois aos jornais, às televisões, tentei de todos meios, possíveis e impossíveis, para inteirar os nossos poderosos dirigentes sobre o perigo que cometíamos autorizando expedições a Marte, mesmo com supostos fins pacíficos. Fiz vê-los o quanto essas expedições poderiam ser ameaçadoras. Preveni-os principalmente sobre as revanches, o perigo da revolta dos marcianos e o temor de enfrentarmos, inclusive uma interferência militar de forças desconhecidas e imprevisíveis.

Ninguém me escutou, ao contrário fui considerado louco e toda minha experiência com essa magnífica viagem à Marte, as admoestações e a magnífica lição de beleza, ética e estética que presenciei – tudo ficou perdido.

Será que um dia me escutarão?    

  * Astrônomo amador francês nosso colaborador




MEU  AMIGO  CURRÍCULO


                        Murilo Moreira Veras




Precisava urgente de um currículo. Então um amigo me indicou um especialista.

– Pode confiar, é o que há de melhor no ramo.

Não perdi tempo. Fui atendido em hora marcada. Não se tratava ter um currículo qualquer, todos de certo modo foram meus amigos curriculares no passado.

– Pode me chamar, Sr. C – disse-me ao me atender no seu escritório. Em que posso ajudá-lo?

Expus o motivo de minha consulta que era obter um currículo que me representasse, que levasse amizade às pessoas e não coisas negativas.

– Ora é justamente o que fazemos – me confirmou o Sr. C de forma gentil, todo seu ser inspirando confiança. Perguntou se podíamos começar e com meu de acordo, Sr.C conduziu-me a uma sala dotada de instrumentos tecnológicos. Destaca-se um painel em quarta dimensão, no qual fatos e ações sobre minha pessoa desenrolam-se, em algum momento de minha vida.

Revivo aqueles fatos, instantaneamente.

Vi-me infante, os brinquedos, os folguedos, as pequenas indignidades que pratiquei.

– Menino, não faça isto senão vai apanhar! É meu pai, com sua voz de trovão, o cinto na mão pronto para corrigir o mal feito. Mas, aparece minha mãe que logo me livra da surra. Ela sempre passa a mão na cabeça dos filhos.

Aquele roubo que fez de uma fruta no mercado, em que saio correndo para não ser pego pelo vendedor. E empinando pipa com seu irmão mais novo. As pipas nós mesmos as faziamos, diferentes das jamantas, que eram mais aprimoradas e muito maiores. Fazer o cerol, uma mistura de vidro moído com goma arábica que era passado na linha, para no alto, cortar as linhas das outras pipas, numa verdadeira batalha aérea. Hoje é até proibido tal prática, pois pode transformar-se numa armadilha perigosa, até matar uma pessoa desprevenida.

Mais novo o irmão era quem fazia o trabalho inferior, ir comprar o papel de seda, para cobrir a armação da pipa.

– Compra o papel de seda na quitanda do seu Menzico – grito para o irmão.

  Cadê o dinheiro?

  Ora, manda botar na conta do papai!

E o mano obedecendo-me, sai correndo dar conta do recado.

Entro na história e vou construindo minha vida. Ou reconstruindo? O sr. C. explica que currículo vem do latim “curriculum-vitae”, que significa “currículo de vida”. Assim, eu escrevo e ao mesmo tempo vivo o meu currículo de vida.

Vejo-me na escola, melhor, caminhando em sua direção e tenho que atravessar várias ruas, segurando a mão do irmão mais novo, tomando conta dele ao atravessar avenida com trânsito. Não esse trânsito pesado de veículos, àquela época podia-se andar tranquilo pelas ruas, tão diferente de nossos dias.

Ginasiano, as escaramuças decorrentes do período. Em certo intervalo de aula, eu e uma corriola de quatro ou cinco companheiros, aproveitamos para dar uma volta na praça. Eis que, à certa altura, lobrigamos lá adiante uma turma de moleques, conhecidos como brigões de rua, violentos valentões, armados de paus e pedras.

O colega grita:

– São eles, o bando do Esmagado!

Aterrorizados por que  tinham contas a ajustar com esses famigerados moleques, deram no pé, escafedendo para todos os lados, até entrando em casas particulares, pedindo socorro. Eu não, fico parado no mesmo lugar, aliás atitude que se faz perante cães raivosos. O bando começa a jogar pedras. Então, o Esmagado em pessoa passa por mim e diz “Olá”, a que respondo “Olá, tudo bem”. Meus colegas ficam estarrecidos. Acontece que a mãe ou tia do Esmagado era costureira de minha mãe, conhecidos de longas datas.

Estou na Faculdade, onde curso Filosofia. Tenho uma colega de classe que se chama Flora. Faz algum tempo que estamos de namoro. Minha família não aprova esse relacionamento de jeito nenhum, porque a moça é escurinha.

– É uma moça de cor, meu filho, ela não é para você – admoesta-me a mãe, sempre ciosa pelos seus rebentos.

Assim mesmo o namoro continua, cada vez mais forte. Meu pai toma conhecimento, não aceita, diz que devo terminar meus estudos, antes de qualquer coisa. Eu me revolto. Não tem jeito, meu pai acaba conseguindo minha transferência na Faculdade para o Rio de Janeiro, onde temos parentes próximos.

Parto a contragosto, já estava gostando da garota, afinal, uma boa moça, de quem, por sinal, nem consigo me despedir. Flora recebe meu fora, através de um bilhete inesperadamente curto e inexpressivo. Sinto-me um vilão, traidor.

Anos de passam. Vejo-me casado, morando em Santa Tereza, um pitoresco bairro carioca. Sou professor e dou aula de filosofia na UERJ. Leciono a matéria “Ética”. Tenho filhos e até netos, já. Tenho a cabeça branca e penso em me aposentar.

Concluo que Currículo é o meu melhor amigo  A ele devo certas fases de minha vida que ele soube muito bem registrar. Não que Currículo seja fora de série, brilhante na seu ofício de contingência. A verdade é que ele, Currículo, tem seus paradigmas de um lado e doutro defeitos, sérios paradoxos, basta considerar alguns procedimentos negativos, que eu mesmo diria não deixam de ter um lavor de insensatez nos seus passos.

Mas isto não lhe tira o mérito de considerá-lo meu melhor Amigo.
                                                                                Bsb, 7.07.15



  
O ALIENÍGENA OU NÃO ESTAMOS SÓS NO UNIVERSO


                                                -Jean-François Martin-Soleil


Ao abrir um matutino, encontro um anúncio de que um cientista erudito irá fazer uma palestra cujo tema é “Estamos sós no Universo?”. O assunto me interessa, porque é da minha área. Sou um dos que acho o tema bastante interessante.

“O que será que este Mr. Robert Dickens – esse é o nome do palestrante – irá dizer sobre tão exótico quanto polêmico assunto?” – é o que fico me indagando ao comparecer a referida palestra no auditório principal da UNB.

De antemão, pelo noticiário e pelas informações que tenho, sabia-o tratar-se de professor americano de astrofísica, conferencista, ateu confesso, autor de vários livros onde expunha suas teorias sensacionalistas, desmistificando as religiões e pregando a teoria do universo casual, portanto, adepto do darwinismo, ou seja, da Evolução da Espécie e crítico acérrimo do criacionismo.

Quando lá adentro, o auditório está repleto, muita daquela gente talvez tenha vindo por mera curiosidade, que também não deixa de ser meu caso. Sento-me o mais distante possível, pensando  que na certa o palestrante – Mr. Robert Dickens – iria arrasar com sua retórica, grande poder de convencimento como transparecia em seus livros. Trata-se de um autêntico “scholar”, expert na matéria, dificilmente vai encontrar quem dele discorde. 

Durante quase duas horas Mr. Dickens discorreu sobre temas ligados ao assunto, tudo de modo a demonstrar que nós, seres humanos “somos os únicos habitantes do universo”. Segundo ele, é balela pensar de outra forma. Citou o “Paradoxo de Fermi” pelo qual fica demonstrado que será impossível a existência humana fora da terra, porque os “condicionamentos” não permitem, ou seja,  problemas relacionados a “argumento de escala” e “probabilidades”, fatores estes que geram conflitos de falta de evidências na existência de vida inteligente além da nossa Terra. Como prova ou evidência – o que certamente inviabilizaria qualquer nossa pretensão de termos companhia inteligente no Cosmo – o todo poderoso Mr. Dickens citou ainda várias outras teorias que desaprovam a proliferação de seres inteligentes fora da Terra, teorias na realidade totalmente desconhecidas, senão pelas comunidades científicas, como a “Equação de Drake” e a “Hipótese da Terra Rara”. Todas essas teorias sustentam praticamente a mesmo ideia, seja pelo fracionamento civilizacional, seja pelo fato de somente a Terra reunir as condições necessárias à existência de vida humana inteligente.

De repente, um ouvinte se ergue do assento e interrompe o palestrante. A plateia fica em suspense, Mr. Dickens paralisado, como atingindo por um raio. O interpelante, um senhor aparentando 40 a 45 anos, em inglês, língua do palestrante, expõe uma série de razões contrárias à dissertação do até então incontroverso conferencista.

A exposição daquele senhor é de uma clareza meridiana, embora poucas pessoas ali no auditório entendam realmente sobre o que ele tão brilhantemente discorre. De minha parte, eu compartilho de todas aquelas ideias que o desconhecido alega em seu oportuno aparte. Mas o resto da plateia, acredito, fica refém dessa notável discussão. Para complicar, ainda há o fato de que toda a arguição do rebelado ouvinte tem de ter tradução simultânea e o próprios tradutor por vezes se atrapalha, quanto à palavra mais adequada. Em síntese, nosso ouvinte faz um retrospecto sobre a matéria, citando desde Pitágoras, Demócrito, Platão, Aristóteles e Sócrates, filósofos da antiguidade e os mais modernos, Francis Bacon, Helder, Kepler, Giordano Bruno  e Isaac Newton, assim como  no nosso tempo, o próprio Einstein e Carl Sagan. E para fortalecer a ideia de que a vida inteligente no universo é possível cita também o celebrado astrônomo francês Camille Flamarion e o grande matemático húngaro Kurt Gödel – aquele autor do livro “Pluralidade dos Mundos Habitados” e este do “Teorema da Completude” e do argumento das “curvas fechadas” com relação a viagens no tempo e espaço.

Depois da fala do ouvinte, Mr. Dickens procura responder suas ponderações, mas já não parece tão senhor da situação, apresenta ressalvas e faz circunlóquios supostamente apoiados na ciência, sem de todo convencer. Sua salvação é que a plateia não parece ter entendido nada da discussão ali travada, certamente por desconhecimento de causa.

Terminada a palestra, minha intenção é ver se consigo falar com o senhor que se opôs com vigor às ideias de Mr. Dickens. Na confusão da saída não consigo distinguí-lo, porque ele saiu repentinamente. Finalmente vou encontrá-lo já na calçada à espera de um taxi. Abordo-o e digo-lhe o quanto me encantou o seu aparte, que considerei brilhante, os argumentos que usou com a propriedade de quem conhece o assunto.

Convida-me para tomar um drinque e vamos a um bar ali perto. Depois de tomarmos alguns chopes, lá para tantas, quando já nos retiramos, a rua praticamente vazia, continuo a elogiar seu aparte e pergunto então qual a sua profissão, se era professor, onde adquirira tanto conhecimento como demonstrou.

Para meu espanto, ele me responde num português puro, sem o menor sinal de que está blefando, o rosto sério e os olhos brilhando à luz que coa da iluminação da rua:

– Meu senhor, você está a falar pessoalmente com um alienígena. Sou habitante do planeta Vênus e estou na terra cumprindo uma missão.

Fico completamente abismado como que fora do ar por uns segundos, e gaguejando, pergunto-lhe;

– Que missão?

O senhor havia misteriosamente desaparecido.
Bsb. 20.06.15
* Astrônomo francês, naturalizado brasileiro, nosso colaborador


  













              OSMARINA

                                       Telêmaco de Sá


Faz muito tempo, mas  tenho-a vívida na memória. Cursávamos a mesma classe, no mesmo colégio, Curso de Aplicação. Era alta para sua idade, de cor preta e pelo que sabia, muito pobre. Mas uma coisa a distinguia de todos os demais colegas, meninas e meninos: a caligrafia. Pois sua letra era impecável, redonda, perfeita, a escrita uma espécie de modelo de sua própria personalidade.

Nunca faltava a aula e sua farda igual à letra, impecável. Tinha-se a impressão de que fora gomada naquela hora, tal a brancura da camisa, sem dobra, os punhos limpíssimos. Aliás, tudo nela era limpeza, organização, os lápis apontados, os cadernos, os livros. Exemplar também era seu comportamento na classe e fora dela, no recreio.

Onde Osmarina teria aprendido aquilo tudo? Como seria sua família?

Era o que costumava me perguntar por aqueles tempos, que hoje parece esfumaçarem-se, no passado longínquo.

E pode-se dizer que era um tempo onde o preconceito e a divisão social se arraigavam na sociedade. Mas, parecia incrível, Osmarina não parecia sofrer nenhuma limitação em relação à sua epiderme, pelo que podia aquilatar. Nunca vi ninguém molestá-la, ao contrário, era tida como exemplo, na classe e em todo o colégio.

Um dia, lembro que certa vez, em função de encargo escolar, fui visitá-la. Ela morava na Camboa, nessa época um bairro dos mais pobres da cidade de São Luis. Não tinha calçamento, as ruelas se enviesavam pelos  mangues, aqui e ali a deparar-se com o lamaçal gerado pela invasão contínua da maré que, quando alta, alagava quase tudo. Daí porque muitos dos casebres fincavam-se sobre palafitas.

Osmarina morava num destes casebres, de chão batido invadido pela maré quando alta e na baixa, o lamaçal à porta.

Foi então que soube tudo ou quase tudo sobre ela, certamente ignorado por muitos de meus colegas. Sua mãe era lavadeira e Osmarina a ajudava na labuta diária para sustentar a casa, pois tinha irmãos menores, ela a primogênita da família. Ela mesma que gomava sua farda para manter aquela aparência sempre limpa. Ajudava na cozinha e cuidava dos irmãos menores.

Osmarina tinha uma vida de sacrifício, pude perceber.

Passaram-se os anos, o destino com seu périplo sempre repleto de surpresas e perplexidades, nos separaram. A vida me transportou para fora do Maranhão, nunca mais em São Luis retornei, a não ser a passeio, por alguns dias.

Onde estaria Osmarina hoje?



Gostaria de saber. Será que por esforço pessoal e vencendo todas as dificuldades possíveis, teria se formado e hoje exerce


 uma profissão? Professora, talvez?



Acredito que seria uma boa professora. E vejo-a no quadro-negro escrevendo as lições a seus alunos com aquela letra redonda, impecável, bonita, elegante.

Não quero pensar coisa diferente, vida diferente, para aquela criatura de letra tão bonita, letra e coração, cujas esperanças o destino, sempre inexorável na sua contingência, tenha, por qualquer razão, deixado à margem do viver. 
CDL/BSB, 9.06.15
- Nosso colaborador eventual 



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