CAMINHO DAS LETRAS

"QUANDO ENVELHECEMOS A BELEZA SE CONVERTE EM QUALIDADE INTERIOR" (RALPH WALDO EMERSON)

LIVRO

RETORNAR COM OS PASSAROS

* Everaldo Moreira Veras

Escritor Pedro Maciel classifica, ele mesmo, seu livro RETORNAR COM OS PÁSSAROS como romance. Não é. O livro vale tudo, menos romance. Ainda assim, seria possível digerir a discrepância, não fora as demais, a seguir.

O Autor utiliza exageradamente períodos em negrito e itálico, alternando-os. Pra quê? Não há significação alguma, algo sem graça, sem valor. Não conduz a nada. E nada acrescenta. Também cada página é iniciada com o código (...): Quer dizer o quê? Intolerável.

A obra tem 72 páginas, as pares tão-só mostram a numeração dos capítulos (72!). Um recurso embromativo, não sei qual a intenção. Também usa somente metade da página na qual escreve. Outro caminho sem propósito, injustificado, uma apelação. Deste modo, o projeto gráfico resultou prejudicado, não satisfaz.

Não conta nada, enredo não tem, como já dito romance não é. Seria, talvez, um ensaio. Um ensaio atrelado à Filosofia.

Pois é, a obra expõe muitos pensamentos filosóficos, um atrás do outro, propositadamente desconexos. Por exemplo:

“O sonho é sempre uma sombra da memória.

Por que inventamos o Inferno onde estamos? Para nós, a realidade do céu é um sentimento.

Quando me apresso, apresso-me lentamente.

Filósofos idealistas defendem o mundo como uma construção do pensamento humano.

Herdei do meu avô a vontade fazer um livro sobre nada.

Ouço em silêncio. Ouço tudo em silêncio.

Todo dia desperto para desmistificar mitos. O mito é uma alucinação.

O tempo é sempre um vaivém de ventos.

Quanto tempo ainda tenho de vida? Todo dia penso em começar uma nova dia.

Há sempre alguma loucura no amor.

A partir de certo ponto não há mais qualquer possibilidade de retorno. É exatamente esse o ponto que devemos alcançar.

Eu sou o meu tempo. Eu sou o meu Universo.

Conhecer é sempre um reconhecer.”

E outras referências, e outras, uma enxurrada de outras mais.

O Autor jorra citações e divagações filosóficas, sem atingir um ponto determinado, plausível. Quase expõe o leitor a um amontoado de queixas e dores, que não se sabe de onde surgiram. Antes, um lamento íntimo, particular, um desabafo penoso. Não mais.

Mas o estilo dele é atraente, limpo, seguro, bem composto. Tem firmeza ao pisar. Disso ninguém duvide.

Embora descentrado, trata-se de um texto forte, diferente, original, inovador. Indiscutivelmente, um livro bonito, cheio de poesia e amor, escrito por alguém inteligente, que sabe mexer com as palavras e revolucionar as idéias.

Eis por que é válido.

Recife,7.09.10
* Poeta, ficcionista premiado, nosso colaborador


LIVRO

LADRÃO DE CADÁVERES

* Cruz d’ Eça

Patrícia Melo, menina literária dos olhos de Rubem Fonseca, é a autora do livro Ladrão de Cadáveres, da Editora Rocco. De sua parte, ela, Patrícia, se vangloria, a quatro ventos, de ser “discípula da estilística do autor de “A Grande Arte”, “O Cobrador” e outros livros. Enquanto isso, ele, Rubem Fonseca, se diz um escritor “super-realista”, escreve com as tripas, jamais com a alma, o coração.

No livro que ora comentamos, sua aluna e adepta do mesmo estilo, parece esbanjar os pastiches do mestre.

A trama ela busca-a no mundo do crime, dos canalhas – o seqüestrador de cadáveres, certamente a autora escolheu o tema bem ao gosto de RF e sua galeria de personagens, bandidos, ladrões, assassinos, estupradores e toda uma verdadeira chusma de marginais que pulula nas grandes e pequenas cidades .

Note-se que a linguagem é chula, posto que direta, seca, estúpida em certos trechos, exatamente igual ao costumeiro linguajar de seu guru, que costuma colocar na boca de seus personagens tal insípido dialeto, também ríspido, enxuto, mas extremamente rasteiro.

Nossa autora procura imitar o modelo, até nos seus mínimos detalhes, como faz com o diálogo, que o embute estrategicamente na própria frase. Não usa travessão para iniciar os diálogos, substitui-o pelas duas aspas à moda americana. Ao final, usa – também como seu guru – a palavra “câmbio”, um estranho neologismo, imitando a linguagem telegráfica e das comunicações burocráticas. “Alô, aqui é fulano, câmbio.” Tudo dentro do mais refinado mau gosto de Rubem Fonseca!

Na verdade, não há absolutamente nada de novo, ou que nos cause espanto, ou ímpeto de imaginação, no mais recente lançamento da benevolente discípula de Rubem Fonseca. O que vemos e dele conseguimos inferir, catando aqui e ali algumas migalhas de estilo, linguagem e foco narrativo, é que se trata de um roteiro policial ou mesmo policialesco, feito de forma fragmentária, com pequenos núcleos dramáticos espalhados ao longo da obra, pelos quais a autora vai esticando sua narrativa. Com o descortino mais para novela do que o peso de um verdadeiro romance, a autora dar ao livro o perfil de policial moderno, bem avançado, condizente ao suposto gosto da massa ignara, salpicando sua estória com palavras de baixo calão, linguajar solerte de cais, mandando para o lixo qualquer intenção de usar a norma culta, com que, inclusive rebaixa o astral do leitor, que se vê, ao lê-lo, roendo beira de calçada.

Com esse livro, ela certamente se insere definitivamente entre os escritores que se propõem adotar essa, por ele mesmos designada, literatura veracista. Termo, por sinal, talvez pela primeira vez utilizado por José Luzeiro, ao introduzir nas letras as suas reportagens policiais, de grande impacto à época, mas que, a nosso ver, hoje não fazem tanto alarde como outrora, quando os crimes e contravenções eram cometidos por plays-boys da classe alta e os bandidos tinham por modelo os modernos alcapones americanos, como o bandido da luz vermelha e outros símiles.

CDL/BSB, 21.08.
* Crítico literário português, naturalizado brasileiro

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