CAMINHO DAS LETRAS

"QUANDO ENVELHECEMOS A BELEZA SE CONVERTE EM QUALIDADE INTERIOR" (RALPH WALDO EMERSON)

ENTREVISTA

ENTREVISTA FICTÍCIA  COM OS PERSONAGENS DE "O ENGENHOSO FIDALGO DOM QUIXOTE DE LA MANCHA”, DE MIGUEL DE CERVANTES E SINGULAR DIÁLOGO QUE ENTRE SI TRAVAM, PERGUNTADORES, PERGUNTADOS E OUTRAS FIGURAS INTERESSADAS NESTA FABULOSA HISTÓRIA.

 

 

CDLetras.: Senhor Dom Quixote, por que decidiu se tornar cavaleiro andante e qual a razão de nomear-se tal, quando vosso nome verdadeiro era Alonso Quijano?

 

Dom Quixote.: Com todo o prazer respondo-vos, senhores, que, nos intervalos de ócio, me dava a ler livros de cavalarias, com tanta afeição e gosto, que deixei de lado a caça e até a dministração de meus bens, tanta cuiriosidade me causaram aqueles livros de cavalaria, como os de Feliciano de Silva, Amadis de Gaula, Esplandião, Dom Olivante de Laura, Florsmarte de Hircaneal, de Melchor Ortega, o Cavaleiro Platir, Cavaleiro da Cruz, de Alonso Salazar, Espelho de Cavalarias, Bernardo de Carpiol, de Agostinho Alonso, Palmeirin de Oliva, História do famoso Cavaleiro Tirante o Branco, de Joanot Mastorell e e Marti Johan de Galba e mais outros que agora me fogem da tramontina. Quanto ao título que me dei, o pus à conta do meu próprio, oriundo da casa fidalga de Quejada ou Quisada e para celebar meu engenho criador é que me autonomeei Dom Quixote de La Macha. Tudo com muito egenho, pois escreveu Feliciano de Silva: “... A razão da sem razão que à minha razão se faz, a tal maneira a minha razão enfraquece, que com razão me queixo de vossa formosura...”

 

CDL.: Todos os cavaleiros famosos foram armados por reis, quem afinal vos ordenou cavaleiro andante?

 

DQ.: Recebí as armas e fui devidamente consagrado a Cavaleiro Andante pelo grão-senhor Vendeiro de Truchuela e as honras decorrentes dessa sagrada missão me foram impostas pelas graciosas mãos de Dona Tolosa, que me cingiu a espada e Dona Moleira, que me calçou a espora, na hora solene da consagração.

 

CDL.: E vossa montaria, por que o nome de “Rocinante”?

 

DQ.: ... depois de escrever, riscar e trocar muitos nomes, acabei por designar meu cavalo de “Rocinante”, por seu conceito, alto, sonoro e significativo, o primeiro de todos os rocins do mundo.

 

CDL.: Falta nos esclarecer quem decidiu ser sua amada, a exemplo de outros cavaleiros andantes célebres...

 

DQ.:  Com muita honra, cavalheiros. Acontece que venci, em batalha singular, o gigante Caraculiambro, senhor da ilha Malingrânia, e este, segundo as regras da cavalaria, apresentou-mo a uma mui hermosa dama chamada Aldonça Lourenço, que, tendo aceitado missão tão dignificante, tornou-se princesa e grã-senhora, passando doravante a designar-se “Dulcinéia del Toboso”, por ser nativa de El Toboso.

 

CDL.: E o escudeiro, como Vossa Mercê o escolheu entre tantos maganões de Espanha que poderiam vos dar a honra?

 

DQ.: Do alto de minha prosopopéia de Cavaleiro Andante, convenci um vizinho meu, homem de bem e de pouco sal na moleira, a ser meu escudeiro, convite esse que aceitou sem muitas delongas, a troco de ganhar e ser o governador de alguma ilha, como de fato o foi da ilha de Barataria por nomeação de Sua Excelência o duque Dom Carlos de Borja e sua digníssima senhora Dona Maria Luisa de Aragão. Como é notório, meu escudeiro chama-se Sancho Pança.

 

CDL.: Valoroso Sancho, foi assim mesmo que foste contratado para servir como fiel escudeiro do invencível Dom Quixote?

 

Sancho Pança.: Desse jeito e modo, Vossas Excelências, pois se eu fora rei por algum milagre dos que o senhor Cavaleiro da Triste Figura disse, pelo menos Juana Gutierrez, digo melhor, Tereza Pança, meu aconchego, chegaria a ser rainha e os meus filhos infantes, o que, no desenrolar da história realmente sucedeu, por pouco tempo é verdade...

 

CDL.: ... Cavaleiro da Triste Figura, teu amo Dom Quixote também assim se denominava?

 

SP.: Não só  da Triste Figura, mas também “Cavaleiro dos Leóes”, mais tarde, por certo em razão dos feitos que deram origem a essas desingnações...

 

CDL.: Aqui entre nós, Sancho, perdão Governador, não foste apenas escudeiro de Dom Quixote, privaste de sua amizade e foste seu confidente em várias ocasiões, como se vê no curso da história, não é mesmo?

 

SP.: Pelo sangue de minha santa mãe, que sou homem de palavra e vergonha, meu amo e senhor Dom Quixote que se diz Cavaleiro da Triste Figura sempre me teve em alta conta. É verdade que tivemos, aqui e ali, alguns entreveros...

 

CDL.: ... por exemplo...

 

SP.: ... coisinhas sem importância, que nem sei se vale a pena contar. Vossas Excelências compreendem bem o que o senhor Cide Hamete Benengele escreveu, refiro-me a esses espalhafates que meu amor e senhor costumava fazer... nessas ocasiões em que ele agia como uma pessoa fraca da cabeça, de miolo mole, entendem Vossas Mercês?

 

CDL.: Como aconteceu na aventura dos moinhos de ventos?

 

SP.: Essa e também outras aventuras desastradas em que se meteu o Cavaleiro da Triste Figura. Muitas delas, valha-me Deus, sofri na carne e nos ossos, como foi o caso das lambadas que recebi dos desalmados ianguenses, sem falar nas sacudidelas voadoras que me deram os tosadores de Segóvia naquela endemoniada venda, onde estivéramos hospedados...

 

CDL.: Dom Quixote, longe de nós melindrar tão nobre cavaleiro, mas o que tendes a dizer de tudo isso, dessas desastradas aventuras, para realização das quais talvez não estivésseis em são juízo?

 

DQ.:  Excelências, não acrediteis em meu escudeiro, que de tolice vai enfiando Sancho. Contra ajuizados e contra loucos todo cavaleiro andante deve estar de sobreaviso. Nossa missão sagrada é acudir pela honra das mulheres, quem quer que elas sejam, rainhas ou simples meãs. O que busco, em minhas inúmeras andanças mundo em fora, não é o desatino do juízo, como apregoa os destemperos da língua de meu escudeiro, covarde de natureza, posto que meu ideal é perfazer nelas minhas façanhas, com que hei de ganhar perpétua fama em todo o mundo conhecido; e tal será, que hei de com elas pôr o “non plus ultra” a tudo quanto pode tornar perfeito e famoso um andante cavaleiro. Como Sancho tem o mais curto entendimento que nunca teve outro escudeiro, ele não reconhece que todas as coisas dos cavaleiros andantes parecem quimeras, tolices e destinos, quando, ao contrário, são puras realidades. E sabeis donde vem este desconcerto? Vem de andar sempre entre nós uma caterva de encantadores, que todas as nossas coisas invertem, e as transformam, segundo o gosto e a vontade que têm de nos favorecer ou destruir-nos. De minha parte, eu perdôo esse infeliz, porque sei que ele também é vítima desse encanto maligno!

 

CDL.: É verdade, senhor Cavaleiro da Triste Figura, que vossas primeiras aventuras, como narradas pelo fiel historiador, foram tão disparatadas que, para os amigos conseguirem fazê-lo retornar à  casa tiveram de enjaulá-lo como uma fera?

 

DQ.: Não só verdade, como dou-vos prova da ocorrência de tão inusitado fato, porque dormia eu bem à forra descansando das passadas refregas, quando figuras de fantasmas me amarraram os pés e as mãos, de tal modo que, ao despertar, não pude mexer nem fazer outra coisa senão admirar tão estranhos rostos e logo vi tratar-se de mais um encantamento que sofria e nada mais eu podia fazer. Meteram-me numa jaula pregada a paus com tanta força que se não arrancariam nem com fortes empuxões...

 

CDL.: ... e tu, Sancho Pança, o que achaste de teu amo ter sido tratado desse jeito?

 

SP.: Quer me queiram bem, quer me queiram mal pelo que disser, a verdade, Excelências, é que o senhor Dom Quixote estava tão encantado como minha mãe, que Deus a haja; ele gozava de seu perfeito juízo; comia e bebia, fazia todas as necessidades como os outros homens. No meu parco entendimento que não sou de grandes luzes, mas tudo não passou de um embuste do cura e do barbeiro de nosso lugar, que, juntos, tramaram levá-lo daquele modo, por pura inveja de o Cavaleiro praticar tão famosas façanhas...

 

CDL.: Tudo bem, Sancho, mas dize-nos uma coisa, parece que outros assuntos te preocupam mais que o encantamento ou desencantamento de teu amo e senhor, como, por exemplo, o sumiço dos cem escudos que achaste na serra Morena. O que fizeste dos escudos?

 

SP.: Desfizeram-se, se é isto que querem saber; gastei-os comigos, com minha mulher e meus filhos, e se querem mais saber de mim, aqui estou para responder ao próprio rei em pessoa; e ninguém tem nada com o eu ter trazido ou não trazido, gasto ou não gasto; se as pauladas que apnhei nessas viagens fossem pagas em dinheiro, que só fossem taxadas a quatro moedas cada, fiquem certos: não cobririam a metade, e metam a mão na consciência, e não troquem o preto pelo branco, e o branco pelo preto, pois cada qual é como Deus o fez, e muitas vezes ainda pior...

 

CDL.: Já que estamos falando de sumiço, só mais um esclarecimento, caro Sancho: como foi mesmo que teu jumento de estimação desapreceu e apareceu depois?

 

SP.: Essa pergunta me foi feita pelo senhor bacharel Sansão Carrasco, assim que meu amo retornou enjaulado à sua vivenda natal, tendo eu lhe satisfeito a curiosidade, contando toda a verdade como se deu e tudo isto acredito que o senhor historiador o haja assinalado nos seus fidedignos alfarrábios. Se dúvidas ainda restarem, que se lhas culpem ao deslize do próprio autor ou à impressão do livro.

 

 

FIM  DA PRIMEIRA PARTE DESSA SINGULARÍSSIMA ENTREVISTA

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