CAMINHO DAS LETRAS

"O que me incomoda não é o grito dos maus, e sim, o silêncio dos bons" (Martin Luther King)

                            

EDITORIAL                                                                                         Arquivos de Editorial
 

 

 

LIVRE   OU     CONTROLADA ?  –  EIS A

GRANDE QUESTÃO DA INTERNET HOJE

 

 

Parece inconcebível, nos dias correntes, que esse fenômeno, conhecido, reconhecido e até venerado pela maioria da população mundial, que constitui a Internet, deva ou venha, de algum modo, ser controlado. Ou seja, que, de repente, por motivos legais ou burocráticos, deixe de ser livre.

Pouca gente talvez saiba, mas o sistema de processamento de informação – embrião da Internet –  criado nos Estados Unidos pelos idos de fevereiro de 1955, chamado IPTO (Escritório de Tecnologia de Processamento de Informações) e que depois serviu de base para um sistema de proteção militar da Força Aérea Americana, na realidade nada tinha de livre, posto que a serviço do Pentágono. Só mais tarde, já por volta de 1973, é que, passando por uma série de reviravoltas burocráticas – e dizem – também por uma espécie de displicência, consciente ou inconsciente, dos militares, o certo é que, no ano seguinte cunhava-se o termo Internet, para designar sistema para o qual convergiam todos os protocolos vigentes numa única rede TCP/IP. A primeira rede a operar aconteceu no início de 1988, tendo, doravante,  crescido de maneira vertiginosa, graças à disponibilidades de rotas comerciais e empresariais e ao progresso extraordinário dos protocolos TCP/IP no sistema operacional UNIX. Pouco depois, em 1990 a CERN (Organização Européia para Investigação Nuclear) inventou a World Wide Web, ou Web, como hoje conhecemos, em sua primeira fase destinada a troca de informações entre cientistas, dai estendendo-se, inevitavelmente, para todos.

Portanto, a Internet nasceu como um projeto militar, mas que, por circunstâncias até mesmo aleatórias, transformou-se num sistema de processamento de informações e transferência de dados, não só de utilização inteiramente livre, mas de alcance planetário avassalador.

Hoje, com o avanço cada vez mais sofisticado da tecnologia computacional e do formidável impacto que o fenômeno Internet acarretou e vem acarretando à sociedade, mentes e indivíduos, com a formação sempre crescente das chamadas redes sociais (Facebook, MySpace, Orkut, Twitter, et allia), configura-se quase impossível conter o furacão em que se transformou a Internet, cujos resultados de sua passagem, à semelhança do fenômeno natural, são  devastadores, seja no sentido dos ganhos quanto das perdas.

Não constitui nenhum segredo os defeitos e vícios de que esse fenômeno é possuidor, basta verificar os perigos que rondam nossos computadores, dia e noite, desde os ataques de vírus, as falcatruas, até a prática de atos ilícitos, como a apologia ao crime e o estímulo ao tráfico de drogas, sem falar na divulgação lesiva de fotos pornográficas de menores, com o fomento à pedofilia.

Inobstante isso, nada justifica a pretensão de controlar suas atividades, mesmo com a desculpa de escoimar-lhe os inúmeros defeitos.  Na realidade, salta aos olhos os benefícios  que a Internet propicia, tanto quanto os decorrentes das criações mais recentes, verdadeiras maravilhas da inventiva humana, como o avião, a telefonia, o rádio,  o cinema, o radar, a televisão, o computador, a tecnologia laser,  a nanotecnologia, o celular,  e as últimas parafernálias vinculadas a esse instrumento.  Todas essas criações de tecnologia de ponta, como sabemos,  não são imunes a defeitos, suscetíveis, pois de produzir resultados, muitas vezes até lesivos.

O de que precisamos em se falando de Internet, antes do arbítrio   de querer amordaçá-la, é imbuir o espírito do usuário –  preenchendo-lhe os miolos – com regras e comportamentos éticos, o que corresponde nimiamente a se dizer que o que falta mesmo no ser humano é cultura e educação.

CDL/BSB, 8.04.12

 


 

 

 

 

O HOMO IMMORTALIS – MITO OU ANOMALIA

TECNOLÓGICA      DA       IMORTALIDADE?

 

 

Os seres humanos contemporâneos têm se tornado epígonos de uma ideologia cada vez mais avassaladora em termos de futuro: a de que o homem viverá eternamente. É o mito redivivo da imortalidade.

Aliás, desde os tempos imemoriais que essa utopia tem se difundido, tanto no Oriente quanto no Ocidente. Platão e Aristóteles especularam sobre a imortalidade da alma, como objeto de suas doutrinas filosóficas. Assim como o fizeram Espinosa, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, mas sob o aspecto metafísico, ou seja, de que o ser humano como elemento fundamental da criação, por sua natureza, teria de ser incorruptível, portanto, imortal.

Ocorre que não é neste plano que os mais recentes tecnólogos se apegam. É o que nos informa a edição nº. 2207, de 29.02.12, da revista IstoÉ, ao estampar reportagem intitulada A Caminho da Imortalidade. Os mais ousados tecnocratas que se dizem na vanguarda das pesquisas nos campos da ciência da computação, geriatria, gerontologia, biologia e biotecnologia —  George Church, da Universidade Harvard, Aubreu de Grey  e Raymond Kurzweill, do MIT, elegeram-se, por si mesmos, os gurus da situação, e pasmem, criaram um novo ramo da filosofia, por eles batizado de Singularidade. E esses supostos proprietários da verdade já definiram os campos de atuação de sua novel metodologia. Enquantosingularidade na astronomia significa um lugar no espaço onde um corpo não envelhece, a nova ciência desses arautos da imortalidade, por uma espécie de analogia eufemística,   “nada mais é do que uma consequência real de uma revolução em curso que já faz disparar em velocidade sem precedentes a expectativa de vida humana” — alardeia a reportagem.

Se o ser humano tem por objetivo viver eternamente, como apregoam os partidários dessa ideologia, o que não está absolutamente em pauta em toda a parafernália tecnológica dos procedimentos adotáveis, no campo da prática médica e restaurativa, é quais as consequências decorrentes desse fato. Se o ser humano é recuperável em todos os seus órgãos, peças de uma máquina, como esse novo ser, digamos, maquínico, ou transformado, agirá? Como procederá sua consciência, ou em termos filosóficos-espirituais, o que acontecerá com seu ser em si, o centro de sua individualidade? Se, como chegam a propugnar esses futurólogos tecnicista, que o homem poderá viver até mil anos, desde que inteiramente remasteurizadas todas as suas partes orgânicas, certamente peças de substituição artificialmente substituíveis,  como evitar os terríveis conflitos geracionais decorrentes? Como designá-los, seres humanos ou máquinas, seres de carne e osso, robôs ou androides?

A nossa impressão, sobre essa reportagem é que a Istoé, na esteira de outras alvíssaras fantasiosas da mídia,  pretendeu, para fins comerciais, relançar o mito do Homo Immortalis, como fora o de Pégasus, ao lado de outros que a moderna tecnologia vem se apropriando, que nada diferem das lendas anacrônicas do passado, geradas por cientistasdetraqués, cujas teorias, na verdade franquenstenianas, pecam por absoluta inconsistência. É mais uma evidência de que  por mais avançada que se proponha ser, a ciência não pode alcançar foros de validade, sem que suas proposituras não se fundamentem nos postulados lógicos da filosofia, da ética, do bom senso  e da moral. A não ser que se trate de fantasias esquizofrênicas, que, diga-se de passagem, o mundo está cheio delas, inclusive sofrido suas funestas e aterradoras consequências — leiam-se, as abomináveis ideologias maquinadas por Stalin,Hitler e seus imitadores mais modernos.  

CDL/BSB, 2.03.12

 


OSCAR 2012, POR UMA APRESENTAÇÃO ADEQUADA A NOSSOS TEMPO E ÉPOCA

 

         E is mais uma edição da famosa – agora nem tanto – entrega do Oscar, versão 2012, na Meca do Cinema. O formato é o mesmo, as apresentações dentro do perfil hollywoodiano, tudo oferecido em pacote, previamente conhecido. Nada de novo no front, diríamos sem medo de errar, na cerimônia que se propõe atingir em massa o globo. Certamente o show será apresentado por um humorista ad hoc, desde que Bob Hope o fez ano após ano, numa sequência fastidiosa de anedotas de gosto duvidoso, porque inodoras e totalmente desprovida de humor. Noutras apresentações, outros seguiram a mesma linha.

                            O show business até que se esforça por fantasiar o evento, auxilia-o a parafernália tecnológica, cantores e cantoras da chamada top music jorram as canções da moda, com suas estridentes vozes, explorando o vocabulário psicodélico das músicas pop, rock pauleira, e outros quejandos, tão ao gosto e paladar indefinidos do populacho.

                            Enquanto isso, em boca de cena, atores, atrizes, cineastas e toda a casta que habita o suposto mundo encantado do cinema, rodopiam. Antes, pelas passarelas em exibição exibicionista, com mulheres enfiadas em vestido os mais exóticos possíveis, algumas apelando à seminudez, outras, não menos ousadas, ao chamado decote profundo nos respectivos modelos ditados pelo último grito em moda vindo da criatividade da elite figurinista. No desfile, essa ou aquela, indicada à obtenção do prêmio, exibirá as joias, quase sempre emprestadas, com as quais fará cintilar seus encantos e dotes físicos pessoais, nos braços, colos, pescoços e pernas, demonstrando cada qual sexy appeal, charme, beleza, irresistível, embora por vezes resvalem para a vulgaridade.

                            Por fim, a assembleia sensivelmente enfadada da mesmice, do mise-en-cene ao repertório tecnológico, dar-se-á a entrega propriamente dita dos agraciados no ano, os filmes indicados revistos em flashes em telão, enquanto um  casal de apresentadores abre o envelope, retira a papeleta e diz o refrão mágico: “...And the winner is”o vencedor é... e o filme é nomeado. Eis, por sinal,  a parte mais patética, pueril e totalmente inacreditável que ocorra num festival de premiação cinematográfica ou em qualquer graduação que se preze – o agradecimento do premiado. “Alo, Mamãe, Papai, dedico a vocês este prêmio...” Ou estes mais prosaicos: “Aos meus amigos, fulano e beltrano, que me ajudaram...” A meus pais e avós, que me deram carinho e me trouxeram ao mundo do cinema...”

Já houve caso de o afortunado prorromper em convulsivo choro!

No mérito, quase sempre o Oscar não passa de um atestado compensatório de arrecadação de bilheteria ou para atender determinado grupo de interesses, econômicos, sociais ou políticos. Charles Chaplin, durante toda sua fantástica performance cinematográfica, só lhe foi concedido o melancólico Oscar de reconhecimento de sua obra, já idoso e afastado muitos anos de Hollywood. Wood Allen tem se recusado sistematicamente de receber esse prêmio, certamente  em protesto velado à máquina burocrática hollywoodiana, com suas produções,  ética e esteticamente massificadas.  

Pensamos que a entrega do Oscar, ao invés de impor esse padrão falido de que a Meca do Cinema tem se valido, ano após ano, feito de exibicionismos e aparatos estapafúrdios, devia mudar de formato e apresentação. Quem sabe em lugar desse   show de mérito e aceitação previsíveis, Hollywood apelasse para o senso popular e o cinéfilo comum pudesse eleger o filme que ganhou sua preferência, num certame livre e democrático?

CDL/BSB, 17.02.12


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