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"QUANDO ENVELHECEMOS A BELEZA SE CONVERTE EM QUALIDADE INTERIOR" (RALPH WALDO EMERSON)

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JANELAS PARA O MUNDO MODERNO

 

                                    * Maria Scott Muniz

Pela janela entra o ar e a luz dentro da casa. Luz do sol, que se renova a cada dia. Nas artes, a janela é considerada símbolo da consciência, ou portal do inconsciente. Vermeer – pintor holandês do século 17 - coloca janelas em seus quadros: abertas, semi-abertas, fechadas, significando o nível de abertura para as influências externas. E quando elas não se encontram dentro da cena, subentende-se que estejam apenas fora da nossa visão, ou que a personagem está fechada para a sensibilidade que não seja dela própria, alma imatura, que ainda não entrou em contato efetivo com o mundo.

No cotidiano dizemos que os olhos são as janelas da alma. Às vezes, surge um inseto na vidraça da janela, o que acontece no texto de Kafka. Ainda em Vermeer, vemos na vidraça de um de seus quadros o reflexo do medo da moça que lê um panfleto em frente à janela aberta. Péssima abertura ao mundo exterior, quando se toma consciência de algo através do texto vulgar, impróprio, até mesmo cruel, que costumava correr de mão em mão. O que hoje se faz pelainternet, no facebook, no twitter, para comunicação on lineentre as pessoas, para mobilizá-las, quando menos para que elas saiam do seu mundo fechado, venham interagir com os outros, o que é típico da modernidade, e tem seus perigos.

 

Influências todos recebem, queiram ou não. Como seres inteligentes e receptivos, absorvemos conhecimento e vivenciamos experiências, que nos capacitam a discernir as coisas. Temos, inclusive, experiências intuitivas, que seriam reais, ou apenas fruto da nossa imaginação. A capacidade para ver e sentir nos difere dos outros animais. Por conta disso sorrimos e choramos. E se elegemos a razão como a única fonte de conhecimento, o que nos fala nossa racionalidade? Até que ponto a irracionalidade nos excita? Com razão aqui, sem razão acolá, vamos levando a vida. Temos que viver, e nem sempre sentimos que estamos vivos, apenas vivemos, mesmo intensamente.

 

A percepção humana ultrapassa os cinco sentidos: tato, olfato, paladar, visão, audição,  com mais o sexto sentido, do que ninguém duvida. A alma expande o sentir que a imaginação tenta alcançar, só em parte. Ou então é a mente que se expande e alcança o mais elevado nível de percepção, racional ou não. No passado, os eruditos mantinham os assuntos que tratavam entre si distantes da maioria. Os livros impressos, exclusividade do mundo fechado da erudição, talvez para as pessoas comuns não perderem a inocência, a fé.

 

A moderna racionalidade provoca descrença, quando não, causa fratura nas crenças religiosas.  Grandes nomes das artes fazem críticas à razão,   que não passaria de impostura para iludir. Os desesperados Dostoievski e Kafka profetizam que a modernidade é um horror, uma orfandade, que o conhecimento e as técnicas modernas são uma tragédia, quando então se deixa de sentir a vida em profundidade. Acontece que, no mínimo, a modernidade é um drama, uma comédia de erros, uma farsa. Pragmática, ela sofre tal afronta por pensar o mundo em termos de felicidade possível, enquanto fecha os olhos para certas profundezas, essas sim, uma  tragédia. Ver as coisas com olhar de tragédia é coisa do passado. O mundo moderno deliciado com seu drama, sua comédia. Ou sua grande farsa, onde não há desonra em se preencher o vazio dos sentimentos com o arsenal de guerra que a modernidade tem para nos oferecer.

 

Se a consciência negativa vigora aqui e ali é por se achar que a moderna racionalidade não tem feito o que é devido fazer. Desde o início, desde sempre, soubemos que o “novo mundo”, que se abria aos anseios humanos, tinha seus perigos, mas era necessário que assim fosse. O reformista Vermeer  em seus quadros, por exemplo, saúda a ciência e tecnologia, o progresso, em suma, para combater os males, inclusive do vazio existencial, iluminar as obscuridades. O pessimismo também é importante para não se confiar muito no que se pensa e sente. Sem deixar de estar atento ao que se faz e se diz por aí, que beira o absurdo.



* Nossa colaboradora

CDL/BSB, 30.12.11

 

 


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