CAMINHO DAS LETRAS

"De Salomão a Pitágoras: Que é que é? Aquilo que foi. Que é que foi? Aquilo que é. Nada de novo existe na terra." (Giordano Bruno)  


NOVO ESPAÇO

 

UM OUTRO MUNDO POSSÍVEL

 

                                                      * Maria Scott Muniz

 

No século XVII Leibniz dava sua palavra que se vivia no melhor dos mundos possíveis Início dos novos tempos, de considerável progresso humano, que correspondia ao moderno despertar para a ciência e  tecnologia. Quando se esgota um mundo, e a situação pede mudanças, é certo que elas ocorram. Parte-se para outro mundo possível. Mudar é sempre possível, para que a civilização permaneça com novo viço, ou então tudo vai por água abaixo. Não deixar que chegue ao ponto do dilúvio universal, o que decorre de certas calamidades e, atualmente, a da corrupção é a que mais pesa no mundo. O dinheiro avançou seus limites, tomou conta de tudo, corrompeu as pessoas, parece estar levando tudo por água abaixo, literalmente. As coisas indo de mal a pior na rica Europa, em meio a uma grave crise financeira.

 

Diante do que ocorre nos países do euro, nós aqui vamos bem, obrigado, com o nosso real. Na pátria amada, salve, salve,  nos vangloriamos de estar ilesos aos perigos de um caos financeiro. Será mesmo?  Todavia, a corrupção salta aos olhos, cada dia novos fatos surgem nesse sentido, que os políticos adeptos da roubalheira tentam abafar. Lá fora, contínuas revoltas espocam aqui e ali, dando mostra que há reação, pessoas que a princípio não querem perder privilégios, o que dizem. Na realidade, trabalhadores que defendem ações mais efetivas no controle das finanças. Todos os países vítimas de péssimas administrações, da ladroagem generalizada. O desencanto que de longa data assola a juventude faz com que os jovens percam de vez a esperança de ver seus sonhos realizados, mesmo no melhor dos mundos, mas de repente ficam sabendo que estão mergulhados no pior deles. O mundo perdido no redemoinho dos fatos, na loucura dos números negativos. Faltou lealdade aos bons princípios, honradez aos compromissos assumidos, trabalho honesto. Só nos restaria abandonar o orgulho pessoal e nos odiar pela covardia, ou então desprezar o  mundo moderno e sua cultura, que aceita entre outros males traidores e ladrões no poder.  Isso tem que acabar.
 

Ninguém mais quer ser ignorado nos seus direitos como cidadão, muito menos ser espezinhado, explorado. Revoltante é se assistir de braços cruzados os extremo da ganância e arrogância dos dirigentes dos bancos, dos poderosos que se tornaram donos do dinheiro e, consequentemente, donos do mundo. Na Wall Street é justamente onde tudo tem início e onde deve terminar, e bem, o que não é impossível. Assim como não é impossível mudar de rumo. A essa altura, pelo que está acontecendo nos países ricos, se deve repensar e muito, as coisas aqui, e se chegar ao consenso sobre a lisura no trato com o dinheiro, valor que na verdade move o mundo nos tempos modernos. Todos, desde os mais comuns, dependem da ciranda financeira, que deve girar em respeito aos direitos dos cidadãos, ou então a coisa vai ficar feia de verdade, a indignação já começou, e pode piorar, mesmo porque há os baderneiros de plantão, infiltrados, pois há quem pense que  quanto pior melhor.

 

O importante é não esmorecer e ser perseverante na indignação para a tomada de consciência de que não se deve jogar o destino de todo mundo no vendaval das incompetências, das más intenções. O dinheiro público a ser respeitado, assim como o privado, que deve se adaptar às regras da decência e deixe de corromper. A Europa recebe um sopro de ânimo. Vindo de onde? Quem diria! Da China burocrática e comunista, onde os corruptos são punidos com a pena de morte. A Europa capitalista, como todo o Ocidente, pode corrigir as coisas, adequar suas finanças à realidade. As nações mais ricas, como a Alemanha, com fama de povo inteligente, mas que desde sempre trabalha duro, e a sofisticada França, criadora da moda, emprestem dinheiro para salvar  as que achavam poder gastar sem o respectivo respaldo.  Todos com o dever a se adequar, pois ninguém sozinho quer pagar a conta.

* Nossa colaboradora
CDL/BSB, 31.12.11

 


 

DE HERÓIS E VILÕES

 

* Maria Scott Muniz

Abraão Lincoln fez uma carta ao professor de seu filho  para que o fizesse entender que nem todos os homens são justos, nem todos verdadeiros, mas que para cada vilão havia um herói, para cada egoísta, um líder dedicado. Saber que sempre existe alguém pronto para levar o barco adiante, que não se acovarda, não entrega os pontos, nem foge ao primeiro desafio, é um consolo. O presidente americano foi o herói e líder carismático que governou a nação quando ela estava mergulhada numa sangrenta guerra civil, quase a dividir o país. No caso o vilão seria o rico e escravocrata Sul. Já o herói era o Norte, ou o próprio Lincoln, que se batia contra a escravidão.

 

 Sabemos, todavia, que num país civilizado, moderno, não há necessidade de heroísmo, e sim de pessoas aptas para comandar o país, para  fazê-lo andar com a segurança necessária, e se possa acreditar no chão em que se pisa, e nele todos tenham condições para progredir. Assim acontece com as famílias. Se dentro do lar houver colaboração, se as pessoas procedem de modo correto, com respeito entre seus membros, no justo desejo de cada um evoluir, e deixar que o outro evolua, todos se sentirão bem em seu seio. Sem egoísmos, nem heroísmos, as coisas irão correr em paz, não resta dúvida. Difícil que assim aconteça, porque haverá sempre um, ou vários vilões, no meio  da história.

 

Quando se fala em heróis, pensa-se logo em guerra, em disputa por espaço, na conquista ou defesa própria e de outros, muitas vezes por ambições nem sempre justas. Quando se fala em heroísmo pensa-se, principalmente, no seu oposto a covardia. Nesse sentido, quem não conta com um herói para combater o vilão real ou imaginário - rodeado que se pode estar de pessoas egoístas que só pensam em si, e mal -, o melhor que se faz é recorrer à defesa pessoal, acessar armas mais eficazes contra um suposto inimigo, que pode estar dentro da própria pessoa, ou bem perto da gente, em suma. Tirar o time de campo, cantar noutra freguesia, se safar, é outra estratégia, nem sempre bem sucedida, pois o vilão vai estar onde quer que se esteja.

 

Na Segunda Guerra mundial “nunca tantos contaram com tão poucos”, foi o que falou Churchill, o grande herói inglês, líder da heróica Inglaterra, contra o maior vilão da história que foi Hitler e a Alemanha nazista, nação laboriosa e de extraordinários valores espirituais e da inteligência, mas foi capaz da maior desumanidade. A América do Norte hoje em dia quer ser a grande nação heróica, sendo ela a vítima maior da grande vilania da atualidade, que é o terrorismo. O que fazer com a vilania no mundo? Reagir, resistir, desmascarar. A corrupção, por exemplo, anda solta nos quatro cantos, e com a maior cara de pau. Mas a vilã corrupção tem cara, os corruptos são bem conhecidos. Quem se candidata a herói? Nesse caso são os heróis da comunicação, todas as pessoas de bem, que não se acomodam, e podem, inclusive,  contar com o a internet para divulgar os fatos e feitos dos vilãos de plantão para serem  desmascarados.  A heróica Internet, cuja tecnologia é posta a serviço do combate à corrupção, vilania de algumas mentes que arquitetam o mal.

 

* Nossa colaboradora

 CDL/BSB, 01.01.12

 


VALOR DO ENSINO

* Maria Scott Muniz

Talvez não haja outro país em que o ensino seja tão desvalorizado quanto no Brasil. Mal pagos  os professores melhor qualificados se afastam da profissão em direção a outras áreas mais bem remuneradas e prestigiadas. A educação assim piora a cada dia, essa é a realidade brasileira; quanto maior a ignorância melhor para todos, o que se pensa por aqui. Porque isso? Tentarei explicar. Um casal de professores recebeu pala internet um texto estrambótico de um advogado, por incrível que pareça, pois, entre outras bobagens, ele acusa o conhecimento excessivo do professor, coisa sem proveito para a vida e que por conta disso “receberia apenas triunfos mundanos para seu deleite de aspirações inconsequentes (falsas, efêmeras)”. E disse mais, que “ao aprendiz pelo aprendizado bem aproveitado seria dado crédito das recompensas do Alto, o mérito do professor termina com ao aprendizado do aluno”. Uma pessoa que quer se passar por ignorante, só pode ser!

 

Há tempos venho percebendo que ensinar, atividade da maior utilidade pública, não é vista  com bons olhos. O professor chega mesmo a ser odiado. Acontece num país onde a maioria é de analfabetos, ou semi-analfabetos. Ninguém quer aprender nada, alguns sentem até raiva daquele coitado designado para lhe ensinar. Observa-se no convívio com as empregadas domésticas, por exemplo, que elas não querem aprender, nem mesmo o básico. Quanto aos alunos, filhos dessas mesmas empregadas, ou pessoas afins, quando concluem a escola, se tal acontece, pouco é seu cabedal de conhecimento. Ou então se se dão bem no aprendizado, e chegam à faculdade, passam a se achar o máximo do máximo. E ninguém ouse chegar aos pés desses filhinhos mimados.

 

Acontece a fuga das salas de aula, tanto de alunos quanto de professores, pela falta de comprometimento com o saber, com a sociedade, com a vida.  A ignorância estimula a arrogância que grassa por toda parte, ignorância generalizada, e também a falta de respeito. O resultado são os políticos corruptos, por exemplo, que não respeitam os eleitores, não fazem coisa alguma de real proveito para a sociedade e ainda afanam o dinheiro público.

 

Quanto ao professor, por seu conhecimento, seu saber, sua vivência extraordinária nas salas de aula das escolas, das faculdades, todo poder e toda glória, como acontece em outras áreas da vida profissional. Lembro de minha mãe, um bom exemplo da dignidade de uma real vocação, tanto para aprender quanto para ensinar. Como funcionária pública e professora ela se esmerou com os filhos, além de dar  rumo na vida de outras pessoas que tiveram a felicidade de passar por sua batuta de mestre no ensino e na educação. Há, todavia, os que desprezam tais atitudes. Difícil mesmo é fazer o bem.

 

Já dizia minha avó que a ingratidão é um sentimento muito negativo para a alma, e que devíamos agradecer sempre, até pelo ar que respiramos.  E também pedir perdão por práticas abusivas, por experiências negativas, pelo brilho que ofusca a verdade, pelo abuso de poder sobre os outros seres, principalmente os semelhantes. A ignorância atravanca, sim, o progresso. Os ignorantes que façam bom ou mau proveito da sua estultícia, mas deixem de achincalhar o saber, que tem como alicerce a razão e a ética.

  

* Poeta, escritora e pesquisador, colabora no nosso site
CDL/BSB, 22.12.11
 
 


IENA, URUBUS, COBRAS, E OUTRAS METÁFORAS

                   * *Maria Scott Muniz

Um pobre pai desesperado, de certa feita, acusou as filhas de iena e urubus. O nosso mundo é mesmo uma espécie de zoológico, tais comparações não deixam de ter alguma pertinência. No caso, trata-se de um escritor modernista, cuja imaginação o levou a proferir cruéis sentenças de acusação. Mas não contra a burguesia e, sim, contra a prole que ele dizia, simplesmente, ter posto no mundo. Precavia-se, o pai dele também vítima de cobras venenosas, pensava. Mulheres com vida confortável, mas sempre achando pouco, querendo mais e mais, mesmo que o provedor não lhes deixasse faltar nada, suas necessidades supridas, e mesmo extravagâncias. Em Shakespeare se pode medir essa tragédia, na peça Rei Lear, em que o rei foi traído por duas filhas ingratas, que o destitui do trono para dele se apossar. As narrativas do bardo inglês versando sobre os fatos e feitos de reis e rainhas e outros poderes políticos, na era medieval, o que nos tempos atuais parece absurdo, mas não é.  

 

Jane Austen, conterrânea do bardo, em seus romances sobre a sociedade inglesa do século XVIII, acompanhou de longe a revolução Francesa e o poder de Napoleão que dominava parte do mundo em nome da França, acontecimentos que iam passar. A escritora preferia escrever sobre o que via e sentia de perto na sua pequena cidade natal, o outro lado da moeda. Não seria para fugir da realidade que ela escrevia, ao contrário, o foco de suas histórias é direcionado para as pessoas e seus anseios, algumas jovens inexperientes, que agem sem refletir, mas também capazes de aprender com a razão, senão com os próprios erros. Tal qual acontece no mundo contemporâneo, que sofre com a modernidade selvagem que se iguala às primitivas civilizações guerreira, supersticiosas, mas que não deixa de ser desafiada pela racionalidade e experiência.

 

Ao poder masculino, aristocrático, em Shakespeare, contrapõem-se as aspirações da razão e sensibilidade femininas em Jane Austen, uma autora de grande humanidade, no exercício primoroso da literatura, por onde nos faz conhecer o que acontece nas relações sociais de seu tempo: entre pais e filhos, principalmente filhas, e através deles se pode perceber a complexidade dos sentimentos, dos caráteres, que devem ser moldados, controlados, o que é típico da burguesia. Não adianta as rebeldias, pois, o que mais se almeja na vida moderna é a felicidade pessoal em harmonia com e vida familiar e social. A autora de Orgulho e preconceito obriga a pensar, a refletir, mesmo que alguns achem que a escritora foi apenas uma professorinha de visão antiquada das relações humanas. Sim, ela pode ser antiquada, mas o quanto de modernidade está embutido nos seus livros sobre os sentimentos, os desejos, eternos e universais.  

 

O ser humano não mudou tanto assim nos últimos tempos, mesmo séculos, embora a massificação atual tenha querido mudar muita coisa, com as relações e propagandas pessoais a pleno vapor na internet e noutros veículos de comunicação. O “eu” elevado às alturas, e o querer pessoal é o que tem valor, mais que qualquer conceito, ou ensinamento. Ler Jane Austen, aprender com ela a lidar com os sentimentos, pode fazer muito bem aos jovens nos dias de hoje, para que tenham atitudes compatíveis com a vida pessoal, que deve ser vivida com leveza e graça, tendo em vista a responsabilidade e respeitabilidade diante da sociedade. A razão que sempre triunfa, sendo o raciocínio o companheiro e melhor amigo de todas as horas, capaz de mostrar o caminho, de dizer o que se tem de fazer, ou não, pois muita coisa deve ser descartada. Aprender a discernir o que é certo e errado, através do aprendizado, da reflexão, quando então a pessoa passa a sentir corretamente, inclusive, a não julgar por ignorância, preconceito, mesmo inveja. Em Jane Austen, os personagens Marianne, Mary, Elizabeth, entre tantas, são exemplares. Assim também as irmãs Match: Meg, May, e Josefine, da americana Luiza May Alcott.  

 

Boas leituras, como as das escritoras citadas, poderiam talvez evitar que jovens se transformassem em ienas, urubus e cobras venenosas, pois seriam advertidas sobre seus sentimentos inferiores, para domá-los, e passar a alimentar na alma o bem, que deve ser valorizado acima do mal, de tudo. Vale também para os pais a leitura de bons autores para que aprendam a refletir, e assim possam melhor educar seus rebentos, esses inocentes bichinhos, que podem se transformar nos entes feios e peçonhentos, metáfora para a falta de educação, de respeito, e consequentemente, a maldade. Jane descreve a mocidade do seu tempo, não com essa carga de pessimismo de um pai atormentado - no caso dela, tia atormentada - mas, como o mesmo entusiasmo e o intuito de Vermeer, o pintor holandês do século shakespeariano, que pintou mulheres na flor da idade e mais jovens, fazendo propaganda dessas individualidades, que afloravam cheias de vaidade e ambição, no caso do pintor holandês, ou com muito amor no coração, em Jane Austen, o que vale a pena conferir.
  

* Poeta, escritora e pesquisador, colabora no nosso site
CDL/BSB, 17.11.11
 
 


O MALIGNO E O OBSESSIVO NAS LETRAS

                   * *Maria Scott Muniz

 

Os poetas vanguardistas Charles Baudelaire, Paul Verlaine, Paul Valéry, Arthur Rimbaud, chamados malditos, têm seguidores hoje, cujas letras se caracterizam por explorar o mal. Os malditos modernos escrevem aos borbotões, e chegam a causar revolta aos que têm o desprazer de entrar em contato com tal literatura. É um martírio ler as obsessões desses autores, às vezes, com muitos livros no currículo, mas sem ter aprendido a pensar, muito menos a ter discernimento. Chega a ser revoltante, mesmo, ver talentos para a escrita, ou para as artes em geral, apelarem para ardis que só lhe diminuem o estro. Minha amiga Celene dizia que diante de tanta loucura, tinha vontade de ser fã de Paulo Coelho, por exemplo, ou dos livros de auto ajuda, que podem entediar os intelectuais, mas dá alento para grande número de almas sedentas de esperança para suas vidas.

 

Celene conhecia de perto um autor assim, leu alguns de seus livros, que parecia ser de alguém que hibernava numa infância tosca, ou que teria vendido sua alma ao diabo. Minha amiga achava que Macabeu se submetia ao inferno interior, numa espécie de martírio psicológico, em troca do sucesso almejado. “Seu ritmo de desamor e de humilhação, é de tal magnitude que podia ser comparar ao odiado marquês de Sade, que se vangloriava de ter causado um caos de proporções tamanha, uma perturbação tão formal, que até mesmo depois de sua morte os efeitos ainda seriam sentidos”. Minha amiga intelectual estava pelos arames com o premiado escritor, que escrevia mesmo era um réquiem para seus sonhos de juventude, concluía.

Quando afinal li Macabeu, achei que ele era, mesmo, um escritor onde não se encontra qualquer resquício de esperança para a miséria humana, pelo contrário, instiga a desesperança nos corações. Susan Niemen, no livro O Mal No Pensamento Moderno, cita Sade ao afirmar que “o crime moral é o que se comete escrevendo”. A autora comenta que, ao ler um texto sadiano, se tem a sensação de que a imaginação é condenável. Também o que acontece com Macabeu, perdido em seus absurdos. Em se tratando de Sade, Neiman acha que se devia esquecer Horkenheimer e Adorno, na idéia de que “só o exagerado é verdadeiro”. Também, esquecer Saramago, pois acho que o Nobel não tem nada a ver com o sádico autor brasileiro, como aventou um raro fã. Ainda segundo Niemen, Simone de Beauvoir tinha a sensação, diante dos obsessivos discursos de Sade, de ter desgraçadamente caído nas mãos de um dos piores vilões, tanto era o ódio que ele demonstrava ter por si mesmo, e para com os outros, a ponto de merecer “repressão”, “desmascaramento” para sua literatura. Niemen também cita Rousseau, que fala da existência de um momento específico para a ruína da humanidade, sua queda, assim como das pessoas individualmente.

Há os iluminados e os sombrios; uns com seu momento de iluminação, outros perdidos na escuridão, principalmente quando se é levado pelo sonho ou ambição - menor, diga-se - de se dar bem a qualquer custo. “Não o mal e, sim, o bem é que deve ser retratado com profundidade e dimensão, e se manter o anseio pelo sublime para quebrar o efeito do mal, a ser evitado de todo modo, inclusive apelando-se para a solução religiosa”, é o que diz Hanna Arendt, outra grande escritora e filósofa, citada por Niemen. Mas cuidado, alerta Nieman, os malvados também usam desse artifício. Atribuir grandeza ao mal é atitude pueril e perigosa, a tal “grandeza satânica” dos vanguardistas, que possuem uma literatura de peso, não resta dúvida, quanto a isso. Mas o horror em substituição da transcendência é um erro fatal, para quem escreve e para quem lê tais coisas.

Segundo minha amiga, Macabeu no início parecia inovar alguma coisa em termos de literatura, e ganhava concursos, fácil, fácil. Foi sua hora anterior, logo depois o caos, o limbo. Desde o início já mostrava claramente sua mentira, seu mortal ressentimento. Escrevia com a fúria de um assassino. Não conseguia transcender a própria realidade em prol de algo melhor. O assunto corno era sua fixação literária, gêmeo de bastardo. Também o assunto morte, de um modo torto, como um ser ingrato que atentasse contra a vida que Deus - eterno e incansável - lhe dera. Certos escritores e artistas, ao invés de usar bem os dons que recebem como seres aquinhoados, deixam-se levar pelo mal, suas mentes a vagarem nos subterrâneos da torpe imaginação, conclusão a que chegamos sobre Macabeu e todos de sua estirpe.

* Poeta, escritora e pesquisador, colabora no nosso site
CDL/BSB, 19.10.11

 

 


 

 

 

 

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