CRÔNICA/HOMENAGEM
SÃO LUIS : QUATROCENTOS ANOS DA CIDADE DOS AZULEJOS
Há quase 400 anos sob os auspícios de Luís XIII, rei de França, os franceses Daniel de La Touche, Senhor de La Ravadière, Charles de Vaux e François de Razilly, associados ao riquíssimo Nicolas de Harlay, Barão de Sancy e Conselheiro do Rei, tomaram a si a fantástica empresa de conquistar as prolíferas terras do Maranhão, até então esquecidas pelos sonolentos colonizadores portugueses. Organizado o empreendimento, a que se incorporavam compromissos financeiros e honoríficos, a expedição composta de 500 homens em três navios, zarpou de Cancale, porto da Bretanha.
Após tormentosos cento e dezesseis dias de viagem cruzando o Mar Tenebroso, a 26.07.1612, aportaram a terras maranhenses. O lugar onde fundearam as naus chamava-se Upaon-mirim, habitava-o os índios Tupinambás. Doze léguas adiante, ficava Upaon-Açu, outra localidade aborígene. Por fim, a esquadra aportou definitivamente em Jeviré, entre as atuais pontas da Areia e S.Francisco.
Nativos e exploradores devidamente confraternizados, graças aos benfazejos atos preparatórios de aventureiros que já viviam na ilha, a 8.09.1612, a novel colônia foi solenemente fundada. Sacramentado o ato de fundação, com a presença inclusive da mais significativa realeza nativa, Jui, filho do morubixaba Japiaçu e Patuá, neto do cacique Marcoiá Peró, batizou-se a cidade com nome de São Luis, em homenagem ao rei menino Luis XIII, de França e Navarra. Ao ancoradouro, Port de Sainte Marie, em honra da Virgem Senhora e da Rainha-mãe, Maria de Medicis.
Assim, em termos exploratórios, fundava-se a França Equinocial, continuação do empreendimento da França Antártica, iniciado em 1555 por Villegaignon, no Rio de Janeiro.
O local exato onde se deu o extraordinário evento hoje abriga o Palácio La Ravardière, sede municipal do governo e seu testemunho material o busto em bronze de seu fundador, à frente do prédio.
Abrindo em leque, descortina-se a as abas movimentadas da avenida Pedro II, de onde, na linha do horizonte, se avista o antigo porto da cidade, hoje definitivamente descartado por inútil.
Por feliz coincidência, eis que hoje mesmo a cidade São Luis celebra seu 399º aniversário, sabe-se lá em que brancas nuvens não se envolva o evento, o abismo e o vácuo do olvido sempre a obdublarem a memória de nossa herança histórica e sentimental.
Daqui a um ano, se o ludovicence não aguçar a memória, a cidade batizada com o nome do Rei de França, último suspiro exploratório do espírito aventuresco francês do século XVII, atingirá seu quarto centenário, equiparando-se secularmente a São Paulo, Rio de Janeiro e Natal, que já se consagrou quatrocentona.
Não há negar, nesses tempos, novos tempos de tantos ardores e esplendores, cujo suposto fausto se esfuma nos vilipêndios do restolho consumista e do tumulto tecnológico, oxalá possamos perder um minuto de nossa azáfama cotidiana para celebrar esse acontecimento. Não todos os brasileiros, cada qual orgulhoso de seu rincão, como o fazem tão bem os gaúchos, os paulistas, os mineiros e quejandos, gregos e troianos desta velha terra de Santa Cruz.
Apelo aos maranhenses, aos descendentes da Ilha Rebelde, que outrora se revestiram tanto da resistência política, àqueles que ainda mantém consigo, aceso, o lume da esperança, que se empavonam – com razão sem dúvida – do brilho de seu passado, de haverem exercido o bom combate, a teor gonçalvino dos Tamoios, àqueles cuja coragem não se esmaece diante da tortura infame, um Bequimão antes do enforcamento gritando “Morro pelo povo do Maranhão!”. Apelo, sim, pela história alegórica e realística do Maranhão, à conta não dos réprobos e dos inúmeros infortúnios recebidos, o torrão devassado, sombras enevoando os altiplanos de uma esquecida e ultrajada Atenas, arrebatada aos trópicos.
Apelo, sim, para os tribunais da mais ínclita razão, para fomentar em todos o direito e o dever que todo maranhense terá e tem de celebrar o quarto centenário de seu solo natal. Com brios e equivalência necessários, não por nossos méritos, mas pelos que nos legaram aqueles nossos ancestrais imbuídos de dignidade e justiça, oratória e esplendor literário, como jamais houve, seja a pena inigualável de um Humberto de Campos, Arthur e Aloisio Azevedo, a poética nativista de Gonçalves Dias, a retórica jornalística de João Francisco Lisboa e Sotero dos Reis, a erudição latina de Odorico Mendes, o vanguardismo de Souzândrade, sem nos esquecer daqueles que, fugitivo de suas próprias plagas, fizeram o lume de suas estrelas pessoais cintilarem para além das fronteiras maranhenses, como Adelino Fontoura, Téofilo Dias, Raimundo Corrêa, Teixeira de Souza, Coelho Netto, Graça Aranha, Dunshee de Abranches. Ou Raimundo Teixeira Mendes, o apóstolo do Positivismo no Brasil e o sábio Raimundo Nina Rodrigues, criador da antropologia criminal.
Crime de lesa Maranhão, ser-nos-á ainda não aderir a causa tão nobre, sua autenticidade tão febril que chega a atingir os maranhenses adotivos como o são e o foram, figuras que se afastaram de seu berço cultural, como este que lavra essas linhas, e tantos outros, hoje, doutores, comendadores, professores, profissionais, estudantes, homem e mulheres que se ocultam na rotina do cotidiano, se confundem no redemoinho da vida. Mas em cujo peito certamente flameja o amor ao redil natal, impuro, mas sempre belo, porque foi ali que nasceram as primeiras asas que os fizeram alçar vôo para longe, e trilhar seus próprios caminhos – pequenos luzeiros de sonhos.
Em tal pórtico, injusto seria deixar de citar esses nobres peregrinos fugitivos do solo timbira, aceitantes de outras plagas onde fizeram carreira e exerceram seus talentos – Ferreira Gullar, José Louzeiro e Everaldo Moreira Veras, o último recentemente falecido, poeta e prosador, que fixou, em Recife, sua tribuna literária, onde sua prolífica obra espera seja perenizada como merece.
CDL/BSB, 08.09.11
O CASAMENTO
REAL
Assistimos pela TV a mais um casamento real, o primeiro do século XXI. Casou-se o príncipe William, segundo na sucessão ao trono inglês, com a plebéia Kate Middleton, sua amiga de tempos de faculdade. Uma história de conto de fadas moderno, patrocinada pelo herdeiro, o segundo na ordem de sucessão, da rainha Elizabeth II. Kate e William viveram juntos no mesmo alojamento quando estudantes e depois como casal. Tiveram, pois, tempo de se conhecer, ao que parece. Kate muito segura de si ao lado do seu príncipe de verdade. Esses príncipes têm decepcionado, por pouca sorte, ou pela sina shakespeariana de se transformarem em sapo depois do beijo nupcial. Enquanto isso, as infelizes princesas são presas numa torre, o caso de Diana. Mas o amor não desiste, ou melhor, resiste e insiste. Depois é que são elas!...
A história nos conta que outro casamento real, de William II da Holanda com Mary filha de Jaime II da Inglaterra, restaurou o trono inglês após a república de Cromwell. A coroa inglesa desde 1947 na gloriosa cabeça de Elizabeth II, mas que ameaçou desabar no tempo do casamento de Charles e Diana, pais de William, agora parece que toma novo fôlego. Charles, o herdeiro direto do trono, hoje casado com Camilla Parker-Bowles, amante ao tempo de Diana que morreu estupidamente num desastre de carro em Paris. Diana estava com seu então namorado, também morto, tragédia que causou comoção no reino, afinal ela se tornara a “princesa do povo”, embora protagonizasse escândalos, após escândalos. Dizem que era carente desde a infância, depois abandonada à própria sorte no casamento, e saía nas caladas da noite atrás dos namorados que perseguia como uma qualquer, embora fosse princesa de berço.
Desfilando na carruagem os recém-casados Kate e William acenavam para o povo aglomerado desde a abadia de Westminister até o palácio de Buckingham centro de Londres. Todos, esperançosos, ovacionavam o beijo que o príncipe deu na sua princesa como se fosse o primeiro, um selinho. A história de faz de conta, mas real, cujo fim todos torcem para que dê certo, pois dele vai depender a própria realeza, que sobrevive por conta de sua respeitável rainha. Não é a única casa real européia, mas a mais importante e também a que dá mais o que falar. Não pela rainha Elizabeth II que é um monumento de dignidade, como foi Elizabeth I, mas por seu filho Charles, que parece ser eterno no cargo de herdeiro, e sem talento para ser rei, como acusou sua falecida Diana, enciumada, na verdade.
Afinal, para que serve manter uma família real no trono? É o que muitos se perguntam. A resposta está aí, no espetáculo de organização numa tradicional, moderníssima, rica Londres. Bela que só ela, a capital inglesa encantou mais uma vez o mundo, ou os dois bilhões de espectadores, como eu, desde cinco horas da manhã diante da TV vendo passar diante dos olhos a bela Cinderela. E para confirmar a história, teve as primas feias do noivo, as filhas de Andrew e Sara que não foi convidada pelo último escândalo financeiro, coisa imperdoável, num momento difícil da economia inglesa e também mundial.
Em pleno século XXI o conto de fadas que assistimos ao vivo, não era ficção era real. Afinal, se a economia não vai bem, como no passado colonial, as coisas caminham ainda firmes em solo insular inglês, melhor que no continente, que deu aquele trabalho por ocasião da segunda guerra que a Inglaterra salvou das mãos de Hitler com o auxílio da sua antiga colônia, os Estados Unidos da América. Assim, nós pobres mortais, pudemos nos encantar de longe e tão de perto, pelo milagre da tecnologia com cerimônia na abadia de Westminister, onde os chapéus, casquetes e penachos das damas da nobreza e da sociedade européia, lotavam o recinto com refinada beleza, onde também se destacou o casal Elton John e seu companheiro, quase o mais televisado, depois do casal real. São os novos tempos.

CDL/BSB, 04.05.11
COM A ALMA NA PINTURA E NAS LETRAS
* Calderón de La Sierra
E
m edição recente da revista Veja (23.02.11), com o título de O Homem que Pintava com a Alma, o articulista André Petry tece loas sobre o pintor americano Edward Hopper (1882-1967), dizendo, entre outras coisas, que ele “pintava com a alma”.
* Filósofo madrilenho, naturalizado brasileiro, nosso colaborador eventual
Penso que o eufemismo do autor pode muito bem ser transportado, com o mesmo grau de tensão e originalidade, para o campo da literatura. Assim como há pintores, à semelhança de Hopper, que pintam com a alma, escritores há, também, que escrevem com a alma. Ou em outras palavras, há pintores que apenas sabem pintar e pintores que trespassam os limites da arte e transcendem sua finalidade. Escritores temo-los muitos, mas poucos escrevem a ponto de transcenderem o ofício de escrever.
O tema dá margem a algumas considerações e nos permite outras variantes de cunho especulativo. Hopper – esse extraordinário pintor do cotidiano mágico – estigmatizou a existência humana, perenizando em quadros aquilo que o articulista define como perfeita loucura, a independência da solidão.
A nosso ver, também o escritor assume essa característica, quando põe na escritura toda a angústia humana e dela no momento oportuno tem a serenidade de não se deixar envolver nas mazelas que arquitetou, originais ou eventualmente vinculadas ao gênero humano em sua escalada existencial.
A contraparte, o que dizer de certos escritores que fazem da arte literária instrumento de pantagruélicas angústias, espécie de desagravos a todas as misérias e malefícios do mundo, contabilizando, para si e para os outros, tragédias, vicissitudes e desencantos? Aliás, quando não parte para vociferar, lançando invectivas não só ao mundo, mas ao próprio Criador – Ele responsabilizado por todos os erros, acertos e desacertos do ser humano –, destino por ele criado e que para si traçou.
Como o pintor, o escritor não passa de um criador solitário, enfiado em suas próprias entranhas, espelhando-se muitas vezes em convicções egoísticas. De repente, dá-se ao luxo de esmiuçar a vida através de sua ótica, na mesma medida do alcance de sua visão de mundo, que pode não passar do rés do chão morfológico.
Na nossa atualidade, certos homens de letras fazem da literatura tábula rasa para nela imprimir suas impressões de desgraças, nas quais eles parecem nutrir seus ideais, emitindo, através delas, pontos de vistas distorcidos. Chegam a impor aos leitores sua ideologia, o leitor, coitado, cooptado, a contragosto, para sua igrejinha particular como se fosse a única prevalente no universo.
Pintar nesse tal nível de transparência material certamente não é privativo do pintor americano. Na realidade, todos os grandes mestres do passado o fizeram, basta que citemos alguns, por exemplo, Jean de Vermeer (1632-1675) ou Caravaggio (1571-1610) – é evidente que houve inúmeros outros – cujas telas se perenizaram pela mística e magia que suscitam.
Com esse mesmo grau de transparência – ou transcendência pois ascendem a própria materialidade da escrita – o escritor deve conduzir sua escritura, impregnando-a de doçura e solidão. Dirige-se ao leitor não para lhe colocar sobre os ombros um fardo de maldição, mas fornecer-lhe um farnel multicolorido de iguarias da vida. O leitor, em vez de se sentir maldito, se compraz como um bom usuário da existência ou coexistência. O escritor é alguém que aprende a conviver com o outro, sem deixar de ser solitário, esmagado frente à imensidão do universo, como carregasse consigo todo o peso das dores do mundo.
Não estaria ai a razão de todo o drama humano, o peso drástico do existir na solidão? Simone Weil (1909-1943), filósofa francesa de origem judaica, definiu essa angústia como a gravidade da graça, cujo peso o ser humano não aceita, o fato tendo contribuído para sua própria conversão interior.
Por que até hoje pintores como Edward Hopper nos causam tanta admiração? As telas de Vermeer – três ou quadro dezenas, espalhadas pelos museus do mundo – têm sido objeto de estudo e hermenêutica, pois parecem transcender o tempo e o espaço em que produzidas. O que moveram esses admiráveis artífices?
Vo-los direi: provar que o ser humano está mergulhado no mundo, é um ser angustiado, mas que pode ser redimido pela solidão da arte.
Qual a função da arte literária, senão resgatar o ser humano da solidão do mundo e torná-lo de algum modo digno de existir? O escritor seria como aquele andarilho que percorre os caminhos da vida, alforje à mão, sozinho, aprende sobre tudo, experimenta do bom e do ruim, contabilizando alegrias, dores e sofreres. Mas sempre com a doçura existencial de anjo caído, nunca como anjo da morte. Não deve fazer de suas palavras setas envenenadas, mas folhas por onde faz transpirar sua ética interior.
O mesmo Goethe, cuja poética nos legou tanta sabedoria, foi o autor da tresloucada novela Wherther, que, infelizmente levou ao suicídio um punhado de jovens inadvertidos, por simples imitação, à época, à fobia romântica de amor não correspondido. A arte imita a vida? Não, a vida é que não pode imitar a arte, talvez por vir a ser má conselheira, ou pessimamente mau administrada.
Se a pintura nos abre os olhos para a doçura da alma, a arte literária, de sua vez, pode nos ensinar, através das letras, desde que de alcance solidário, a melhor compreender a solidão existencial do ser humano.
CDL/BSB, 28.02.11
LEMBRANDO EVERALDO MOREIRA VÉRAS
Jarbas Maranhão (*)
F
ui sempre homenageado por Everaldo Moreira Véras oferecendo-me livros de sua autoria, quase todos do gênero ficção e alguns versando temas históricos, numa bibliografia que já é extensa
(*) Foi Secretário de Estado, Deputado à Constituinte Nacional de 1946, Deputado Federal reeleito, Senador da República, Presidente do Tribunal de Contas de Pernambuco, Professor de Direito Constitucional, Integrante de várias Academias, a exemplo da Centenária Academia Pernambucana de Letras, da Academia Brasileira de Ciências Morais e Políticas, sediada no Rio de Janeiro. E da Associação Nacional dos Escritores, com sede em Brasília.
Desde a primeira vez que me defrontei com o premiado escritor – numa reunião da Academia de Letras e Artes do Nordeste Brasileiro, sediada no Recife, e para a qual eu havia sido eleito – prendeu-me a atenção a agudeza de sua inteligência, a vivacidade de espírito, a sensibilidade e a imaginação com que ele se manifestava no debate com outros valores daquela Instituição.
E desde ai firmei a convicção de que Everaldo iria longe no caminho das Letras.
Os críticos ressaltam suas qualidades literárias, a maneira adequada na utilização das palavras, o tom ora irreverente, ora poético de suas narrativas, em temas diversificados, surpreendentes, originais no requinte dos enredos, na magia dos textos de rara criatividade e tudo em seu estilo ágil e imaginoso.
Ou como assinalou o crítico literário, amigo e meu confrade na centenária Academia Pernambucana de Letras, Mário Márcio de Almeida Santos:
“Prendendo o leitor não apenas pela variedade e riqueza dos temas, como, sobretudo, pelo estilo sóbrio, conciso, claro e objetivo, prova de que é o talento e não a orientação estética, o que mais importa.”
Everaldo Moreira Véras foi um enternecido da literatura e escreve com paixão apesar de sua atividade profissional exigir muito mais raciocínio que o imaginário.
Funcionário aposentado do Banco do Brasil foi um engenheiro civil doublé de ficcionista.
Com os números ele garantia a sobrevivência; com as letras ele promoveu a felicidade própria e a dos leitores.
Não sei se é minha ou de outrem a observação de que combinava dois ofícios: o da razão e o da imaginação.
Mas, sem dúvida, é visível sentir-se mais alegre quando se dedicava à literatura. Feliz porque escrevia livros, numa pontuação característica, (escreve como quem fala), num estilo espontâneo, fácil, as palavras fluem soltas, rápidas, precisas. Nem um vocábulo a mais nem a menos.
Jogava com os opostos: a calma, a tranqüilidade, a paz diante da angústia, do sofrimento e da morte.
Irreverente e tragicômico, brincava com a morte, ele que, sem perceber, tanto a temia; até nisso era tragicômico. Talvez, inconscientemente, procurasse exorcizá-la, através da literatura. Nota-se certa fixação com o tema.
Conseguia chocar muitas vezes, no uso da realidade nua e crua.
Mas poderia ser que talvez viesse a inclinar-se por uma literatura mais otimista.
Alguns contos não deixam de ser importantes por serem curtos.
Por vezes impera o humor negro. Na história da família que morre afogada ele se mostra mais que irreverente; apresenta-se diabolicamente engraçado.
Noutras ocasiões surge implacável, em seu conteúdo dramático – o paraplégico – antes a velocidade, agora a imobilidade.
São todos os seus contos, criação exclusiva de seu espírito? Ou guardam, em alguns deles, um fundo de realidade?
Se são inventados ou verdadeiros, que importa?
De um certo modo são verdadeiros, pois o poeta (e por extensão o escritor) “é um mentiroso que sempre diz a verdade.”
O autor de Os pecados de Deus e outros livros, inclusive o último que me enviou – o romance P. Salvador – nasceu para ser escritor, criando tramas e personagens ou registrando fatos do passado, num estilo e pontuação peculiares.
Não obstante irreverente, sarcástico, impiedoso, por vezes, em sua extensa bibliografia, tem o coração tão grande ou maior que o mundo – o coração de poeta.
Sua verve me faz lembrar frase de outro escritor: “a arte existe porque a vida não basta.”
Ou o que disse o poeta Geraldo Maranhão – “há mais vida na literatura do que na própria vida.”
Everaldo Moreira Véras de leitura muito agradável e atraente, acreditava no ser humano, na verdade do bem, e (como se costuma dizer) no aqui e agora. Por isso viveu de forma intensa o momento presente.
** O texto foi lido em sessão magna promovida pela ACADEMIA DE LETRAS E ARTES DO NORDESTE BRASILEIRO, de Recife-Pe, em homenagem in-memoriam ao escritor, recentemente falecido.
CDL/BSB, 10.02.2011
DE HERÓIS, OTÁRIOS E OUTROS
SINGULARES SERES QUE A FICÇÃO REPLICA
* Elisário Moreno
É
bom que não percamos o passo, ao percorrermos mais um ano de itinerário neste velho-novo-mundo. Cada vez nos conscientizamos de quão sábios e profetas foram os clássicos intelectuais. Incrível como esses monumentos literários souberam prever o futuro e, com ele, o comportamento dos seres humanos.
Nesse intervalo – sabemos – muita coisa ocorreu, aqui e lá fora, cenários políticos que mudaram, globalização econômica cada vez mais atuante, à reboque de suas crises negativas. Mesmo assim caminhamos a passos largos, para muitos nas trilhas de absoluto progresso, enquanto outros, dentre os quais nos incluímos, preferem ser mais cautelosos, pois minguadas ainda se afiguram as conquistas humanas, em se falando de paz, harmonia e compreensão entre as pessoas e os povos.
Referimo-nos a figuras, ou exemplares delas, que pululam nossa historiografia. São os heróis, os otários e uma galeria inumerável de criaturas que se arvoram com o direito, dever ou simplesmente o desejo, de, à sua custa e risco, salvar ou melhorar o mundo. Não é preciso dizer o desastre resultante de tais estouvadas ações de magnanimidade.
Em ordem mais ou menos cronológica, nossa atenção se volta para o grande escritor Miguel de Cervantes (1547–1616), autor dessa obra maravilhosa, até hoje ainda incompreendida, mas cujo conteúdo narrativo é de uma gritante atualidade: Dom Quixote de La Mancha. Muito badalada entre os escritores, na verdade muito poucos a leram em profundidade. Mais do que as maledicências políticas de Maquiavel, a alegórica fantasia do cavaleiro-errante deveria ser texto obrigatório nas escolas, faculdades, principalmente as de economia, sociologia e direito. Quantas das pessoas atuais, freqüentadoras de nosso cotidiano social, político e econômico não se incorporam nas figuras ridículas e grotescas dos personagens cervantinos! Quantos figurões políticos ali não se veriam fielmente retratados. Os que se cognominam salvadores da pátria não se igualam, em gênero e número, ao tresloucado Quixote em sua cavalaria errante? E quantos que se supõem ungidos de sabedoria não poderiam aprender com as tiradas de Sancho Panza, sua fraseologia arrevezada, mas de límpida conscientização! Os juízes seriam mais prudentes ao pronunciarem seus julgamentos. Dom Quixote, a quintessência do heroísmo alucinatório. A todo instante não tropeçamos com pessoas, na atitude e no afazer, no pensar e no conviver, que nos lembram um Dom Quixote redivivo?
Já em Candide , por exemplo, obra escrita em 1758 por Voltaire – François-Marie Arouet (1694–1778), o satírico enciclopedista, de forma irônica típica de seu temperamento, nos delicia com um personagem que é a figura perfeita do inocente útil, uma pessoa honesta e boa enfrentando todas as intempéries da vida, inclusive a maledicência, a maldade e a impiedade reinantes entre os humanos. Cândido, o personagem voltairiano, não passa de um joguete, à mercê da torpeza do mundo, a lidar com criaturas vis, que lhe atazanam a existência. E ele sempre inabalável quanto a máxima do filósofo Pangloss, seu infalível preposto intelectual, de que “não há efeito sem causa e que nós vivemos no melhor dos mundos possíveis.” Ao que, otimista inveterado, Cândido responde ... “mas é necessário cultivar o nosso jardim.” Quantos Cândidos não encontramos por ai, a alardear seu otimismo inconseqüente! E quem de nós não teve de cultivar as sutilezas do coração, arregimentado forças incomuns para suportar nossa às vezes dura existência? E quanto de otário não nos sentimos, ao depararmos com a esperteza daqueles que nos cobram os sonhos, mas vendem a nossa pátria? Qual o mundo que pretendemos viver, o possível ou o impossível sonhado por nossa rebeldia?
A terceira figura que queremos lembrar é a do inquebrantável romântico Gordon Noël Byron, Lord Byron (1788– 1824). Poeta, acusado de libertinagem e dissipação, exilou-se por conta própria da pátria, a Inglaterra. Envolveu-se em tramas amorosas, mas no íntimo nada o fascinava mais do que tornar-se o herói sem causa, por amor absoluto à beleza e à humanidade. Incompreendido, desiludido, amargurado e traído por seus próprios compatriotas, praticamente imolou-se na sangrenta guerra pela independência da Grécia. Um verdadeiro herói–otário, mas que fertilizou o mundo de poesia, do verdadeiro sentimento da beleza e do altruísmo.
Parodiando Blaise Pascal, assim como o coração tem razões que a própria razão desconhece, também a ficção tem razões que extrapolam sua própria lógica e fertiliza a vida de pessoas e exemplos mais fictícios do que reais, mas também mais reais do que se pretendam fictícios
* Escritor, poeta, oriundo das plagas nordestinas, nosso colaborador
CDL/BSB, 26.08.
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