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FILME
MINHAS TARDES COM MARGUERITTE
La Tête em Friche – França, 2010 - Direção: Jean Becker – Elenco: Gérad Depardieu, Gisele Casadesus e Sophie Guillemin
Há filmes assim, que parecem não dizer nada importante, mas na realidade, têm profundidade. É o que acontece com esta película francesa, estrelada porGérard Depardieu e uma encantadora senhora idosa chamada Gisele Casadesus. Categorizarm o filme de uma comédia. Sim, pelas tiradas espontâneas engraçadas de Depardieu, o mais versátil dos atores franceses e também o mais prolífico em termos de produção. Pois, quando muito, trata-se mesmo de uma tragicomédia. Diria uma tragicomédia light. Aliás, em que Depardieu é mestre, no rastro talvez do fabulosoJacques Tati ou do enroladíssimo italiano Totó.
Fica evidente que toda a graça do filme depende desses dois magníficos intérpretes, outros que fossem e certamente não teríamos a oportunidade de assistir a uma estória tão prazerosa e, ao mesmo tempo, nos tocar tanto emocionalmente. A trama é extremamente simples. É um encontro, desses casuais da vida, havido numa praça pública entre um cinquentão semianalfabeto e uma senhora idosa apaixonada por livros. Duas coisas fundamentais o separam, a ignorância dele e a delicadeza e inteligência da vetusta senhora. São assim os dois personagens, Germain e Marguerite. Germain é um fanfarrão e também falastrão, brigão, extrovertido, mas adorado na vizinhança por suas façanhas histriônicas. Marguerite, bem, é aquela senhora que já viveu o que tinha de viver, professora aposentada, sem grandes posses materiais, mas cuja única paixão é ler, falar sobre livros, deleitar-se com a literatura, a beleza da poesia, dos romances.
Às tardes no parque, Germain e Margueritte se encontram para conversar. É assim que vão trocando confidências, ele narra alguns fatos de sua vida e ela recita versos, falando sobre livros e autores. Germain praticamente nunca tinha lido um livro, fora péssimo aluno, gaguejava e era motivo de irrisão dos colegas. Margueritte, que fora professora, o influencia a ler e empresta-lhe um livro. E faz-se uma espécie de troca emocional: ela o ensina a ler e entender o que lê e ele se torna seu aluno dileto, uma profunda amizade ligando os dois.
A trama se desenrola e aos poucos sabemos quem é quem, a verdadeira realidade de um e de outro: Germain não é casado, vive com uma mulher mandona, enquanto a genitora dele está com Alzeheimer, precisa ser cuidada, já Margueritte tem graves problemas de saúde, está perdendo a visão, seu tempo é chegado, seu único prazer na vida são os livros. Chega uma hora que ele vai ler para Margueritte, em seus últimos instantes.
No final, como num crescendo em direção ao clímax da emoção e a grande amizade que os dois têm um pelo outro, Germain, que se pensava um troglodita, decide deixar tudo, até a mulher, para ficar com sua amiga Margueritte, porque, para ele, o seu maior bem era a amiga, que lhe ensinou a ler e ser mais humano.
É uma narrativa simples, sentimental que nos leva à reflexão, sem dúvida. Num mundo promíscuo, supostamente progressista como o nosso, onde o sentimento de amizade fraterna parece extinta, enche-nos de esperança, auscultar, através das cenas desse filme e mediante as interpretações sensíveis dos atores – Depardieu e Casadesus – que ainda há salvação para o ser humano. Quem sabe a literatura, a poesia, a arte não nos preencha o espírito dessa esperança? É o que o filme nos quer dizer.
Pelas interpretações maravilhosas de Depardieu e de Casadesus, o filme de Jean Becker merece quatro estrelas, com louvor à singeleza, à ternura e ao espírito humano nas entrelinhas – portanto, próprio e até obrigatório para todas as idades (MMV).


