CAMINHO DAS LETRAS

"Não ceda ao mal, mas continua cada vez mais corajosamente contra ele" ( Virgílio, Livro VI de sua epopéia Eneida)

FILME

A ORIGEM (Inception), EUA/Inglaterra, 2010) – Direção: Christopher Nolan – Astros: Leonardo DiCaprio, Ellen Page, Ken Watanabe, Cillian Murphy, Joseph Gordon-Levitt.

* Edu Castanheira

O cinema moderno hoje cada vez mais se aproxima de um picadeiro, onde cenas e ações se movimentam em verdadeiros trampolins, globo da morte, tresloucadas ousadias e palhaçadas, e outros inúmeros artifícios circences – tudo agora sendo incorporado nos filmes.

São os chamados filmes de ação, hoje desdobrados em inúmeras categorias, conforme explorem o crime, o drama, a comédia ou simplesmente se embarafustem nos labirínticos meandros da trama psicológica, do transcendalismo e da magia, quando não resvale mesmo para a virtuosística da correria e pancadaria, em total e completa absurdidade.

Esse filme recente do diretor Chris Nolan, que estréia no nosso circuito, parece se enquadrar bem num desses modelos esquizofrênicos, com uma pequena mas contundente agravante: não se consegue entender nada de sua trama, tal o redemoinho de cenas que constituem sua estrutura fílmica.

De que trata o filme? A revelação do conteúdo de um sonho dentro de outro sonho? Mas também é o conteúdo extraído de um terceiro sonho. Três níveis de sonho. Uma verdadeira loucura, cuja trama já superou o terreno do psicológico para beirar o desbragamento orgíaco psicodélico, no linguajar paraguassuano de Dias Gomes.

Quando o pobre do espectador pensa que o filme chegou ao clímax e se prepara para terminar, ledo engano. Lá recomeça tudo, repetição de cenas, correria infernal, carros se chocando, explosões, até aquele cúmulo de um veículo ejectado violentamente de uma ponte, projetando-se na direção de um rio, mas a queda em absoluta câmara lenta, para representar o estado alfa dos sonhos, infenso à lógica do espaço-tempo.

E não adianta querer desatar o nó do filme que é cego. O jeito é se compensar com a carinha de boneco-de-louça estática do herói DiCaprio, entrando num sonho e saindo de outro, espalhando violência, dando tiro, pulando de cena em cena, haja paciência para resistir.

Resta apenas dizer que Nolan foi quem dirigiu aquele outro filme tão enigmático quanto exasperante chamado Amnese. Este, tenho certeza, também ninguém entendeu.

Nós, pobres mortais que quando vamos assistir uma fita apenas queremos nos entreter com uma boa trama, começo, meio e fim, qualquer que seja o gênero, policial, comédia ou drama, com esse Origem nos sentimos frustrados, receiosos até de que nossos neurônios andam nos traindo, e o que acabamos de assistir não foi um filme sobre um sonho, mas um sonho sobre um filme, sem pé, sem cabeça, um verdadeiro desbragamento orgíaco sonífero

* Crítico de filme, nosso colaborador assíduo

 

CDL/BSB, 21.08.10

 


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