CAMINHO DAS LETRAS

"Não ceda ao mal, mas continua cada vez mais corajosamente contra ele" ( Virgílio, Livro VI de sua epopéia Eneida)

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FILME

MELANCOLIA

Melancholia” – França, Itália, Alemanha e Suécia, 2011 – Direção: Lars Von Trier – Elenco: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Charlotte Rampling, John Hurt, Alexander Skarsgard

           Fazendo parelha com Peter Greenaway (inglês) ePedro Almodóvar (espanhol), outros cineastas também rebeldes, Lars Von Trier se distingue pelo exotismo de seu comportamento. Vez por outra, faz uso da mídia para esnobar a si e o mundo. Como se todos fossem imbecis, retardados ou simplesmente porque não aceitam o cânon de suas ideias extravagantes. Há pouco, no Festival de Cannes 2011,constrangendo todo o público, inclusive os artistas do próprio elenco do filme, recém-premiado, Melancolia, o boquirroto cineasta declarou-se a favor do nazismo, dizendo-se simpatizante de Hitler. Foi considerado persona non grata, sem prejuízo do mérito de sua película. Por outro lado, Kirsten Dunst, a estrela, com justiça, recebeu a láurea de melhor atriz pelo seu notável desempenho como a desajustada Justine.

O cineasta optou por explorar uma espécie de ficção científica detraqué, mas não se afasta daquele seu já bem conhecido estilo, aspérrimo, vomitando críticas e tresmalhando a cuca do expectador com cenas excessivas de truncagem, flasbacks e outros artifícios ousados, os quais, na realidade pouco ou quase nada ajudam na boa fluência do filme. O resultado é o que se vê: um filme difícil, enigmático, sem qualquer empatia junto ao público, certamente.

Trata-se de uma narrativa em dois tempos. No primeiro, espécie de prólogo, dá-se o casamento, por sinal falhado de Justine (Dunst), uma garota que acaba de se firmar no ramo de propaganda. Toda sua família comparece à cerimônia e à festa das núpcias dela com Dexter, o noivo. Já na segunda parte, ocorre o apocalipse, ao mesmo tempo que o mundo pessoal de sua irmã, Claire, vem abaixo.

O filme inicia com o planeta Terra enfrentando outro astro (imaginário) chamado Melancolia. John (Sutherland) é astrônomo amador e vem acompanhando a evolução do suposto conflito, que poder se dar, mas que ele acha que não, porque, no último instante, ocorrerá um desvio e a Terra continuará incólume. A música de fundo é “Tristão e Isolda”, de Wagner.

A exemplo de outros filmes do cineasta, todos com o apelo explícito para o enigmático, o absurdo, a violência e o completo desacerto dos personagens, em relação ao mundo, tais como “Dançando no Escuro” (2000), “Dogville” (2003), “Manderley” (2005) e “Anticristo” (2009) – este não difere dessa regra. Os fatos aparecem em sequências acéfalas e os personagens/artistas são figuras espezinhadas, como que obrigadas a fazer cenas desumanas, crucificam-se na representação.  Dunst, a bela e talentosa diva que nos acostumamos a ver em filmes até engraçados, a eterna namoradinha do Homem Aranha, pois neste ela aparece até nua em pelo, seu corpo escultural brilhando ao luar, sem falar que tem de fazer o papel de doida varrida. Sutherland, o fogoso durão de 24 Horas, agora é um maníaco depressivo por dinheiro e acaba se suicidando quando percebe que sua previsão astronômica falhou e o mundo virará frangalhos com a colisão, então, iminente, entre a Terra e o monstruoso asteroide de nome Melancolia. Enquanto isso, as pessoas, o mundo se desmantelam à influência, por assim dizer, maligna do astro, sob rota de colisão.

São subliminares as insinuações do cineasta ao realizar essa excêntrica película. O mundo moderno estaria sofrendo de profunda e inexaurível depressão, sob influência do processo de depreciação contínua a que se submete o ser humano nestes tumultuados tempos. O filme seria, portanto, uma visão profética do comportamento humano, um exemplário psicológico do animal humano, sob o risco de desaparecer diante de um cataclismo cósmico. Daí as ações absurdas praticadas pelos personagens, um rosário de desmandos, incongruências e irracionalismos, como as loucuras de Justine, de sua irmã Claire e do marido desta, suicidando-se para não presenciar o apocalipse.

No último instante – à guisa de por um ponto final wagneriano à sua obra – Von Trier acomoda os personagens restantes, Justine, Claire e seu filho, numa suposta pirâmide feita de estacas, como a dizer que, sob a proteção do signo piramídico, eles seriam poupados da catástrofe, quem sabe abduzidos por seres extrarrestres de poderes extraordinários. Iriam habitar o paraíso da imaginação fantasiosa do cineasta.

Não podemos atribuir mais do três estrelas ao filme, por sua incomunicabilidade intrínseca. Cinco estrelas, sim, merece, sem dúvida, a bela Kirsten Dunst, principalmente por ter se crucificado piamente diante das idiossincrasias e estultices cênicas criadas para ela (EC).

Em, 26/12/2011.

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