CAMINHO DAS LETRAS

" A justiça pode irritar-se porque é precária. A verdade não se impacienta, porque é eterna." (RUY BARBOSA)
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FILME

AS FÉRIAS DO SR. HULOT

"Les Vacances de Monsieur Hulot", França, 1953 - Direção: Jacques Tati - Roteiro: Jacques Tati, Henri Marquet - Fotografia: Jacques Mercaton, Jean Mousselle - Montagem: Grassi Ginou Bretoneiche, Suzanne Baron - Música: Alains Romans - Produçao: Fred Orain - Elenco: Jacques Tati, Nthalie Pascaud, Michèle Rolla, Valentine Camax, Louis Perrault, Raymond Carl e Jean-Pierre Zola - P &B.

VII Mostra Banco Nacional de Cinema.

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Nos primórdios do cinema, quando os produtores de fitas engendravam suas produções de filmes, Charles Chaplin imaginou e pôs em prática o seu pirotécnico "Carlito", o protótipo do maravilhoso "tramp", aquele sujeito de calças folgadas, sapatos canoas, fraque apertado e chapéu côco, uma estratégica bengala e um audacioso bigodinho hitleriano.

Nas salas onde os filmes silenciosos eram exibidos, a figura circense de Carlitos era o máximo que levava o público ao ápice do hilário e da galhofa. E a pantomina começava com correrias de policiais, trapaceiros, brigões, mascates, que passavam pelo caminho do desastrado Carlito, figura na qual todo mundo se retratava, e com quem se ia a forra contra o tira, o perseguidor, o opressor, o poderoso, o chefão, o manda-chuva.

Carlitos era nosso mais legítimo ícone da liberdade total, o herói que assumia o papel de nosso ego irresponsavelmente bagabundo. Esse, acredito, constitui a fonte principal de onde Chaplin retirou a inspiração de todos os filmes da série Carlitos.

Anos mais tarde, eternamento sepultadas as comédias mudas, mas de algum modo perenizado a ideologia mágica daqueles momentos de criação, Jacques Tati, um francês de uma desconhecida La Pecq, a partir de 1953, cria ( ou recria?) um novo personagem, na verdade um Carlitos modernizado, estereótipo do trapalhão, meio cínico, meio tolo, o perfeccionista lélé da cuca, mas aparentemente sadio. Eis a figura de Monsieur Hulot - o Sr. Hulot, protétipo do louco manso.

Diferente de Chaplin, Tati só fez quatro longas-metragens: "As Férias do Sr.Hulot" (1953); "Meu Tio" (1958); "Playtime" (1967) e "As Aventuiras do Sr.Hulot no Tráfego Louco" (1972).

Chapliano atípico pela perfomática de suas ação, Monsieur Hulot é um sujeito alto, com passos curtos e matemarizados, metido num sobretudo de lã, calças pegando siri, chapeuzinho de alpinista, cachimbo espetado na boca e um olhar desafiadoramente lunático. Como se estar sempre a porfiar as coisas que vê e de que participa.

Neste "As Férias", o primeiro da série, o cínico trapalhão tira férias em um balneário da costa francesa. E ali ele vai aprontar uma seqüência infinda de tranpolinadas. O interessante é que no balneário o "louco" não é só o estouvado Hulot, com seu andar saltitante e olhar desvairado, mas todos, aqui ou ali praticam um "pequeno ato" de loucura, espécie de "Mens Insana in Corpore Insano", ou simplesmente uma "comédia de mil e um erros". Aliás, essa é a característica de Tati: criar um cenário, uma situação de "puzzle", charada cênica, em que o espectador/receptor/leitor capta a "gag", a piada, o erro, e o sinaliza, como faz ao decifrar uma charada ou carta enigmática. Cinco, seis, dez erros em cada tomada. É a porta que abre com o mesmo renitente barulho. É a lufada repentina de vento que atrapalha os hóspedes/jogadores. O menino que carrega a casquinha de sorvete virada para baixo e o conteúdo não cai. O garçon que atropela o proprietário ou fica olhando as pegadas sujas dos sapatos de Hulot que marcam o assoalho limpo. Ou mesmo aquele casal de velhos, em que a mulher, de chapéu e toda pronta, vai passear, nas imediações do balneário, ela à frente e o marido atrás, como se nada fosse para ela, a paquerasse apenas. Se ela pára e ele também pára, se ela apanha uma concha na praia e diz "oh, que linda" e dá pra o marido guardar, ele joga imediatamente fora.

É evidente que Tati se inspira em Chaplin e em todos os comediantes do cinema mudo, de Max Linder a Buster Keaton, em Carlitos indo buscar muitos dos seus trejeitos e construção de suas "gags". Mas, aqui a filosofia fílmica é outra, totalmente enigmática, como um video game, desprovido do vídeo, mas centrado na sistemática do jogo.

No fundo, Hulot e Carlitos acabam se combinando no mesmo fim, visam o mesmo objetivo, que é fazer uma sátira da sociedade, do mundo. Aquele, na maravilhosa figura do vagabundo, apontando as injustiças, os absurdos da maldade, os desencontros da vida, as desigualdades sociais e este, na pele de um paranóico trapalhão, que mexe e torna-se um verdadeiro espião das pessoas, coisas e do mundo em que vive, deflagrando uma explosão de erros, loucuras e situações absurdas, a significarem que não passamos nesta vida sem sentido de loucos partilhando de um eterno jogo de absurdos.

 

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