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FILME
A SEPARAÇÃO
“Jodaeiye Nader az Simin” , Iran, 2011 – Direção: Asghar Farhardi – Elenco: Peyman Moadi, Leila Hatami, Sareh Bayat, Shahab Hosseini, Sarina Farhardi, Merila Zaire
Filme iraniano quase sempre trata sobre a cultura do país ou seus costumes, dificilmente vemos os cineastas extrapolarem desses temas. Ora, os costumes orientais — é sabido — diferem muito dos nossos, ditos ocidentais. O Irã é um país de cultura fechada, onde as leis maometanas são observadas de maneira rígida e inflexível. Hoje, seu mandachuva chama-seAhmadinejad e todo o ocidente parece vê-lo um ditador implacável. Inútil querermos por em cheque, em todos os sentidos, as leis iranianas, a moral e os costumes ditados por Maomet, o profeta. Talvez os iranianos façam o mesmo e se furtem de julgar nossas leis e costumes sob a égide de Cristo.
O cineasta – que já fez filmes comoProcurando Elly (2009) – enfoca neste uma situação típica do dia-a-dia, uma situação tirada do cotidiano, mas que evolui para o absurdo, à medida que se desenvolve a ação. Nada de flasbacks desnecessários, eufemismos complicados, discussões etéreas, efeitos especiais – trata-se de resolver um conflito atual, simples que se complica, como característico do próprio comportamento humano. Aqui, no caso, não sob o crivo do livre-arbítrio, que parece aleatório às leis e aos costumes islâmicos, mas perante o rigor da lei, inflexível, quase hamurabiano do “olho por olho, dente por dente”.
Sumariemos a estória de A Separação. Simin e Nader (Leila Hatami & Peyman Moadi) é um casal iraniano que se acha em vias de se separar, porque a mulher, Simin, quer sair do Irã, para tentar outras oportunidades no exterior, principalmente visando a educação da filha de 11 anos, Termeh (Sarina Farhardi). Na última hora, perante o juiz, Nader, o marido, negaceia. Ele ama a filha, mas não pode vê-la separada, além de ter o pai que sofre de Alzheimer, precisando de cuidados especiais. A mulher desentende-se com o marido e sai de casa. Nadar, sem ter quem trate do pai, contrata os serviços de uma empregada, Razieh (Sareh Bayat), sempre coberta com um xador. Ela aceita trabalhar para melhorar a renda da família, pois o marido, Hodjat (Shalhab Hosseini) está desempregado, mas não tem autorização dele, exigida sob a lei mulçumana. Nos serviços da casa, um dia, a empregada acaba deixando o velho enfermo trancado, para resolver um assunto particular, o que provoca um distúrbio, pois ele cai da cama e, quando afinal, o filho chega, encontra-o caído, quase morto. Nader fica furioso, briga com a empregada, expulsa-a de casa, mas ela quer a paga pelos serviços prestados. Nader procura o dinheiro do pagamento, não acha, acusa-a de tê-lo roubado. Na confusão, Nader empurra a mulher, fecha a porta e não vê que ela caiu na escada de acesso à casa. A mulher, que estava grávida, mas que escondeu o fato ao ser contratada, sofre na queda, sente dores. O fato é que ela acaba no hospital, onde perde o bebê. Está armada a complicação jurídica. O marido imediatamente dá queixa ao juiz e começa o processo – por sinal, sumaríssimo sob o rito do Alcorão. Nader é intimado, as testemunhas são chamadas a deporem, as coisas vão se complicando. Nader é responsável pelo acontecido? Ele diz que desconhecia o estado da empregada. Há testemunhas que dizem que ele tinha sido informado. Como, se ela vestia sempre o complicado xador?O fato é que Nader vai ser punido, cumprirá pena e pagar uma fiança alta que ele não pode pagar. Por outro lado, Nader entra com processo contra a empregada pelo suposto roubo da quantia desaparecida. Mas ela diz que é inocente. Agora é o marido dela que arma confusão no tribunal, acaba preso, a mulher suplica ao juiz que ele está desempregado, que releve o destempero do marido, o juiz acaba cedendo.
O imbróglio vai evoluindo. Agora é a filha do casal, Termeh, que quer saber a verdade, se o pai desconhecia mesmo o estado de gravidez da empregada, ou ele quer se aproveitar da situação. É uma menina muito arguta e inteligente. Onde está a alardeada submissão da mulher sob a lei mulçumana? A mídia ocidental alardeia que a mulher tem seus direitos diminuídos perante o homem. Em que ação, pelo menos segundo nosso Código Civil, a busca pela verdade é assim tão fundamental? Aqui, o que prevalece são os autos dos quais nem sempre a verdade se declara. Sem falar que a verdade jurídica pode perder-se nos meandros performáticos de uma processualística burocrática, entranhada de sofismas. Lá, no caso em questão, o que deve prevalecer é a verdade. Nader sabia ou não sabia que a empregada estava grávida? É impossível mentir – é contra a consciência. È o que Termeh quer saber, uma garota de 11 anos. Aqui, as meninas dessa idade perdem tempos de estudos no computador acessando facebook, ytube e outros quejandos internéticos, quando já não falam em ficar. Onde está a verdade de consciência em nosso propagado progressista Ocidente?
Ao final, sabe-se que Nader realmente fora informado da gravidez da empregada, mas que mentiu para proteger a família, a filha, por quem tinha enorme afeição, evitava de ser preso, afastar-se dela. Depois, quem tomaria conta do pai?
Eis, no cerne, porque A Separação é um filme realmente interessante em todos os seus aspectos. Faz o espectador refletir sobre muitos assuntos. Tem uma trama bem urdida, apesar das inúmeros cenas superpostas. A técnica do flashback é utilizada com absoluta parcimônia. Os diálogos são percucientes. Os atores atuam com perfeição, incorporando os sentimentos alusivos aos momentos decisivos. Mas, a nosso ver, a grande mensagem que o filme de Farjardinos passa é a de que nem tudo que se passa no Irã é o que transparece ou parece transparecer na mídia ocidental. O próprio cineasta expressou isso ao dizer, quando seu filme ganhou recentemente o Globo de Ouro: “O Irã é um país de pessoas que amam a paz”.
E eu diria, complementando: não só a paz, mas que busca a verdade. Pelo menos é o que o filme faz transparecer nas suas entrelinhas, através da força de suas imagens. Pelo desempenho extraordinário dos atores e pela abordagem de temática realística, contendo inclusive claros preceitos propedêuticos, damos ao filme iraniano cinco estrelas. Homens e mulheres, maridos e esposas, jovens e adultos, todo mundo deveria assistir este belo filme (MMV).


