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FILME
A PELE QUE HABITO
La Piel que Habito, Espanha, 2011 – Direção: Pedro Almodóvar – Elenco: Antônio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet, Roberto Alamo, Branco Suárez, Eduard Fernández
Assim como Von Lars, com seu recente Melancolia, Pedro Almodóvar faz questão de ser diferente, rebelando-se com tudo que pode serpoliticamente correto. Por isso, seus filmes são sempre polêmicos, abordam temas controversos, há profusão de cenas eróticas e outras tantas enigmáticas, misturando verdades com mentiras, alhos com bugalhos. A despeito disso, os críticos da cúpula cinematográfica consideram-no um gênio.
Este, que concorreu inclusive no Festival de Cannes 2011 e indicado para Palma de Ouro, ficou, contudo, apenas com o Prêmio da Juventude. Já no Globo de Ouro 2012, teve indicação de melhor filme estrangeiro.
O filme não é original, pois baseado no livro “Mygale” (1995), deThierry Jonquert, assemelhando-se ainda a outra película “Olhos sem Rosto”(Les Yeux sans Visage) de 1960. Há várias alusões e referências às artes plásticas, por exemplo, de Louise Buorgeois, um ambiente decorado com um quadro de Guillermo Pérez Villalta, colagens de Juan Gatti e reproduções de duas pinturas de Ticiano – “A Vênus de Urbino” e “Vênus do Organista”.
Também a música brasileira está presente na trilha sonora. Em termos de Brasil, observe-se que tanto o personagem central Dr. Ledgard, sua mãe e seu irmão no filme são brasileiros, embora o caráter desses personagens se constituam em demérito, pois são ou criminosos ou cafajestes – qualquer semelhança é mera coincidência. Para o bom entendedor, meia palavra basta.
Narra-se ali a estória do Dr. Ledgard (Banderas), notável cirurgião plástico. Desde quando sua esposa sofreu um acidente de carro de que lhe resultou graves queimaduras que ele se torna obsessivo por recriar um produto que substitua a pele humana, dedicando-se, arduamente, a pesquisar no seu laboratório particular e fazer experiências exóticas. Atormentado pela morte da mulher, e, logo depois da filha que se suicida, Ledgard se transforma pouco a pouco num homem inescrupuloso que não media esforços em colocar em prática seus experimentos, inclusive o insano desejo de vingar a morte de seus entes queridos, principalmente o estuprador de sua filha. Assim, para realizar seu macabro intento, é ajudado por Marília (Paredes), a mulher que o criou que mais tarde é-nos revelado ser sua genitora. Os fatos vão se incrementando em assustadora vertigem, quando o médico sequestra o estuprador (Cornet) e o mantem em cárcere privado. Neste ínterim, surge um irmão dele (Alamo) – para o médico desconhecido – um brutamontes que procura a mãe à busca de dinheiro. Este ao descobrir a cobaia no aposento secreto da casa (na realidade uma clínica), quer estuprá-la a todo custo. Ledgard aparece, há uma luta ferrenha, ele acaba matando o irmão.
À medida que se desenrola o filme, o expectador se assenhora de toda a trama diabólica do Dr. Ledgard. A cobaia é um homem, Vicente, o suposto estuprador da filha, a quem o tresloucado médico, mediante experimentos de ponta com pele artificial e doses maciças de hormônios, conseguiu transformar em mulher, por sinal, uma linda mulher. Tanto que acaba se apaixonando por ela, a cobaia, na realidade um homem, agora transsexual. Não dá a entender, mesmo simbolicamente, que a transformação de Vicente em Vera é uma espécie de valorização do hibridismo sexual?
O desenlace do filme não destoa da sua terrorífica trama. Vera/Vicente afinal vai engendrar sua vingança, que virá a galope, porque ela não está satisfeita com a mudança de corpo (terá sido também de alma?). A agora andrógina criatura vai seduzir seu algoz para o ato sexual, e no momento do ápice de prazer, ela/ele que traz consigo um revólver escondido, atira nele assassinando-o à queima roupa.
O longa foi rodado em 2010, durante 11 semanas, cerca de dois meses e meio, numa casa em Toledo, que serviu de cenários a muitas cenas. O papel de Elena Alaya seria de Penélope Cruz, atriz preferida do cineasta, mas esta impedida por coincidir com outro trabalho, transferiu-o para Elena.
É de supor-se que o simbolismo do filme de Almodóvar se comporte como uma espécie de crítica a essa tecnologia de ponta a que têm aderido a cirurgia plástica e a prática de transplante de órgãos e demais experimentações, técnicas e outros procedimentos ousados no campo da medicina contemporânea. Em outras palavras, para sermos curto e grosso: a criação de novos Frankesteins.
Deve ser impróprio a menores de 14 anos pelo tema e pelas cenas aberrantes de violência e sexo. Para o filme, do ponto de vista da cinematografia, atribuímos-lhe três estrelas (EC).


