CAMINHO DAS LETRAS

"Não ceda ao mal, mas continua cada vez mais corajosamente contra ele" ( Virgílio, Livro VI de sua epopéia Eneida)

EDITORIAL


MEMORIAL DE UM APOCALIPSE, A AMÉRICA PAROU, O MUNDO ESTARRECEU : DEZ ANOS SE PASSARAM

  Naquela desditosa manhã de 11 de setembro, uma dantesca nuvem de poeira e fuligem  engoliu o coração de Mannhaten, Nova York, provocando o desabamento das Torres Gêmeas: cobriu também de cinzas o mundo inteiro. Parecia o começo do caos, aquelas duas torres de aço de repente se espatifando, o mundo todo vindo abaixo, o horror estampado nas faces das pessoas, que conseguiram emergir dos escombros como estátuas vivas cobertas de lama e pó.

Seria o apocalipse que se desencadeava, o começo do fim? O mundo todo quedou estarrecido, corações e mentes imobilizados pelo terror coletivo. Era justamente isto que Osama Bin Laden queria ocorresse: que o mundo ficasse refém do medo e do terror. E de fato aconteceu, de alguma forma o mundo se tornou refém do terrorismo. O que justificou que, a título de reação, os Estados Unidos desencadeassem a mais violenta ação contra o terror organizado mundo afora, primeiro no Afeganistão depois no Iraque.

A hecatombe deixou, nos Estados Unidos, um lastro nefando de quase 3.000 mortes.

Dez anos se passaram dessa indescritível ocorrência. No lugar onde outrora erguiam-se as duas torres-símbolo dos americanos, hoje se acha em construção outra edifício monumental de aço, denominado Marco Zero. O mundo parece recomeçar, reerguer-se simbolicamente das ruínas.

Reconstruiremos um novo mundo, tendo aprendido essa amarga lição? O que nos espera o amanhã? Outro ataque a nível planetário como esse? Bin Laden, o famigerado guru terrorista foi caçado e morto a tiros, sem piedade pelos americanos, sabemos todos. Mas a semente do ódio terá sido erradicada? As escaramuças diárias pelo mundo afora, pelos confins do Oriente Médio e quejandos, dizem que não. O ódio continua a vicejar entre as gentes, prolifera com a violência, como um rastilho de pólvora, espalhando-se, mantendo raízes profundas nas mentes e nos corações.

Se por um lado se justifica a vendeta do americano contra a sanha terrorista às vezes invisível, devia prevalecer na outra ponta da latitude lógica a lei do perdão, da comiseração ao invés da lei do talião, também brutal, a qual, como se sabe, foi aplicada à exaustão em Guantamano e noutros sistemas prisionais americanos.

Quatro trilhões de dólares foi quanto ficou a contabilidade do anti-terrorismo para o bolso do americano. E quanto ficaram os gastos em relação ao mundo? E os infindáveis efeitos colaterais que essa sinergia de vingança produziu em efeito cascata às nações do mundo?

O ser humano é uma modalidade orgânica fragílima que emergiu dos fornos estelares por um suposto acaso na ótica dos evolucionistas fanáticos, ainda segundo esses, dotados de enigmáticos genes egoístas, que o torna fatalmente ambicioso, cruel e ególatra, por natureza, uma espécie de germe lombrosiano cuja única finalidade no mundo é saciar-se e lograr a sobrevivência da raça. Quebrar esse terrível paradigma deverá ser a missão no futuro das pessoas de bom senso e que façam uso, dentro da medida da equidade e da justiça, de um conhecimento superior sob ideário cristalino de bondade e perdão. Só assim ousaremos alcançar a paz autêntica, a tranquilidade e a perfeita convivência com todos os nossos irmãos. E os três mil seres humanos ceifados naquele terrível 11 de setembro não terão morrido em vão.


CDL/BSB, 08.09.11


 

EDUCAÇÃO, CIÊNCIA, PROGRESSO E O ENIGMA CHINÊS, PARADOXOS E PARADIGMAS DESAFIADORES


  S
oa-nos sempre incompreensível aquela questão de que nascemos todos para ser feliz porque a terra nos foi doada como território onde praticar nossas aventuras rocambolescas. Destruímos o ambiente e agora queremos mover os céus. Nascemos para ser felizes ou para sobrevivermos num mundo que nos é hostil? Inutilizado nosso habitat acharemos pouso lá fora nas estrelas?

Eis o grande pesadelo dos cientistas, a procura pela razão do absoluto, naquilo que eles vêm denominado a Teoria do Tudo, na qual todas as coisas serão finalmente explicadas. Temos, então, garantida a abertura do portal Infinito.

Pouca gente sabe, senão a casta dos próprios cientistas e pesquisadores, nesse metier entre antropologia, astronomia e filosofia, que nós, a raça humana, ou a civilização de que tanto nos vangloriamos, na classificação galáctica não passamos da Classe O, isto é, apesar de toda nossa suposta parafernália tecnológica, dos carrões, da Torre Eiffel, da genialidade de Einstein, dos incríveis avanços da China e do Japão – pasmemos todos: não valemos coisa nenhuma se competirmos com as chamadas mega civilizações galácticas ou estelares.

Segundo Michio Kaku, em seu “Física do Impossível”, estamos há muitos anos-luz de uma civilização superior. Em outras palavras, para o Universo não passamos de pigmeus, ínfimas criaturas, que ainda usam combustível de carvão, ignoram o aproveitamento de outros tipos de energias, matamos pra sobreviver e por ânsia de poder, abundam nações submetidos à pobreza, povoamos o mundo de armas, monturo tecnológico. Enfim, não somos indivíduos preparados para morar nos paraísos estelares.

Despreparados vírgula, porque existem os japoneses e os chineses. Eles avançam a olhos vistos. Há pouco vimos como agem os japoneses ao responderem ao cataclisma que sofreram: reconstruíram um aeroporto totalmente destruído em um mês! O governo chinês envia hordas e hordas de estudantes para estudarem nas melhores universidades da Europa e Estados Unidos.

Enquanto isso, nós habitantes do baixo clero mega civilizatório nos damos ao luxo de ficar construindo estádios de futebol, para sediar copas, encher os bolsos de empreiteiras desonestas e pagar luva a políticos corruptos.

Urge que aprendamos com esses supostos amarelos, corramos para um futuro melhor, não apenas com a bola no pé, mas com o pé no amanhã, em busca das estrelas. Se não quisermos ficar de mão abanando, com o pé na bola, mas comendo grama.


CDL/BSB, 24.06.11


O SER HUMANO NO MUNDO, A EDUCAÇÃO NO BRASIL: É A CIRANDA DA VERGONHA

        Não se sabe o que é pior: se os fenômenos naturais que abalaram o mundo ou o vilpêndio do comportamento humano nesse limiar do século XXI.

É que o ser humano se comporta mal tanto na sociedade, co-partícipe de suas atividades, quanto no agir perante os condutos naturais de manutenção e aproveitamento da natureza como bem comum, inclusive quanto a seu habitat, exclusivo por destinação cósmica.

De si, a natureza já respondeu, demonstrando seu furor à indignidade da mão humana, fez a terra tremer em deversos locais, arremessou ondas gigantescas com tsunames avassaladores no Japão. E continua sua vingança através dos tufões e furacões, levando o terror climático a várias regiões na terra do Tio Sam. Espécie de pré-apocalipse.

E o ser humano - esse suposto homem cordial, aqui dos trópicos ou da Europa, do também suposto mundo civilizado, d'além-mar - o que fazem? Depois de depredarem a mãe natureza, filhos ingratíssimos que são, voltam-se contra si próprios, infernizando seus irmãos, expelindo infâmias.

O que faz um homem todo poderoso como esse Presidente do FMI cometer atos abomináveis, assédios sexuais, estupros, a ponto de ser preso em Nova York, sob denúncia da camareira, uma queniana negra e pobre? Acontece que ele é inveterado, tem extenso currículo de práticas sexuais ilícitas, ao redor do mundo.

Nos States eis que explode outro escândalo, desta feita do ex-Governador da California, o ator exterminador do futuro, o mais famoso troglodita hollywoodiano Schwarzenegger, em vergonhoso imbróglio familiar, divórcio e outros quejandos.

O chefão francês do FMI, se culpado, pode pegar 25 anos de cadeia,segundo a lei penal americana. Já o brucutu austríaco, naturalizado americano, vai ter seu patrimônio depenado, pois outros casos similares surgem, o sujeito é tarado mesmo.

Enquanto isso, em nosso País, se a economia parece fluir adequada, inadequados se apresentam os comportamentos dos políticos, aliás, como sempre, cediços na falta de ética e sobretudo no manuseio do erário público. Nossos homens públicos continuam fazendo da política um negócio particular. Haja vista as últimas ocorrências envolvendo os Ministros da Fazendo e o da Previdência. Onde está a transparência de certos atos praticados por esses mandatários oficiais em suas pastas?

Mas o que mais nos estarrece vem da educação, desse contraditório MEC. A última pérola vinda das entranhas burocráticas daquele órgão é criar o preconceito linguístico - isto quer dizer que, assim como há o de raça,cor, credo e opção sexual, há o que acaba de estabelecer os mandantes da educação: o tal preconceito quanto à linguagem. Em outras palavras: cada qual tem o direito agora de falar como quiser ( e certamente escrever, por que não?), O brasileiro agora - segundo o fantástico MEC - pode falar "os livro", "Nós pega um peixe". E se alguém reclamar é preconceito linguístico!

Imaginem que o MEC distribuiu um livro chamado "Por Uma Vida Melhor", de uma suposta educadora Heloisa Ramos em que difunde essa funesta teoria, nada menos que a crianças da rede pública de ensino! As crianças brasileiras agora podem falar e escrever como quiserem - "Nós pega peixe", "Nós temo os livro", "Menas", "Presidenta" - e outras barbaridades.

Que se danem os bons escritores, o português correto, a escrita elegante e inteligente. Viva a boçalidade! A linguagem petista! Está proclamado o caos geral e irrestrito!


CDL/BSB, 24.05.11


DOS ESPONSAIS REAIS Á BEATITUDES, DO   TERROR  À   GRAÇA   EDIFICANTE

 

DEPOIS do casamento real – o Príncipe Williams de Windson e a plebéia Kate Middleton – Londres engalanada para os esponsais da corte, mesmo assim o mundo não deixa de girar.

Não girará como a Roda da Fortuna, certamente, tantas são as turbulências que afligem o mundo contemporâneo. Perguntar-se-á: Terá Deus se afastado de sua criação? Certa corrente de teólogos afirma que sim – mas, um fato parece proteger nosso mundo abandonado: o contínuo fluir da misericórdia divina. Senão como suportaríamos o louco rodopiar de reviravoltas que o nosso mundo dá?

Implicações apartes, se é que nos surpreende o afastamento planejado de Deus – o que significa esse brotar constante da graça nesse nosso mundo de contradições e violência, por exemplo, ao presenciamos a benevolência que foi a beatificação pelo Vaticano de João Paulo II? Pois Karol Woitila, aquele humilde rapazola que conviveu com o horror nazista na Polônia, que ainda muito jovem perdeu seus pais, fazia teatro e optou pela Igreja – tornou-se Papa e governou a Igreja Católica por cerca de 27 anos! E hoje – rejubilemo-nos todos, para gáudio dos fiéis – doravante será venerado, com justiça, por sinal, graças à compreensão e ao espírito estratégico de seu sucessor na Cátedra de São Pedro, nosso autêntico Bento XVI, embora a contragosto de alguns, não de seus pares, mas de desafetos gratuitos, cujos nomes nem precisamos declinar, teólogos supostamente inovadores, muitos até já foragidos da Igreja, às turras com seus fundamentos teologais. Espécie de novéis apóstatas.

A maior das missões de João Paulo II, à testa da Igreja Católica, foi, não há negar, ter desmantelado o comunismo de seu bumper inexpugnável no qual se aquartelara durante décadas para agir no mundo, desde que os bolchevics  tomaram o poder na Rússia Soviética.

É claro que as ações de João Paulo II não se limitaram a isso, mercê de seu carisma pessoal e sua extraordinária capacidade de se comunicar e interagir com seus fiéis. O Vaticano se rejubilou com beatificá-lo, não sem razão, dada a influência que ele exerceu durante seu múnus pontificial , tanto que foi cognominado João de Deus. Sabe-se que sua beatificação decorreu depois de comprovado milagre beneficiando a freiraMarie Simon Coëur.

Enquanto sagra-se um beato à veneração coletiva, ontem, no Paquistão – segunda revelou Barak Obama, presidente dos Estados Unidos –Osama Bin Laden, o terrorista mais procurado do mundo, foi morto, em ação militar fulminante empreendida pelos States.

Que conexão existe entre as duas ocorrências? Coincidência, aviso ou demonstração profética da misericórdia divina agindo subrepticiamente – espécie de subliminar de que o Bem sempre vence o Mal?

O que for, é de concluir-se que – talvez prevalecente também para nossos tempos o princípio da incerteza que governa o mundo quântico – vivemos um período de grande inquietação, aqui e ali, no limiar do horizonte sempre se delineia uma trilha de esperança, uma luz no túnel de nossa existência.

Quem sabe não seja essa a maneira de Deus nos dizer que, ao entregar o mundo para os cuidados dos seres humanos, Ele não nos abandonará nunca, pois um novo Paráclito, a misericórdia há, sempre, de nos prover para onde vamos.

 

CDL/BSB, 3.05.11


PANORÂMICA MUNDIAL, SÁBIAS
LIÇÕES DA
LITANIA DE UM POVO E O ADVENTO
DA BARBÁRIE

Silenciaram os vaticinadores e futurólogos de plantão. Os últimos oráculos nos advertiam de que os americanos perderiam a hegemonia no mundo, aliás confirmado pelo próprio Presidente Barak Obama, nessa mais recente crise no Oriente Médio. No caso da Líbia, os EUA prescindiriam de comandar os ataques ao ditador Muammar Kadafi, em favor da OTAN, cooptando o consenso mundial, ao invés da ação unilateral, como no Iraque. Agora quem se arroja é Sarkozy, da França, juntando forças com Cameron da Inglaterra. A Alemanha vira a cara, lavando as mãos – de burguesa honesta ou com culpa no cartório das contendas político-econômica internacionais que já criou?


Ali perto, prolongamento da Calábria, Berlusconi, o quixotesco primeiro ministro italiano, se vê em palpos de aranha, amigo do ditador líbio, ele próprio envolvido em escabrosos escândalos sexuais, querendo negacear.

São os atos e fatos, não muito diferentes de outros arquitetados em tempos passados, através de cujos artífices tem sido construído o monumental edifício da civilização humana, paradoxos que se renovam, a cada gosto, estilo e conveniência, em torno de idéias, forças e desideratos, à força de interesses, coexistência ou proficiência existencial. Esse ritual que constitui a mobilização do ser humano em busca de um caminho que lhes torne possível amoldar-se ao mundo, domar-lhe os entreveros, na ânsia talvez inócua de querer transformá-lo em paraíso.

Panoramicamente este é o mundo em que vivemos. Conflitos e mais conflitos, financeira, econômica, política e humanitariamente. Por debaixo de tudo, espécie de fogo morto e quem sabe mais vivo do que morto, uma enigmática Irmandade Mulçumana, a sobressair, mediante declarações subreptícias de constituição de um estado subordinado às leis islâmicas – Maomé redivivo, em pleno século 21, da tecnologia avançada, de nossa arrancada às estrelas, da descoberta da vacina anti-câncer por um médico brasileiro e outras supostas maravilhas?

Por um lado. Na outra ponta essa hecatombe inominável que quase varreu o Japão do mapa, um formidável tsuname, depois, de quebra, o terror causado pelo escapamento de radioatividade provindo das usinas nucleares atingidas, com conseqüências imprevisíveis. Em qualquer parte do mundo, seria um deus-nos-acuda, no Japão uma demonstração impressionante da população de resignação, coragem e dignidade no sofrimento. E como que parodiando a contradita cristã paulina – de que é na fraqueza que eu sou mais forte – o povo já começa a se reerguer dos escombros. Uma estrada rachada em sete dias é reconstruída sem deixar vestígios! É a sábia litania de um povo que sabe perfeitamente a medida do sofrimento e como superá-lo, sem a histeria dos oprimidos, eternamente julgados coitadinhos.

Dir-se-á que a horda de barbárie avança no mundo. Como contê-la? Só o futuro nos responderá, no seu casuísmo imponderável.

Segundo a teoria do evolucionismo crístico, preconizada pelo sábio Teilhard de Chardin, a marcha do mundo é irreversível para o Ponto Ômega, a perfectibilidade do ser humano. O que a teoria não explica é à custa de quanta dor, sofrimento, destempero e desumanização a que a humanidade ainda terá que se submeter até superar seu comportamento de destemperança e egoísmo no habitat que lhe foi destinado.


CDL/BSB, 05.04.11


ATOS, FATOS E ARTÍFICES: ANNUS
HORRIBILIS,
ENQUANTO O CINEMA NOSSA
ADMIRABILIS ARTIS

Após a tragédia da Princesa Diana, 1997, a rainha Elizabete II, fez uma declaração subliminar, a de ter vivido Annus Horribilis. Com as devidas proporções, a passagem 2010 2011, nos fez viver uma espécie de Annus Horribilis tanto foram os desastres que desabaram sobre nosso País, borrascas e mais borrascas, desabamentos, alagamentos, infortúnios coletivos e outros quejandos, sejam fenomênicos ou pelo curso mesmo da violenta mão humana.


Sem falar que um ciclone social e político de conseqüências devastadoras varre, por esses dias, o mundo arábico, com o ditador de 30 anos sendo repentinamente apeado do governo do Egito pelo povo – a idéia de liberdade se espraiando como um rastilho de pólvora, no Oriente, suspiros populares em prol de regimes democráticos e igualitários.

São os atos e fatos, não muito diferentes de outros arquitetados em tempos passados, através de cujos artífices tem sido construído o monumental edifício da civilização humana, paradoxos que se renovam, a cada gosto, estilo e conveniência, em torno de idéias, forças e desideratos, à força de interesses, coexistência ou proficiência existencial. Esse ritual que constitui a mobilização do ser humano em busca de um caminho que lhes torne possível amoldar-se ao mundo, domar-lhe os entreveros, na ânsia talvez inócua de querer transformá-lo em paraíso.

É nesse cenário de quase reconstrução, de Mubaracs, Obamas e Kadafis, gregos e troianos militantes, quando a impudicícia de um iluminati tinge o horizonte italiano, políticos vociferam suas politicalhas em vários rincões, os ditadores vêem seus privilégios tremerem, nestas prelibações e devaneios etílicos pré-carnavalescos – é sim, nesse outro écran que nos deparamos com outro tipo de catarse coletiva, não menos nefelibata, mas que nos faz enlear num dos mais belos e extraordinários instrumentos de encantamento e diversão, criados pela inteligência, a consolidação da arte à magia da virtualidade cênica, o consórcio performático da emoção à razão, do humano com a imaterialidade simbológica. Evidente que falamos do cinema, a arte cinematográfica, a emoção que sempre nos causa assistir a um filme, na tela grande ou telinha. Não vamos ao cinema simplesmente nos divertir. Também, mas nos enleamos na penumbra de sua evanescência para reviver nossos sonhos, reprimidos ou libertos, autênticos ou mentirosos, fantásticos ou realistas, desde que nos coloquem a alma na mais doce das plenitudes: a catarse de nossas vidas.

Dentre em pouco veremos o faustuoso, mas sempre fadigoso ceremonial hollywoodiano da entrega do Oscar/2011. Este ano, a safra de filmes tem sido das mais profícuas, produções de mérito, dentre as quais citaríamos pelo menos três: o Vencedor, Vontade Indômita e O Discurso do Rei.

Enfim, para nos precavermos contra a maledicência, o compadrio público e a frivolidade mental que reina soberana entre o rei seus acólitos e, para que pérolas não sejam lançadas aos porcos, compremos nossas entradas e assistamos o fantástico desempenho de um destemido boxeador, um velho cowboy bêbado, ou a estória de um rei gago que um médico farsante ajudou a discursar em público. Aos vencedores e vencidos, a Ilíada e Odisséia do cinema.

CDL/BSB, 20.02.11


DA FELICIDADE NESTES NOVOS TEMPOS, FAZER E AGIR BEM, SER FELIZ POR SI E PELOS OUTROS

Nick Vujicic é americano, tem 25 anos, não tem pernas, nem braços, não passa de um simples tronco, um homem/tronco. Este homem/tronco ou tronco/homem fala, sorri, surfa, faz palestras, é feliz, acredita em Deus e nunca maldiz da sorte e nem da vida.


Quantos por ai, neste nosso suposto maravilhoso mundo, com dois braços, duas pernas, não vivem insultando a vida, maldizendo a sorte por não ter nascido rico, não possuir carrões, morar em belas mansões.

Quantos não existem por ai nesse mundo afora – inclusive em nossas plagas – que utilizam as pernas e os braços para roubar, matar, fugir do trabalho, das responsabilidades, ficar a toa, zanzando pelas ruas, bares, pervertendo-se.

Por que será que umas pessoas são felizes e outras não?

O que é isto a felicidade?

É o que nos perguntamos nestes primeiros dias do Novo Ano, neste iniciar de 2011. O exemplo desse rapaz é extraordinariamente gritante. Como se pode ser feliz sendo, como ele, apenas um tronco andante e falante?

Nick não culpa Deus por ser assim, por ter nascido sem os membros, por não passar de uma metade de ser humano. Pelo contrário, ele ainda se diz agradecido pelas coisas que pode fazer – uma delas é motivar as pessoas.

Não será uma grande lição para nós, nós, a quem Deus deu duas mãos e dois pés? Não será ele – essa metade de ser humano em que ele se reduz nesta vida – um testemunho de que existe uma força maior que nos comanda, que o torna assim feliz e faz com que não blasfeme contra tudo, contra Deus inclusive?

Adentramos num novo ano, cumprimos um novo tempo, uma nova vida nos espera neste limiar de aurora. O que ele nos reserva, não sabemos. Uma coisa é certa: não podemos desistir.

Certa vez Winston Churchil, o grande premier inglês que desafiou o poder nazista, declarou: “A palavra impossível não existe em meu dicionário.”

Nosso país? Não sabemos se está bem, se vai melhorar, se percorre o correto caminho.

Vem-nos à mente a atitude recente de um prelado, D.Manuel Edmilson Cruz, Bispo de Limoeiro do Norte. Acaba de recusar homenagem que lhe concedia o Congresso Nacional – a outorga da Comenda de Direitos Humanos D. Helder Câmara – em repulsa ao aumento exorbitante que os congressistas se deram a si próprios, por desfeitear, como declarou o Bispo, a figura impoluta de D.Helder.

Essas são as figuras que nos devem servir de exemplo para esses novos dias e paradoxais tempos e costumes com os quais convivemos: Nick Vijicic, o homem/tronco e D. Manuel, a implacável voz da consciência coletiva que clama pela razão e pela justiça.

CDL/BSB, 16.01.10


ATAQUES CIBERNÉTICOS, INFORMAÇÕES VAZADAS, LOUCURAS VIRTUAIS – MARAVILHOSO MUNDO NOVO?

Aldous Huxley (1894-1963) é aquele autor inglês que, dentre tantas outras obras, alcançou grande notoriedade com o livro “Maravilhoso Mundo Novo”, onde profetiza a futura sociedade humana totalmente controlada e monitorada pela tecnologia. O ser humano perde sua liberdade e passa a ser um simples número, títere do Big Brother, o supercomputador central.

Será que tal vaticínio não está prestes a tornar-se realidade? Afinal de contas, o que significa essas, que definiremos, loucuras virtuais que presenciamos em nossos dias? Por que ocorre esse verdadeiro furor traumático gerado por esse extraordinário ente/instrumento que constitui o computador, cérebro, corpo e alma da explosão da informática no mundo, sob cujo império hoje nos submetemos? Como se sabe, o computador deu lugar à novíssima ciência da informática e desta – através de um notável e surpreendente vazamento do sistema militar americano de segurança, nasceu a poderosa Internet – espécie de teia de aranha de informação, daí o termo inglês Web, que se alastra de forma planetária, supostamente independente, autônoma e incontrolável. Tudo é possível para este mais novo Poder. Será também imune ao bom senso, à racionalidade?

Sob outra ótica, será que esse maravilhoso instrumento, criado pela inteligência humana, não pode se tornar um meio de comunicação que vise o bem da humanidade, a melhoria dos relacionamentos sociais, culturais, políticos, econômicos e financeiros, veículo por onde fatos, atos e todo o desempenho da sociedade humana assumiriam absoluta transparência?

Eis hoje o assunto mais badalado na mídia, em âmbito internacional: o vazamento de segredos pessoais e governamentais – cerca de 250.000 – divulgados ilicitamente por canais virtuais da Internet, precisamente um site denominado Wikileaks. Este teria sido filhote da celebrada enciclopédia livre Wikipédia e criado por um físico australiano, Julian Assange personagem de repente alçado à celebridade mundial.

Num e noutro caso, é de ver-se que acendem-se os primeiros sinais de que realmente construímos, ou estamos em vias de construir, nas pegadas, embora indiretas, do arguto descortino de Aldous Huxley. Não é um computador central, o maquiavélico Big Brohter, que nos está comandando a vida, mas agora é um novo poder que surge, tão avassalador quanto aquele do Maravilhoso Mundo Novo, pelo qual e em cujas indescritíveis teias nos enleamos todos, de modo até irreversível, como se fossemos objetos, insetos surpreendidos em suas malhas malditas, sem privacidade, incomodados, nossas entranhas ou veias abertas para todo mundo.

Apenas com uma diferença – no caso que até daria alento às nossas aspirações de construção de um mundo melhor, onde a equidade, a justiça, o dever e a moral seriam imperativos categóricos porque inerentes à mentes amadurecidas: a primazia da transparência. Para não deixar que, nos relacionamentos humanos, públicos e particulares, prevalecessem a mentira, o vitupério, a estultice e a selvageria, como acabamos agora de presenciar, vindos à tona em virtude do escândalo dos segredos revelados.

Disse-o bem o velho personagem em O Tempo e o Vento, do inesquecível Érico Veríssimo: “Eta, mundo velho sem porteira!...

CDL/BSB, 17.12.10


CAÇANDO RINOCERANTES, RACISMO E OUTROS FANTASMAS IDEOLÓGICOS, SUSPEITOS LOBATO, MACHADO E EUCLIDES

Vejam só. O país que tinha tudo para dar errado, segundo Laurentino Gomes neste seu delicioso 1822, mas que circunstancialmente progrediu – hoje 188 anos depois procuram-se alimentar ranços e idiossincrasias ultrapassadas.

Se nos Estados Unidos o marcatismo impôs a caça às bruxas a supostos comunistas infiltrados nas elites culturais, em nossos País, ora sob os encantos do esquerdismo, caça a rinocerantes, do jeito que imaginou Monteiro Lobato, merecidamente o maior e mais autêntico autor infantil que tivemos.
Pois uma tal Secretaria de Igualdade Racial matraqueia regras e o Conselho Nacional de Educação censura a obra “Caçadas de Pedrinho” de Lobato. Sob que alegações? Diz o parecer desse órgão em linguajar supostamente erudito: “esteriotipia com o negro e ao universo africano” E mais: a obra do escritor faz “... representações negativas sobre a cultura popular”.
Que representações negativas são essas num escritor extremamente criativo, lido por várias gerações, interessante cuja obra é riquíssima, sobretudo dotada de alto teor de massa crítica?
O que é isto? Querem ressuscitar das cinzas burocráticas do estado novo a malfadada censura a livros, cinema, teatro – e dai passar também para as idéias?
Lembremos que paira sobre nossas cabeças pensantes – escritores, jornalistas e pensadores – um certo Conselho Regulador, criado pelo governo para controlar e normatizar a midia escrita e televisiva, sob o comando arrogante do Ministerio das Comunicações, este tomando a si as funções de dono da verdade, querendo colocar amordaça na imprensa!
Será que esses pernósticos burocratas que se arvoram de censores educacionais, sob o tacão ideológico, colocaram a carapuça como funcionários do Departamento Nacional de Caça ao Rinocerante, na fábula de Lobato e agora procuram um bode expiratório para sua estultice?
Hoje, eles alegam racismo ou “esteriotipia ao negro”, amanhã dirão,
em analogia deformada, “auditoramento à liberdade de expressão” ,
regras para o “corretamente ideológico”, em outras palavras e tirante todos os eufemismos de que se revestem o autoritarismo e o falso moralismo – o patrulhamento, primeiro da escritura, em seguida das idéias e do senso crítico que simboliza a razão.
Afinal, o que querem esses novéis rinocerantes burocráticos? Desenterrar fantasmas? Ou fazer ressurgir, de mofentos jazigos, espúrias ideologias?
Recordemos que foi assim que surgiu o nazismo, o poderoso Goebel criando a censura na Alemanha para que todo mundo idolatrasse o fuher e, de revés, levados aos fornos nazistas milhões de judeus para proteger uma suposta etnia superior, o arianismo.
Censurar obras clássicas sob qualquer pretexto, amordaçar a imprensa, estabelecer cotas disso e daquilo, seja de cor, tamanho, ou beleza como passe para ingresso no que for, universidade emprego, tudo significa discriminação, fonte inevitável de conflitos. Pois o que deve prevalecer não é a cor da pele, mas a inteligência, a capacidade, massa encefálica. Aliás, coisa que está faltando em muita gente.

CDLQ/Rio, 22.11.10

É urgente: encerre-se de vez o Departamento Nacional de Caça ao Rinocerante, pois ainda hoje vige e, pior, mandando na Nação!


DEMOCRACIA, DEVER DE CONSCIÊNCIA,
-
OU LUSCO-FUSCO DA RAZÃO MISTIFICADA?


É
hora de cumprir-se, enfim, os destinos políticos do País, com a exação final das eleições. Agora só nos resta dizer maktub e aceitar o fatal decisório.
Se justo ou injusto o resultado, certamente nos dirá o amanhã com os atos e fatos que de reboque advirão, em termos de conseqüências e inconseqüências. Aqui e ali, nos interstícios do agir dos homens no mundo, um vislumbre de esperança. Do contrário será o lusco-fusco da razão, mais uma vez sob o selo da mistificação e do opróbrio.

Não constitui segredo a ninguém, senão aos desavisados e afásicos por natureza, que nossa democracia ainda se mantém frágil e fragilizada, a despeito dos louvores e atos gratulatórios das instâncias oficiais.

Antes de Cristo, Platão (428-347 a.C), o grande filosófo do Mito da Caverna já advertia que, na sua ótica, a democracia não figuraria entre os regimes de excelência, por corruptível, tanto quanto a loucura dos poetas, daí tê-los proibido a entrarem na sua República dos Sábios. Para com os poetas ele certamente foi injusto, mas nem tanto quanto à aplicação da democracia. Note-se que Sócrates (470-399 a.C), o mentor do próprio Platão, bebeu a cicuta fatal, não mediante sentença de um tribunal de direito, mas de uma assembléia popular onde prevaleceram os votos de pessoas despreparadas e invejosas.

Pilatos no rumoroso processo de que o Mestre Jesus foi vítima, ao lavar as mãos, praticou um ato omisso, o voto de alienação, o que condenou o Nazareno ao sacrifício infamante da Cruz.

A democracia que temos é a possível bem aos moldes leibnizianos, espécie desse pequeno, mas significativo descalabro que é votar no menos pior. Ou à falta do melhor vota-se no menos ruim, o que está a léguas do melhor, do excelente, do ideal?

Não há outro caminho, no quadro atual em que nos encontramos, ou exercemos nosso suposto dever de consciência, assumindo o risco de eleger o menos ruim ou lavamos nossas honoráveis mãos, pelo voto de omissão, o que não deixa de ser uma opção válida, posto que impregnada de iracunda rebeldia.

Duas eminentes figuras nos vem à baila neste instante, cujas palavras traduzem a circunstância em que vivemos. Primeiro a do filósofo Fábio Konder Comparato, ao declarar recentemente à revista Caros Amigos: “Nós nunca tivemos democracia até hoje, porque democracia signfifica soberania do povo.” O outro chama-se Ruy Barbosa, este a nos trazer uma profunda reflexão: “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.”


CDL/BSB, 29.10.10


LITERATURA, O QUE É, PARA QUE SERVE
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ARTE, CULTURA, EMOÇÃO OU MUNDO CÃO?

De uns tempos para cá, o Brasil tem assumido cada vez mais a posição de um pais surrealista. Adota exóticos procedimentos éticos e sociais, o povo aceita os mais diversos, difusos e confusos maneirismos, que se traduzem, entre outros, no exercício apócrifo da política e na condução anódina da justiça. Dispensam-se os exemplos concretos, por sua obviedade.
Parece que o tal homem cordial levou muito a sério sua cordialidade endêmica, a coisa subiu à cabeça e desembestou-se. O brasileiro agora se traveste de palhaço ideológico, aceita teorias espúrias, aprova bravatas e alista-se como militante de bandoleiros de meia tigela.
E como se não bastassem os desmandos da politicalha que mantém o poder sob o relho vermelho – agora nos empurram essa novel empulhação de fazer literatura como quem cata lixo e destampa dejectório.
Pois é, a onda atual de nossos literatos é vagar no veracismo literário – a chamada literatura-verdade, verdade aqui sinônimo de mundo cão para cuja descrição usa-se e abusa-se de termos chulos, do palavrão, da violência escrita, do chavão pornográfico e outros afins, característicos da norma inculta.
Veja-se, por exemplo, o que disse certa escritora badalada pela crítica dita de vanguarda, em recente entrevista a uma publicação da Revista da Livraria Cultura:

“Não acredito que a literatura possa ter uma função, que ela possa ser uma possibilidade de reflexão, de alteridade. Literatura é literatura, não tem função nenhuma e você não pode esperar isso dela.”


De acordo com essa senhora – que é por sinal a autora do livro “O Ladrão de Cadáveres” – a literatura não tem função, não remete a qualquer reflexão, nada se espere dela, em outras palavras, é um artefato inútil, o livro é para ser lido e jogado fora. Literatura? Não serve para nada.
Nada mais falso, posto que até infamante, por desprovido de nexo, quando o assunto é literatura. A palavra vem do latim litteris e significa letras. Em latim, refere-se a uma instrução ou um conjunto de saberes ou habilidades de escrever e ler bem e se relaciona com as artes da gramática, retórica e poética. Por extensão, é a arte ou ofício de escrever de forma artística.
Observe-se esta definição contida no Dicionário Conciso de Oxford, citado na Enciclopédia Britânica: “... escritos cujo valor repousa na beleza da forma ou no efeito emocional.”

Tem sim, Dona Patrícia Melo, literatura não é um mero joguete de escriba mal formado. Literatura é um conjunto de idealidade sócio-cultural, representativa de um povo, uma nação. Ela não é apenas uma atividade subalterna de um escritor solipsista e egocêntrico, que expele sua escritura como quem expele dejetos, – segundo outro autor também veracista – mas um fazer estremamente artístico cujo escopo é buscar o belo sob a égide de valores éticos e estéticos. Foi com base nessas idealidades que surgiram os grandes vultos da literatura universal, um Shakespeare, um Tolstoi, um Dostoievski, um Miguel de Cervantes, um Balzac, e inúmeros outros. De fala portuguesa, lá do outro lado do mundo deparamo-nos com Luis de Camões, Eça de Queiroz e Fernando Pessoa, enquanto cá, verbalizando em nossas plagas tropicais vislumbramos Machado de Assis, Rui Barbosa, Coelho Neto, Humberto de Campos, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meirelles e muitos outros luminares das letras.
Para nós, merecedores de justiça que ainda confiamos na boa vontade entre os homens, assim como nos repugna a vã politicalha, também repudiamos o torpe fazer na literatura.

CDL/BSB, 05.10





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