Arquivo de Cinema

Muito Além de Rangun


Beyond Rangoon, Grã-Bretânia, 1995 - Direção: John BoormanProdução: Castle Rock International - Roteiro e diálogos: Bill Rubenstein, Alex Lasker e John Boorman - Fotografia: Jonh Seals - Montagem: Ron Davis - Elenco: Patricia Arquette, Aung Ko, Frances McDormand, Spalding Gray. VII Mostra Banco Nacional de Cinema. Laura Bowman (Patricia Arquette) é uma médica americana que, a conselho da irmã Andy (Francesca McDormand, a esposa amargurada de Mississipi em Chamas), parte em turismo pelo Sudeste Asiático. Ela havia perdido marido e filho, barbaramente assassinados dentro de sua própria casa. Logo ao chegar em Rangun, capital da Birmânia, atual Mianmá, em vez da paz que procura, depara-se com o caos social que ali se instalou, resultante do golpe militar de 1962. O filme se passa em 1988. Retrata a repressão ao movimento oposionista liderado por Aung San Su Kyi, que deixou marido e filho na Inglaterra e veio protestar contra a ditadura em sem país. Rangun está seriamente ameaçada. Mas para além de Rangun, ou do regime militar comunista instalado na capital, encontra-se toda uma tradição milenar, ou a eternidade do ideal de liberdade. É para onde a americana parte com U Aung Ko, ex-professor universitário, perseguido pelo regime, agora um simples guia turístico. O diretor Boorman quis mostrar, nas cenas duras em que os atores horoicamente refocilam na lama, o sofrimento de uma nação, quis levantar um pouco o véu do mistério dessa sociedade, que Rudiard Kipling tanto elogiou como sendo de natureza ímpar, um povo limpo convivendo com muito verde. Certamente foi ali que o escritor se inspirou para criar seu famoso Mowgli, o menino da selva. E são as crianças birmanesas que Boorman coloca para ajudar a americana na sua intenção de salvar U Aung Ko. Diante da graça nativa e igualdade social que encontrou na vida birmanesa, o historiador G.E. Harvey escreveu em British rule in Burma ( O Governo Britânico na Birmânia) que há, na vida birmanesa, não somente uma beleza que deleita os olhos, mas também uma dignidade que faz com que a pessoa sinta orgulho da raça humana. E é isso tudo que Laura se esforçar ao máximo para salvar, ajudando a pessoa de U Aung Ko, de repente descoberto como guia sendo outra vez perseguido pelos militares. E os perigos que passam juntos tornam o filme eletrizante. Tudo o que acontece diz respeito também a ela própria, a restauração da dignidade perdida com a violência que sofrera, na sua casa. Na vida real, a resistência ao regime militar começou com uma frágil mulher, Augn San Sukui, filha do Primeiro Ministro birmanês deposto e assassinado na sede do Parlamento, juntamente com todos os integrantes de seu Gabinete, em 1947. Kyi veio da Inglaterra disposta a fazer uma peregrinação pelo seu país, em defesa da liberdade e contra o regime de opressão. Torna-se grande líder, é perseguida e mantida em prisão domiciliar desde 1988. Libertada em 1995, ela partiu para um movimento de reconciliação nacional. Em 1991, recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Laura chega a Rangun justamente no dia do regresso de Kyi à Capital, onde é saudada pelos rebeldes como heroína. Logo intensificam-se os conflitos e o filme mostra o período de perseguição aos oponentes do regime, na maioria estudantes. A turista americana assiste apavorada as chacinas dos manifestantes desarmados que morriam como moscas, pior do que a que se deu na praça da Paz Celestial, em Pequim. Os populares que tentam atravessar a fronteira por uma ponte de madeira, em desesperada fuga para alcançar a Tailândia, são metralhados. Poucos escaparam, inclusive Laura carregando U Aung Ko ferido, a quem como médica estava tratando, a duras penas. O horror fica mais trágico quando se sabe que toda violência aconteceu contra um povo pacífico, entre outras coisas por conta de sua fé, originária do Thalaveda, da linha budista. No passado, eles haviam rejeitado o budismo, para seguirem uma doutrina em que os homens nascem iguais e livres. A certa altura, quando Laura visita um mosteiro nativo e espanta-se com o estado de alheamento dos monges, em atitude de prece, U Aung Ko lhe esclarece que eles não estavam rezando, mas meditando sobre eles próprios.(VMV)

<--- Voltar para o Arquivo


Imprima esta página! | Recomende esta página!