quinta-feira, 23 de março de 2017











              MUNDO  MELHOR :  É POSSÍVEL?


         Tempos atrás – já lá se vão mais de seis décadas – ficou célebre no redil católico de então, um curso intitulado “Por Um Mundo Melhor”. O curso recebia o apoio da Igreja, através do Pe. Francisco Marins, e, em Natal, onde  quem estas linhas subscreve residia à época, o supervisor geral era Padre Nivaldo Monte, inigualável comunicador.
             Na verdade, as matérias do curso versavam sobre a Doutrina Social da Igreja, com a finalidade não só de divulgar seus ensinamentos como formar bons militantes. E a conclusão final era instruir os participantes e prepará-los para o discipulado de um novo mundo, um Mundo Melhor.        Pessoas há, hoje,  mesmo nas hostes católicas, que não acreditam nesse chamado Mundo Melhor, mas, sim, num apenas possível. Aliás, explique-se que a denominação parece nada moderna, pois é atribuída nada menos que ao cientista, matemático, historiador, diplomata e filósofo alemão, Gottfried Whilhelm Leibniz (1646- 1716), segundo quem, através de sua teoria das mônadas, o Ser Supremo teria escolhido para ser nosso mundo, o melhor dos mundos. Mas, como seria inatingível o melhor dos mundos, temos de nos satisfazer, em tese, com o Mundo Possível.  Mundo possível esse ridicularizado por Voltaire, em seu inócuo “Cândido”.
                Nada mais ajustável ao nosso supostamente Moderno Mundo. Como decantar por um mundo melhor, quando vivemos momentos de angústia e completa desrazão da parte dos homens, a despeito de toda a parafernália de que são  dotados, num afã consumista tresloucado de tudo possuírem e  se moverem unicamente pela sede de viver, sem objetivo, senão o de se tornarem  donos de si mesmos e do mundo, vivendo o famigerado viver sartriano?
              Em denúncia profética de 1967, um ano antes de falecer, um dos maiores filósofos brasileiros, Mário Ferreira dos Santos, publicou o ensaio Invasão Vertical dos Bárbaros, no qual dizia já assistíamos, àquela época. uma invasão vertical de bárbaros a penetrar na cultura, inclusive entre os intelectuais, músicos que defendiam vida desregrada ou artistas que zombavam da estética. Antes, em 1956, Volume VII de sua Enciclopédia de Ciências Filosóficas  e Sociais, publicou a obra Filosofia da Crise, em que fazia uma exegese completa do que seria a Crise, suas consequências no mundo e como superá-la.
                Reflitamos hoje sobre o que acontece no mundo, nesse mundo chamado globalizado, a aldeia global, onde tudo se vê e de tudo se participa instantaneamente.  Desconfiança geral, terrorismo viralizado no mundo afora, incerteza do futuro, desequilíbrio cultural entre as nações, inclusive em termos de instrução, educação e conhecimento. Sem falar na fome e nas doenças que grassam nas populações menos afortunadas. A ONU divulga há poucos dias o chamado Índice de Felicidade entre as Nações. O País mais feliz é a Noruega, o primeiro no ranking, seguindo-se Estados Unidos (14º) e Reino Unido (19º). E os mais tristes, Ruanda, Síria, Tanzânia e Burundi, a última República Centro-Africana. O Brasil emplaca o 22º, caindo de 17º em 2016.
Então nos perguntamos, o que pode significar esse cenário? É a riqueza que nos faz mais felizes, sua falta, a pobreza, a infelicidade? Mas por que há paradoxalmente tanto suicídio nos países bálticos, dentre os quais a “feliz” Noruega? Soubemos por via de uma informação cultural que na Romênia, país extremamente pobre, onde há até leprosos transitando nas ruas, mesmo assim é um povo que cultua seus valores históricos e tratam os turistas com a maior urbanidade. Coisa, por exemplo, de que os turistas se queixam muito que falta aos franceses, principalmente os taxistas.
E no que se refere ao nosso País, o que dizer, se nossa educação só tem decaído ao longo do tempo? Os estudantes brasileiros escrevem, mas não entendem a escrita, resvalam na matemática, uma boa parte da população é analfabeta funcional, justamente por falta de entendimento. E nossos supostos eruditos? Onde se escondem? Pesquisadores, a chamada e tão decantada inteligência nacional, os hommes-des-lettres, os nossos philosophes?
                Sobre tais assuntos, que são espécie de tabus na nossa Pindorama, nos contrapomos exibindo escritores modernosos que adotam o viracismo como gênero literário, o super-realismo na escritura, filósofos de carreira, eruditos, filósofos e cientistas fantoches, blasonando cientificismo e ideologias. Quanta ao grau de nossa felicidade, que se vão às favas o prazer interno, a beleza interior, ser honesto e ter um sentido na vida – para isto temos o Carnaval e que, afinal, Deus é brasileiro!
             Se temos ou auguramos por um Mundo Melhor, respondemos com  as palavras profeticamente sábias de Mário Ferreira dos Santos em sua obra-prima Filosofia da Crise :
“Seremos também os profetas da ressurreição humana, que há de vir”
CDL/Bsb, 24.03.17





             

Nenhum comentário:

Postar um comentário