terça-feira, 26 de abril de 2016



 

                      O AMOR CRÍSTICO À LUZ DO MUNDO ATUAL











                   
                         TEM SE tornado corrente no trato entre as pessoas, hoje, a desavença, o desamor e a falta de ética no trato entre as pessoas, comportamentos que quase sempre contribuem, cada vez mais, com o egoísmo e o afastamento, até mesmo entre indivíduos do mesmo lar, da mesma cidade, bairro ou prédio de apartamento. Ocorrem, por assim dizer, fatos decepcionantes, desrespeitosos, somente críveis entre seres inferiores.
Será que nós, seres humanos, que, de há muito ganhamos o foro de sapiência, por isso jubilados cientifica e espiritualmente a “homo sapiens”, agora perdemos o passo, fomos reprovados no exame final, quebramos o código de honra ao mérito e regredimos? Voltamos à condição de botocudo, o homem das cavernas?
                             Pois é esse o escabroso cenário que nos obrigam a assistir,  e mais, compartilhar e ter de ouvir vociferações as mais inócuas, absurdas, como se não bastassem os ultrajantes atos, nas telas de TV, nos jornais, revistas e também ao vivo.
O presente ano, como tem sido apregoado alto e bom som pela Igreja Católica, o Papa Francisco outorgou-lhe a santa condição de Ano da Misericórdia, na liturgia a cor branca e nos Evangelhos  a orientação de São Lucas. Nosso representante espiritual maior, o Papa Francisco acaba de publicar sua exortação apostólica “Amoris Laetitia”, que vem se juntar aos demais textos de sua lavra.
                             Embora só conhecida na Internet - a Igreja sempre morosa nas providências, quando os tempos modernos exigem rapidez e eficiência - as orientações exortativas do Papa já se espalham entre as Paróquias, aqui e no mundo inteiro, acreditamos. Tem-se como infalível o Papa em termos de dogma e Direito Canônico, ou seja,   estritamente na doutrina específica, não nas demais áreas, nas quais se incluem as exortações, as homilias e os atos apologéticos de sua função vicarial e administrativa. Por isso, em “Amoris Laetitia” o Papa Francisco apenas exorta, convida os fieis ao partilharem suas ideias, as mais adequadas para o comando da Igreja. Ele não está obrigando o fiel católico a ter misericórdia, pelo menos de forma incondicional, absoluta, irretratável, preceito inatacável, ou seja, “cláusula pétrea”, como ocorre no Direito.
                              Ora, sob nosso juízo – que não discrepa da doutrina evangélica – a misericórdia apresenta duas perspectiva: a do amor e da justiça. Expliquemos. Veja-se o significado da palavra misericórdia, segundo o Dicionário Houais: vem do latim “misericórdia, ae” =  compaixão, piedade, dó, misericórdia. Por extensão: compaixão, piedade, ato de manifestação deste sentimento, como perdão, indulgência, graça, clemência ou benefício prestado a um sofredor.
                                Do ponto de vista laico, o amor é uma manifestação psicossomática atribuída ao ser humano. Já justiça deriva da aplicação  mais justa possível do Direito, disciplinando os atos e relacionamentos humanos.
Portanto, o ser humano a rigor seria  ente amoroso, teria que demonstrar atos de amizade e fraternidade para com seus semelhantes. Na prática, porém, nem sempre o é, dada a complexidade de que se reveste a psiquê humana. A justiça, algo contrário da energia amorosa, tem sua sinergia na cogência, de cuja força se imite para garantir a obtenção e exação do que é justo, tendo´em vista as prerrogativas do Direito. Consequentemente, nem sempre amor e justiça se equalizam.
                                Na perspectiva evangélica, pensamos que amor e justiça se orientam no mesmo sentido. Mas, com um senão: amor e justiça embora  não se  equalizem, como no Direito, têm medidas diferentes e a argamassa  dessa conexão é a misericórdia. Se a justiça divina tarda, mas não falha, ela é complacente  com o pecador, menos para o pecado em si. Deus na realidade se manifesta pela misericórdia, exercida através da graça que Ele dispensou aos seres que criou.
Essa visão extremamente mística e ao mesmo tempo vinculada à vida cotidiana, deflagra-se em todo o Novo Testamento, o Mestre judicializou-a em abundância em suas parábolas e ensinamentos aos seus discípulos, quando se referiu ao “novo mandamento”: “... nisto todos reconhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor aos outros.”(Jo 13, 35, Mt 7,12; 19,19; Jo 13,34s et allia).
                               Mas o Mestre também exercitou o arbítrio da cogência jurídica, no cumprimento do dever e na punição ao ilícito, contra o aético e a favor da proteção ao sagrado, quando em ato enérgico expulsou os vendilhões da porta do templo. Se benevolente  foi com as criancinhas, os pobres e a adúltera, entretanto,  não tergiversou quando respondeu ao homem rico, que, para segui-lo, teria de se desfazer de todos os seus bens. Noutro passo, por ocasião de Seu processo infame na Pretoria Romana, responde com a dignidade de um ilibado ser, quando Pilatos O indaga se Ele era o Rei dos Judeus: “Tu o disseste.”
                                Entrementes, em recente missa na Paróquia  Cura d’Ars, em Brasília, o pároco, de origem polonesa, Padre Mário, a propósito do Quinto Domingo da Páscoa, fez uma homilia inspirada. Conceituou o que era o amor crístico, o amor que já estava programado no coração do ser humano, diferenciando-o do simples amor vigente no mundo. O cristão é aquele que ama a Deus e se solidariza com o outro na sua circunstância, mas não na sua errância, no seu pecado – isto é exercer a misericórdia para com a fraqueza do outro. Amar, ser misericordioso, todavia, não é se humilhar, se rebaixar, porque o cristão também é digno e justo, tem a perspectiva da justiça à frente. Mas – e eis o cerne da magnífica homilia do Padre naquela inspirada missa – se o outro repele aquele sentimento de entrega, significa que ele não lhe inspira confiança, não adianta tentar demovê-lo:  que o discípulo não entre naquela casa e, ao sair, limpe o pó das suas sandálias. É  desmerecida a benevolência que lhe seria atribuída.
                              Resumindo: o conceito do amor, quando exercido no nosso mundo, repleto de contradições e excessos, onde as pessoas tornam-se paradoxais em seus atos, ideias e realizações, o amor, a solidariedade e a misericórdia atuam como veículos. O amor crístico é como o sal na insólita iguaria humana, desde que condimentada na medida certa, justa, porque somente a graça resgatará um duro coração.  
  Bíb., 27.04.16







domingo, 17 de abril de 2016





MONTANHA DOS SETE ABUTRES
REDIVIVA MAS DEMOCRÁTICA





Hoje – 17.04.16 – é o dia D do impedimento do governo, o famoso processo de “impeachment” que vem se desenrolando nesses últimos dias. O fato tem se transformado numa espécie de comoção nacional, quem sabe um torvelinho, com a movimentação de multidões, grupos que se revezam, ora de um lado, ora de outro, os que são a favor do “status quo” outros que apoiam o afastamento da atual  presidente.
Desde sexta-feira, toda a mídia escrita e principalmente a televisiva, passa o tempo informando ou troando nas telinhas todo o processo que se realiza, ao vivo, no Congresso Nacional, com parlamentares, da oposição ou situação, se revesando na tribuna a explodirem suas falas, o mais das vezes arrevesada, estrambóticas, tonitruantes e alucinatórias, cada qual defendendo sua posição – algumas delas ou a se referir aos sexos dos anjos ou são alocuções de indignação raivosa, como requer a situação.
De qualquer modo é a tal transparência da democracia, ao vivo, apesar de desconcertante, monocrática e, ao fim, visionariamente demagógica. Mas, necessária. No Parlamento, o espetáculo invulgar da votação maciça do deputados, enquanto fora, na Esplanada uma multidão calculada em 300.000 pessoas invade as áreas fazendo valer, de preferência  o mais ruidosamente possível, suas indignações, aos gritos, apitos, batuques, panelaços, também acompanhados por carrocinhas, vendedores ambulantes et allia. Apenas com um detalhe realmente espantoso: a turba se acha separada por um imenso muro de 80 metros, já pelo vulgo  denominado de Muro da Vergonha.
Vêm-me à mente um antigo filme contracenado pelo grande ator americano Kirk Douglas “A Montanha dos Sete Abutres”. Douglas faz o papel de um jornalista de porta de cadeira, alucinado por se tornar famoso que se aproveita de um acidente de um homem que ficou preso numa montanha, sem saída e faz, à custo desse infausto acidente, uma verdadeira panaceia, melhor, um circo, ao qual, movido pelas notícias estapafúrdias do repórter, comparece em massa todo tipo de gente, curiosos, vendedores ambulantes, com carrocinhas de pipocas,  sanduiches, doces, marreteiros, pick pokets e outras espécies de malandros, prontos para agirem na aglomeração. Ao final, a grande decepção porque o acidentado morre, antes do resgate e nosso audacioso repórter perde, assim, sua belíssima presa.
Certamente a semelhança é mera coincidência com o espetáculo que ora se realiza no recinto parlamentar e, principalmente nos arredores, hoje a praça de guerra em que se transformou a Esplanada do Congresso, a Capital Federal – ou a Capital da Esperança como eufemiza um douto amigo.
Mais uma vez o País enfrenta um desafio. O receio é que os contrafortes da República e da Democracia resistam ao terremoto político. A despeito de tudo e de todos, que prevaleçam a justiça, o bom senso, mas nem por isso a esperança deva esmorecer nos corações dos brasileiros. Que não esqueçamos  da vetusta  Insurreição Mineira, cujo epíteto ainda hoje revive: “Libertas Quae Sera Tamen”.
CDL/BSB., 17.04.16