sexta-feira, 25 de novembro de 2016











      MISERICÓRDIA:   SUA DISPENSA

                     NO MUNDO


       Misericórdia tem sido a palavra mais utilizada no momento, pelo menos no âmbito da Igreja Católica. Não somos teólogo, longe de nós  querer confrontar os domínios do Direito Canônico e interferir na doutrina da Igreja, com cujos ensinamentos somos acordes, como seguidores de sua apologética.
                 Também não nos atrevemos a polemizar com as Escrituras, ousar discutir  suas mensagens, anátemas e admoestações, espécie de debate aberto de confrontos entre capítulos e versículos das epístolas apostólicas, às vezes na afoiteza de ali encontrar ganho para causa própria – isto já o fazem esses decoradores evangélicos, sempre apressados a aprovar suas próprias teses, em apoio às inúmeras seitas a que pertencem.
             A misericórdia – todos nós sabemos – é um dos pilares em que está assente toda a apologética cristã, a partir dos ensinamentos dos Padres da Igreja, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, notadamente. Parece-nos impossível apartar Deus da ideia de misericórdia, a imanência do mundo não ser envolvida pela transcendência, isto é, a manifestação divina ser prescindida no trilhar progressivo dos homens,  principalmente quando essa manifestação se torna eterna dispensadora da graça,  a santificante no ser humano, inclusive.
                Mas, em todo esse cenário em favor da misericórdia, reflexões de angústia nos acodem. A prática da misericórdia é possível e desejável num mundo contaminado de violência e contradições? Como ser misericordioso e praticar essa virtude crística em situações e ambientes, onde os protagonistas são pessoas desonestas, assassinas, corruptas, com comportamentos aéticos, quando não imorais?
               De outra parte, ter misericórdia é o mesmo que perdoar ou quando perdoamos estamos sendo misericordiosos? A dispensa da misericórdia, como piedade ou benevolência, implica apagar o pecado do pecador, portanto do injusto e infiel a Deus? Fazer justiça visando equalizar direitos ofendidos ou solapados, não colide, nessa circunstância, com a misericórdia, que parece se confundir com benevolência gratuita?
                Tudo isto nos vem à baila e de forma muito reflexiva, até mesmo como contradita filosófica, justo nesses dias em que nosso Papa Francisco esparge na mídia – e esta extrapola inescrupulosamente pelo mundo afora – uma série de medidas e manifestações pessoais objetivando amenizar o pecado do aborto e de outros comportamentos pessoais conflitantes com o cânone clássico da Igreja Católica, com a simples justificativa de que tais práticas nocivas serão apagadas se, por intermédio da outorga da misericórdia por um padre, a pecadora ou o pecador se arrependa.

                   Ora, se o Mestre Jesus, com toda sua dimensão divina e      mística , perdoou a adúltera cujo pecado de adultério não implica o extermínio do direito à vida, a medida parece não se aplicar, logicamente, a quem resolve eliminar  uma vida, e vida indefesa, em que se configura o aborto. Além disso, não nos esqueçamos de que o Mestre, no caso da adúltera,  foi peremptório: ... “Vai e não peques mais!”.(Jo.8, 1-11).
                   E não nos esqueçamos, ainda, que a misericórdia,  assim outorgada, mesmo sob vigilância do sacerdote, será que sua prática não tende a  ser banalizada?
O assunto é controverso, há ditas e contraditas, inda mais em meio ao torvelinho em que tem se transformado os relacionamentos humanos, a sociedade em mudança contínua, o mundo sob  pressão em todos os sentidos – haja misericórdia para tanta discórdia.


CDL/Bsb., 25.11.16

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