quinta-feira, 9 de junho de 2016






 RETRATO DE UM PAÍS JOVEM SURREAL




        Não há negar: o Brasil é, decididamente um país surreal. Não é atoa que Machado de Assis, com toda sua reverência literária declarou: “O Brasil oficial é caricato e burlesco”. E não será essa a razão por que toda sua obra tem esse viés de ironia enigmática?

            Durmamos nós outros com tanto irrealismo sardônico. Historiadores, juristas e plantonistas políticos, natos e estrangeiros – e nós também – temo-nos  surpreendidos com os fatos que se sucedem em nosso País, quase que diários.

Esboçamos, então, um retrato realmente doriangreiano do Brasil atual.
            

             (1)        O País é um misto de tradição e novidade, mas  a  todo instante                         irrompe um conflito, um ato de corrupção é descoberto pelo    Ministério                           Público;
(2)       Os três poderes constitucionalmente estabelecidos Executivo, Legislativo e Judiciário são independentes, e equilibrados entre si, mas, devido a atos ilícitos havidos, agora o Judiciário passa a agir drasticamente e intervém no Legislativo e Executivo;

(3)      Há pouco o representante do Ministério Publico avoca o direito de pedir a prisão de altos cargos da República: o Presidente do Senado, dois Senadores e o Presidente da Câmara dos Deputados, acusados de ilicitudes;

(4)       Anteriormente, dois presidentes foram afastados das funções, a da República em rumoroso processo de “impeachment” por má gestão e o da Câmara dos Deputados, por ilícitos econômicos;

(5)    Assume interinamente o vice da chapa eleita em votação, que vem se equilibrando entre reerguer a economia em queda livre e manter relacionamento com o Congresso, quase acéfalo, alguns de seus membros suspeitos em violenta operação policial – a Lava Jato;

(6)      O Presidente interino da Câmara tem se demonstrado inepto e desautorizado pela maioria de seus pares, impedido, por incrível que pareça, inclusive a presidir as sessões elencadas;

(7)    O Congresso encarrega-se de um vertiginoso e estapafúrdio processo de impeachment, ainda inconcluso, a passos de cágado, com cenas vergonhosas de achaques, debates e quejandos de mérito escuso;

(8)     Empreiteiras e políticos graúdos, encarregados de  serviços públicos essenciais, se associaram,  para criar verdadeiros esquemas criminosos de propina, o chamado propinoduto, acarretando prejuízo bilionário ao erário da Nação:

(9)        Por isso ou em sua função, o déficit oficial do Orçamento Público alcança cifras monumentais, nunca antes sequer pensadas;

(10)     Pensadores políticos cunharam vários tipos de democracia ao longo da história, como demarquia (congressistas como jurados políticos); uclocracia (a multidão é quem governa) ou sociocracia (solução comtiana positivista). No Brasil, surge agora a propinocracia que é a república formada pela chusma dos homens de “colarinho branco”.



Como se depreende, o decálogo é inconcluso, cabe  embargos ampliatórios, para reforçar os auditórios, contraditórios, oitivas censutórias e outros quejandos do juridiquês ultravigente, que, mais do que nunca, vem juridicializando nossas vidas e compelindo o sonho dos brasileiros.

CDL/Bsb., 10.06.16



  

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