sexta-feira, 21 de agosto de 2015

           DA MULTIPLICAÇÃO DOS PÃES

          AOS   FAZEDORES   DE   TUDO

 

       O Admirável Mundo Novo huxeliano agora está se tornando cada vez menos “admirável” e mais “enigmático”. Os resultados beiram a absurdidade. O formalismo kantiano parece ter imposto ao mundo um modelo apriorístico de desumanização.
O ser humano, protegido que foi pela armadura da intuição sensível baixa agora sua guarda natural e perde a luta contra o empirismo científicista. Entretanto, engana-se quem pensa que esse novo ser humano construirá um Mundo Novo. Longe disso: esse midiático ser se propõe nada menos que implantar uma nova utopia – a utopia do homem maquínico, cada vez mais desprovido de intuição e inteiramente formatado pelo modelo ideológico, responsável e demolidor,  a proclamar-se guardião apriorístico da sua existência.
                A partir desse fenômeno, de globalização formal da razão abolido qualquer resquício dos pressupostos do conhecimento sensível, a modernidade depara-se com um novo paradigma, que é o de igualar as desigualdades sociais, culturais e conjunturais. E o que vemos é o mundo entrar num processo de massificação das massas, o igualitarismo funcional, sistêmico. Em outras palavras: o ser humano troca a liberdade pela alienação, pela qual ao Estado delega-se a panaceia da felicidade humana, competindo a ele atender nossas necessidades, da existência à convivência, da imanência à supressão da transcendência. E o mundo passa a ser um campo de batalha, para cuja liça nos apresentamos sem a necessária defesa, porque o Estado nô-las roubou.  Encontramo-nos, por assim dizer, desamparados e indefesos. E pior: incapazes de exercer nosso livre arbítrio e fazer valer nossa consciência.
Será que temos, todos, consciência do que acontece conosco e com o mundo? A transição – que dizem estamos atravessando – para onde nos levará?
                Há mais de dois milênios, na antiga Galiléia, à beira do Mediterrâneo, em meio a pedras e relvas, uma multidão, de cerca de cinco mil pessoas, se reunia para ouvir as palavras de um profeta de origem judaica, humilde, acompanhado de discípulos, a maioria pobres, incultos pescadores. Chamava-se Jesus – o Mestre Jesus de Nazaré. A multidão reunida por algum tempo e vendo-a já faminta, o Mestre Jesus ordena a seus discípulos que alimentem aquelas pessoas. Mas como se eles só tinham cinco pães e dois peixes! Jesus toma os poucos pães e peixes, abençoa-os e manda distribuí-los. O fato está narrado nos Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João. É a “Multiplicação dos Pães”.
               Os partidários das ideologias de esquerda e dentre eles alguns sacerdotes católicos supostamente progressistas enfatizam que o Mestre, ali, não realizou milagre, com esse gesto simbólico. Ele, na verdade, quis passar a ideia de partilha, de distribuição, não só de pão, mas de bens, uma espécie de igualitarismo à guisa de fraternidade. Essa concepção tem sido maldosamente  espalhada pelos áulicos do socialismo, para esconder o milagre, trocando a “multiplicação dos pães” por “distribuição de bens”, vale dizer, a socialização dos bens de produção e consumo, consequentemente desvirtuando as palavras do Mestre e toda a teologia cristã. Justifica-se, assim – pela boca do próprio fundador do cristianismo – a implantação do comunismo no mundo. E pior: como apanágio civilizatório.
               A mídia e certos comunicadores imbuídos da magia ideológica têm, inclusive, se aproveitado de algumas assertivas descontextualizadas do atual Papa Francisco. Ocorreu na homilia do Papa em recente visita à Bolívia, dia 15.0715, em Santa Cruz, em cuja homilia,  sobre essa célebre passagem dos Evangelhos, (Mt 14, 13-21 e 15,29-30; Mc 6,30-40 e 8, 1-18; Lc 9,10-17; Jo 6,1-13) ele disse:
“... Por meios destas ações (tomada, benção e entrega) Jesus                          consegue transformar a lógica do descarte numa lógica de                               comunhão de comunidade.”    

                Ora, lógica de comunhão de comunidade, como disse o Papa, não quer dizer necessariamente – como os ideólogos marxistas pensam – distributismo planejado, repartição compulsória de bens materiais, enfim, socialização de bens de consumo e produção. Trata-se, portanto, de uma distorção absurda, transformar o Salvador em porta-voz de uma doutrina instituída muitos séculos depois, cujos postulados, pragmáticos e espúrios, contradizem abertamente a doutrina de Jesus. Ele, Mestre dos Mestres, de origem divina, não fez sermão ideológico, Seu reino não era deste mundo. Suas mensagens são de justiça e paz. Sua vida justifica-se pela redenção da humanidade, inclusive para cumprir profecias anteriores.
               E assim “caminha a humanidade” em sua evolução. Ou incompreensão nessa espécie de vertigem progressista, enigmática, sim, mas desumana. O mundo cada vez mais tecnológico. Mas por que se afasta tanto de seu élan simbólico, a transcendência, trocando-a por uma imanência estupefaciente, mas desumanizante?
              Se avançamos tanto em tecnologia, por que ainda grassa tanta fome no mundo? A cada três segundos uma pessoa morre de fome, enquanto 1/3 de alimentos produzidos vai para o lixo. É o levantamento da ONU.
              Segundo o Instituto Internacional de Investigação sobre Políticas Alimentares, da FAO, em 2010 mais de um bilhão de pessoas, portanto 7% da populacional mundial passa fome em regiões como a Africa Subsaariana e o sul da Ásia.
             Agora veja-se o absurdo. A população mundial cresce num ritmo de 53% ao ano. Em 2.100, por exemplo, seremos possivelmente 11, 2 bilhões de pessoas habitando o planeta Terra.
             E qual é a situação do Brasil?
             Segundo o Pnad de 2013 – Pesquisa Nacional de Amostras de Domicílios sobre Segurança Alimentar, 7,2 milhões, ou seja 3,5% da população total do País à época de 200,4 milhões (Banco Mundial), passam fome. A despeito do “maravilhoso mundo novo brasileiro” proclamado pelo PT e seu desastroso governo.
             Esse é o quadro tempestivo da fome no mundo – fome essa que decorre da condição ainda de quase eterna pobreza dos habitantes terrestres. Situação que perdura, em razão da geopolítica vigente no mundo que privilegia esse frenesi da humanidade pelo progresso e pela tecnologia.
             Não é extremamente contraditório esse furor pelo progressismo e pela técnica, com seus fantásticos resultados? Enquanto boa parte da população mundial – 7% – vive sem comer ou em extrema pobreza?
             A propósito, não serão esses os “fazedores de tudo” do amanhã?
             Em entrevista recente à Veja (2.09.15), certo tecnólogo dentre esse grupo de gurus transformadores do mundo, declarou que no futuro próximo, máquinas surrealistas estarão prontas para produzir praticamente tudo: casas, utensílios, produtos de consumo – e quem sabe também seres humanos?
             Tudo bem – mas será que acabarão com a fome no mundo?
             Conseguirão saciar, também, a fome espiritual dos homens?
  

 
                 CDL/BSB, 5.09.15
 


















VA  VIDA  TEM  SENTIDO?

 

 

Vivemos a era de apologia ao sexo, pós-liberação sexual, liberdade absoluta de pensar, agir e fazer. Palavras de ordem nos espicaçam a mente. Uma espécie de laisser faire, laisser passer nos induz que tudo é permitido, contanto que nossos inflados egos sejam satisfeitos.

Ora, Dostoievski com sua filosofia de subsolo, mas, convenhamos plena de sabedoria já nos prevenia : “Se Deus não existe, então tudo é permitido.

Figuras em mentes supostamente progressistas e tecnólogos de plantão teimam por profetizar: “São os novos tempos, é o futuro do mundo!”

Em Roma, Cícero aquele que a história oficial considera um dos romanos mais eruditos preconizou, já na sua época – “Ó, tempos, ó costumes”... Previa na verdade o desmoronamento do Império Romano, não porque demolido pela mão humana ou em decorrência de um fenômeno natural, mas, sim, devido ao desregramento  da moral e dos costumes.

Então – nós seres humanos do século XXI, como ficamos, sobre cujas cabeças pesam crimes e castigos, ao mesmo tempo, que, em contraparte, somos capazes de ascender aos altos escalões no exercício da espiritualidade, a exemplo de Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino ou de São Francisco de Assis e Santa Tereza d’Ávila?

Dir-se-á que o mundo encontra-se numa encruzilhada cuja melhor saída ainda nos é desconhecida. Melhor –  a verdade é que nós não temos tido capacidade de efetuar a escolha certa – porque até o momento nos falta a plenitude da sapiência necessária para encontrarmos o rumo certo.

Mas que rumo seria este?

Com a devida vênia, arguimos nós: é o “sentido da vida” – de nossa vida.

Um teólogo moderno, mas conservador – Pe. Paulo Ricardo – nos responde com absoluta convicção: “ o sentido de nossa vida é o céu...

Evidente que esta é a meta do cristão, a visão crística.

Mas – argumenta o Padre – “Será que é prudente a pessoa cujo o único objetivo na vida seja ficar rico, gozar de todos os prazeres mundanos, desfrutar de todas as experiências da matéria?”.

Concluímos por dizer que a prudência nos ensina, pela experiência de milhares de anos de vivenciamento civilizacional que é da índole humana buscar incessantemente o sagrado. Nascemos matéria, mas com o gosto para o alto, para a espiritualidade. Se assim não o fosse – por que nos preocuparíamos tanto com as estrelas que enxameiam o céu, como elas  nascem,  incendeiam-se e de repente se apagam, para renascer novamente como supernovas?

Significativas se nos afiguram as palavras do Mestre:

 “Nem só de pão vive o homem” ( Mt.4,4) e

“Na casa de meu Pai, há muitas moradas” (Jo. 14, 1-2)

 

Aliás, uma delas, quem sabe  – se formos suficientemente prudentes – não estará reservada para nós?
Bsb. 21.08.15

   

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

ARGUMENTOS RACIONAIS À INDIGNAÇÃO  

 

 

Vivemos dias difíceis, o país mergulhado numa espécie de convulsão na economia, na política, a sociedade pasma diante do estado de choque em que se encontra. Será lícito – nos diz o bom senso – toda uma Nação se vê sob tão repugnante situação e, mesmo assim, permanecer calada?

O mesmo bom senso parece nos sugerir que não.  Ora, se a razão que deve comandar a ação e uma vez que essa mesma ação se determine ao largo da razão, então essa  ação tornar-se-á, no mínimo, inócua, posto que não orientada pela boa razão.

Diante desse raciocínio, que se poderia dizer, intrinsicamente dialético, os governos só são considerados justos, quando sua ação tenha como resultado o bem comum, a felicidade dos governados, o bem estar geral da sociedade. É um princípio básico, fundamento, por sinal, ínsito à própria democracia, como governo do povo, pelo povo. Eis a essência da democracia grega, modalidade de governo citada por Platão, ao lado da aristocracia gerida pelos nobres e aquela contraponto  à tirania, dos três regimes o mais nefasto – segundo o filósofo. Observe-se, a propósito, que Platão se inclinava para a república dos sábios e para ele a dita democracia seria regime suscetível de contaminação. Muita gente hoje – constitucionalistas e sociólogos ufanistas – desconhecem essa interpretação platônica ou ousam ignorá-la.

Queiramos ou não, havemos de convir que nossa democracia se encontra doente, em estado de paralisia, suas raízes sub-repticiamente contaminadas – e o pior tendente a se transforar numa espécie de tirania socializante, em que o estado, sub-rogando-se novo Leviatã, avassala seus súditos e os escraviza a uma ideologia que só tresanda a atos e procedimentos arcaizantes, nos quais estão ínsitos paixões e objetivos asfixiantes, lesivos à liberdade e absolutamente contrários aos ideais patrióticos, cristãos e condizentes com o livre-arbítrio de autodeterminação.

Ora, o que vemos, em nosso País é um cenário absolutamente corrosivo, onde grassam o vilipêndio, a falta de ética, o despudorado dilapidar dos bens públicos, como método e ação corriqueiros. O que vemos, estarrecidos, não é só triunfar as nulidades naquela previsão escatológica de Rui Barbosa, que tanto o apavorou, no passado. È muito pior, estratosfericamente danoso: o que se vê é o roubo descarado dos cofres públicos, o assalto armado de colarinho branco às instituições, aos órgãos públicos e privados, sem nenhum pejo, às escâncaras, inclusive à luz e sob a leniência da Justiça, da Lei, da Constituição.

Observem-se isto, a propósito. O povo encontra-se acuado, desesperançado, de certo modo traído por uma eleição contestável, cujo programa de ação é falível e inexequível, por ineficiência e incapacidade de gestão, só tem uma saída dignificante – protestar, em atos de inconformidade, nos panelaços, nos buzinaços  até culminar  nas passeatas gigantes nas ruas.

Evidente que somos avessos ao golpismo, ao intervencionismo irresponsável, conscientes de nossas garantias constitucionais e republicanas, bens obteníveis ao longo de nossa história. Mas, atentemos para o que grandes filósofos, católicos inclusive, ensinaram a respeito do que seria “uma guerra justa”:

Diz Santo Agostinho (sobe o livre arbítrio, I, 5,33, C.Chr. XXIX, 217):

“Não se vê ser lei a que não for justa.”

Sobre a dita “guerra justa”, explicita Agostino que os cristãos deviam ser pacifista, mas podiam usar a força como meio de preservar a paz a longo prazo. O pacifismo, argumenta, não é contrário à defesa dos inocentes ou à autodefesa, necessário, às vezes, o uso da força.

Quanto à observância das leis, refere o mesmo Agostinho, citando Atos 5,29: “É mister obedecer antes a Deus que aos homens.” E doutrina:

“Se o povo é bem moderado e grave, guardião diligentíssimo da utilidade comum, é reta a lei que estabelece ser lícito a tal povo criar os magistrados pelos quais seja a coisa pública administrada. Mas, se, paulatinamente, tal povo se deprava tornando venal o seu sufrágio e confia o regime a homens ESCANDALOSOS e CELERADOS, é correto tirar-se tal povo do poder de atribuir as honras, sendo este de novo confiado ao arbítrio de uns poucos bons”. (sobre o livro-arbítrio, 1, 6,45.C.Chr XXIX, 219) – grifos nossos.

De sua vez, Santo Thomás de Aquino, sobre se a lei humana deve ser mudada: “Deve dizer-se, como se disse, a lei humana é corretamente mudada na medida em que por sua mudança se provê a utilidade comum.”

Sobre a tirania, o  regime tirânico:

“... E, se é insuportável o excesso de tirania, pareceu, a certos, competir ao valor dos homens fortes matar o tirano e exporem-se aos perigos de morte pela libertação da multidão, coisa de que há exemplo até no Velho Testamento” (Jz 3, 15-28).

O mesmo filósofo denominado Angélico estabeleceu três condições que justificam à chamada “guerra justa”:

(a)  deve ocorrer por causa BOA E JUSTA;

(b) ser declarada por autoridade legal; e

(c)  ter como motivação central a PAZ.

 

Pensamos, com a devida reserva, que todas as condições parecem justificar a irascibilidade atual do povo e arrastá-lo às ruas, única ágora democrática justificável diante de tanta indecência, má gestão,  injustiça e irresponsabilidade na gestão do Estado.
 CDL/BSB, 13.08.15